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interessante assim, no seguinte sentido, vem de uma ideia que eu acho legal quando a diretora, se preocupava muito com os filhos, de serem bem olhados enquanto ela trabalhava, né? Então ela resolveu abrir a escola. Então, é uma escola que tem uma grande preocupação, de verdade, com o bem estar físico, emocional, ou seja, a criança como um todo. É uma escola forte que trabalha com coerência, ela trabalha de acordo com o que acredita. Porque o papel aceita tudo, então você pode escrever que você é sócio interacionista, construtivista... Mas a prática, a sua coerência com aquilo que você se propõe, já é outra coisa. Então eu vejo a escola como uma escola coerente, porque ela é sócio interacionista no papel e nas ações, tanto os professores, a direção... se preocupam mesmo com projetos e tudo mais.

Na escola particular (P) as classes selecionadas para a coleta de dados eram do período matutino, compreendendo o horário das 7h10 às 11h40 ou 12h30 (dependendo do dia), com 5 ou 6 aulas diárias e um intervalo com duração de 20 minutos.

3.6 Classes “difíceis” (CD)

Em sua organização e na dinâmica do seu funcionamento, encontramos características comuns a ambas as classes consideradas “difíceis” no que diz respeito à relação professor-aluno, à relação entre pares, às regras, aos conflitos sociais e o trabalho com o conhecimento. Isso se deve ao fato de que algumas características gerais dessas turmas, como a hostilidade, as constantes disputas, oposições e interrupções do trabalho (BLIN, 2005) não favoreciam um relacionamento positivo entre os educadores e os alunos, entre os jovens.

O ambiente sociomoral das duas escolas era coercitivo e autoritário, sendo caracterizado pelo respeito unilateral e pela coação social. Nesse tipo de ambiente não há confrontos de pontos de vista e nem, ao menos, oportunidade para os alunos expressarem seus sentimentos, logo os conflitos interpessoais eram resolvidos ou de forma agressiva ou submissa e as intervenções da escola contribuíam para a manutenção da heteronomia moral.

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3.6.1 A classe “difícil” da escola estadual (CD-E)

Era uma 6ª série, com 41 alunos entre 11 a 14 anos. Nove docentes ministravam aula para essa turma, mas no 2º semestre estava com 32 alunos (alguns foram transferidos para outras escolas ou mudaram de sala/período). Ficava localizada no 1º andar do prédio. Nessa sala havia menos barulho externo do que na outra turma observada. Era uma classe que foi destacada como

muito difícil por todos os educadores da escola, incluindo os professores, a direção, a

coordenação e os monitores de pátio. A maior queixa centrava-se no comportamento agitado, rebeldia, inúmeras situações de conflito entre pares e com os educadores, seguida de apatia e desinteresse pelos conteúdos escolares. Havia alunos que sofriam bullying, alunos que eram isolados pelo grupo devido ao fato de apresentarem melhor rendimento acadêmico ou por serem mais tímidos. No início, apresentavam melhores médias nas avaliações, sendo que foram decaindo no decorrer do ano letivo. A seguir está o relato de um professor (que também ministrava aula na CND-E) e de um aluno dessa classe sobre as percepções que tinham:

PESQUISADORA: Como é essa classe?

PROFESSOR 2: Nossa!!! (risos) Olha... eles brigam muito, eles discutem o tempo todo, se xingam, se batem... E eu levo alguns casos pra direção, pra coordenação, elas... pela quantidade de casos que acontecem na escola, eu sei que pra elas é muito difícil resolver o problema. Já levam para os pais, pra tomar uma atitude, uns melhoram bastante durante um tempo, mas depois voltam a fazer as mesmas coisas. Olha, realmente, eu to de mãos atadas assim, eu não sei o que fazer. Eu tento afastá-los assim, no instante da briga, aí você vai sentar um de um lado e o outro afastado. Eu olho, peço, por favor, digo: Para, não vamos

fazer mais isso, senta, senta! Não sei o que fazer, honestamente, eu não sei nem

como propor algo pra que diminuísse o problema ou pra que parasse.

PESQUISADORA: O que normalmente os professores dizem da sua classe? ALUNO 4: Muito bagunceira, que não faz nada, pior 6ª série da escola. PESQUISADORA: E o que você acha disso que eles dizem?

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3.6.2 A classe “difícil” da escola particular (CD-P)

Era um 6º ano, com alunos entre 11 e 12 anos, tinha 16 alunos e dez docentes. Também ficava localizada no andar térreo do Ensino Fundamental II, porém a sala foi trocada de local no final do 1º semestre, segundo a direção36, para facilitar o controle, devido ao fato de os professores, no início do ano, solicitarem por diversas vezes ao dia a presença da orientadora. Assim, mudaram para perto da sala da orientadora e da sala dos professores (local que os alunos indisciplinados eram enviados para fazer as atividades). Todavia, a percepção dessa turma como muito difícil foi modificando-se no final do ano letivo, devido ao fato de apresentarem boas notas nas provas e a escola valorizar excessivamente o desempenho acadêmico. Os alunos mudaram sua postura, passando a dissimular mais seus comportamentos na frente dos educadores, pois não queriam problemas, principalmente com as famílias, que foram chamadas diversas vezes pela escola e, assim, sancionavam estes adolescentes em casa, ainda mais. Abaixo está a descrição de uma aluna e da orientadora sobre a classe:

PESQUISADORA: Como que é a sua classe? ALUNO 4: É bem bagunceira.

PESQUISADORA: É... Por quê?

ALUNO 4: Ah... Porque os alunos ficam conversando, aí um retruca, o outro fica xingando, é uma zona!

PESQUISADORA: O que os professores dizem sobre a sua classe, o 6º B? ALUNO 4: Que é a classe mais bagunceira.

PESQUISADORA: Por que você acha que eles falam isso? ALUNO 4: Porque os alunos não obedecem.

PESQUISADORA: E o que você acha disso que eles falam? ALUNO 4: Tá certo.

PESQUISADORA: Me conta um pouco sobre as classes que eu fiquei, o 6º B e o 7º A, vamos começar pelo 6º B.

FUNCIONÁRIO (EP,3): O 6º B foi uma sala que chamou muito a atenção pela situação da indisciplina. Era uma classe com um diferencial, é mais difícil, né? Lá estava tudo acontecendo, eles não se encontravam nem com as crianças nem com os adolescentes, nem com eles próprios. Então era uma situação de estresse. Eu digo que por parte dos professores tinha muita reclamação desta sala, e parece que... só pulso firme também não resolvia, ainda mais com alguns professores que não sei... não tem esse jogo de cintura, sabe? Acabou ficando

36 Estamos denominando direção: a diretora pedagógica, o diretor administrativo, a coordenadora e a orientadora pedagógica.

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então uma turminha que chamou a atenção pela grande bagunça, porque via de regra, estavam criando problemas para o desenvolvimento das aulas. Para mim foi bem difícil, porque você tem que atingir nove, dez professores... pra que trabalhem mais ou menos de acordo com aquilo e, muitas vezes você não consegue. Apesar de a essência ser a mesma, eles são ou mais condescendentes, ou mais rígidos, acaba ficando mais complicado com uma classe como essa. Mas os alunos foram melhorando, conversamos com as famílias dos mais indisciplinados várias vezes e percebemos que mesmo sendo muito agitados vão, em geral, muito bem nas provas.