3 REPRESENTAÇÕES SOCIAS
5.1 Pesquisa quantitativa
5.2.2 Classe 2: Risco no Trânsito
A classe 2 foi denominada risco no trânsito por possuir o maior número de UCEs relacionadas a ese tipo de. As principais palavras que compõem esta classe são: Dutra, trânsito, São Paulo, caminhões, caminhoneiros, veículo, moto, empilhadeira e ponte rolante.
Esta classe é representada pelos perigos existentes na estrada que alguns utilizam para trabalhar ou viajar, porém a empilhadeira e a ponte rolante, perigos presentes na indústria, também são encontrados nesta classe, devido à relação com o trânsito e com a circulação de pessoas.
O discurso desta classe está presente em todos os líderes, independentemente do tempo de empresa, escolaridade ou função.
Nos exemplos trazidos sobre riscos no trânsito, principalmente em rodovias, isto é, situações do cotidiano de todos e fora do ambiente de trabalho, apresenta-nos com maior clareza a representação do risco como algo que existe; é conhecido, e ainda assim existe a exposição voluntária a ele. A rodovia Presidente Dutra é descrita como perigosa ou perigosíssima, pelos entrevistados, porém é a rodovia escolhida para uso. Dessa forma, o risco apresentado na utilização de uma rodovia mais perigosa é compensado pelo tempo ganho. O risco na rodovia é representado principalmente pela presença de caminhões, e o controle do risco é representado pela atenção dispendida pelo motorista, isto é, por sua atitude na direção. Abaixo, exemplos deste discurso.
Quando eu vou para São Paulo eu gosto de ir pela Dutra, eu acho mais rápido, mas devido ao trafego de caminhões pesados e de veículos pesados eu acho a Dutra uma rodovia muito perigosa, onde a gente está sempre em situações de risco (Líder 3: idade entre 26 e
35 anos; masculino; Superior completo; mais que 8 anos de empresa; tempo como líder entre 5 e 8 anos; casado).
A Dutra é mais perigosa, eu acho, mas é mais rápida (Líder 6: idade entre 26 e 35 anos; masculino; cursando Ensino Superior; masculino; tempo de empresa entre 5 e 8 anos; menos de 2 anos como líder; casado);
Pra mim é mais perto a Dutra, eu ando menos, na Airton Sena, pego um pouco menos de transito, mas ando 15 km a mais. A Dutra tem mais risco, pois tem mais caminhões, tem que prestar mais atenção, mas e um pouco mais curta (Líder 15: idade entre 26 e 35 anos; Masculino; Superior completo; mais que 8 anos de empresa; menos que 1 ano como líder; casado).
Eu uso a Dutra frequentemente, diariamente para ir pra casa [...]. Já, na verdade eu já sofri um acidente bastante grave, eu não estava dirigindo, eu era criança foi quando meu pai bateu de carro, foi um acidente fatal, eu perdi o pai e sofri uma hemorragia interna (Líder 8: Idade entre 26 e 35 anos; masculino; Superior completo; menos que 2 anos de empresa; menos que 2 anos como líder; casado)
Quando eu vou para São Paulo eu vou pela Dutra. A Dutra, a pista em si é muito boa, é um retão, mas se for falar do fluxo de veículos que você acaba tendo, desde um carro pequeno até caminhões de grande porte você acaba se expondo a alguma coisa, é uma pista boa, não é que nem a Carvalho Pinto, é cheia de caminhão. Porém a gente acaba pegando a Dutra por achar que a gente vai ganhar mais tempo, pegando a Dutra a gente vai chegar mais rápido no local (Líder 10: idade entre 26 e 35 anos; masculino; Superior completo; de 5 a 8 anos de empresa; de 5 a 8 anos como líder; casado)
Nesta classe, assim como na primeira classe e no resultado dos questionários, constata-se que não há diferenciação entre risco e perigo. O risco é representado pelo próprio perigo. No exemplo abaixo, verifica-se que o perigo “caminhoneiro” é definido como risco.
[...] o maior risco, risco mesmo na Dutra são os caminhoneiros, para mim, porque estes caras, caminhoneiros, a gente sabe que [...] (Líder 01: idade 36 a 45 anos; masculino; cursando Ensino Superior; mais que 8 anos de empresa; menos que 2 anos na função de líder; casado).
Nesta classe ainda temos as UCEs relacionadas ao trânsito interno na indústria siderúrgica. O trânsito interno de pessoas na indústria siderúrgica pesquisada está diretamente ligado à presença de empilhadeiras, caminhões e
ponte-rolante. O controle do risco é representado pelo cumprimento de regras e padrões estabelecidos.
[...] para controlar tem as regras gerais e regras específicas de cada área, andar pelas faixas de circulação, dar preferencia para as empilhadeiras ao transitar nas áreas, tem que prestar atenção ao manusear cargas suspensas [...] (Líder 3: idade entre 26 e 35 anos; masculino; Superior completo; mais que 8 anos de empresa; tempo como líder entre 5 e 8 anos; casado).
Analisando as classes 1 e 2, pode-se constatar que o controle do risco é objetivado, pela liderança pesquisada, quanto a suas atitudes frente ao risco. Segundo Jodelet (2005), a objetivação é uma construção seletiva, esquematização estruturante, naturalização, ou seja, um conjunto cognitivo que retém um número limitado de elementos ligados por relações, entre as informações do mundo exterior. O cumprimento de regras e padrões faz parte do controle do risco, mas não é único e nem suficiente para evitar o acidente; outros controles, relacionados a melhorias do sistema de gestão de riscos, são essenciais. Mesmo que se atenda a todos os controles identificados pela empresa, existirá a possibilidade da ocorrência do acidente, pois, segundo a abordagem mecanicista, o risco é definido pela combinação de fatores relacionados à probabilidade e à consequência do evento analisado. O que é possível de se obter é a diminuição do risco, mas não a eliminação dele. Percebe-se, assim, que a liderança utiliza-se apenas de parte do conhecimento disponível sobre o risco.
Sobre a análise de probabilidades de ocorrência de eventos indesejados, é importante relembrar que, segundo Bernstein (1997), ao focalizar somente fatos passados (históricos de acidentes), normalmente as consequências são ignoradas quando o futuro é incerto. O que convencionalmente fazemos é levar em consideração apenas o fato ocorrido, sem observar o potencial de gravidade, e fatos
com consequências reais pequenas normalmente não são lembrados. Para Bernstein (1997), a consequência e a probabilidade não são suficientes para determinar o valor de algo, pois, mesmo que os fatos sejam os mesmos para todos, o valor dado a algum evento depende das circunstâncias específicas de quem o está avaliando. Portanto, não é lógico supor que o risco seja compreendido ou estimado da mesma maneira pelos indivíduos.
Na Figura 33 temos representada a Classe 2. Observa-se que a estrada Dutra, considerada perigo na abordagem mecanicista, é representada pelo risco, isto é, assim como na Classe 1, nesta classe também é constatado que não existe a diferenciação, pela liderança entrevistada, entre risco e perigo. Pode-se verificar também que, ao mesmo tempo em que a Dutra é considerada perigosa, é mais rápida, o oposto da rodovia Airton Sena, que é considerada mais segura, porém mais longa. Bernstein (1997), sobre as preferências das pessoas, relata que, sob condições de incerteza, a racionalidade e a medição são elementos necessários para a tomada de decisão. As pessoas têm preferências e lançam mão das informações em apoio a elas. Na teoria da representação social, o lançar mão de informações é denominado objetivação. A objetivação faz com que as pessoas, mesmo tendo o conhecimento de que utilizar a Dutra é um risco mais elevado em comparação ao uso da Airton Sena, prefiram a Dutra.
Figura 41: Representação gráfica da Classe 2– Risco no Trânsito Fonte: Elaborado pela autora desta monografia
Como pode ser observado na Figura 41, os controles dos riscos relacionados à indústria são representados da mesma forma que os riscos no trânsito externo a ela. A atenção e o cumprimento de regras são representados como suficientes para a não ocorrência do acidente. Esse fato é explicado pelo processo de ancoragem, que reduz idéias que não são conhecidas das categorias conhecidas, realizando comparações com parâmetros internos. Observe-se que os riscos existentes no lar ou no trânsito são conhecidos antes de o sujeito iniciar uma atividade laboral; dessa forma, os resultados obtidos no controle do risco no lar ou no trânsito são ancorados, para a realização no trabalho. A ancoragem dá sentido
Atenção Risco no trânsito Estrada Indústria Dutra Perigosa Mais rápida Ponte- rolante Empilhadeira Airton Sena Controles Mais segura Caminhões Mais longe Pedestre Ganha tempo Perde Tempo Circulação
ao objeto (risco) por meio da identificação ao mundo do indivíduo (lar ou trânsito) e por meio do que já aconteceu na sua história.
O controle é o que traz ao indivíduo o sentimento de segurança, o que lhe traz confiança para executar a atividade, seja ela dentro ou fora do trabalho. A representação do controle é socialmente construída e percebida em todos os discursos dos líderes e nas respostas dos questionários dos demais empregados.