A partir dos estudos feitos sobre sufixação, sabe-se que não há significado somente na raiz de uma palavra, mas seus afixos também possuem um ou mais significados.
Existem autores que não concordam com este ponto de vista, isto é, com a noção de morfema como unidade mínima de significação. Aronoff (1976:8), por exemplo, põe em discussão esta tradicional concepção de morfema, segundo a qual o morfema seria entendido como um signo mínimo, portanto comutável, diversamente combinável e portador de significação discreta. Para o autor, nem todo o morfema tem o estatuto de signo, mas é a palavra que funciona como signo mínimo, já que alguns dos seus constituintes são de difícil caracterização semântica.
Rio-Torto (1998:18) expõe contra-argumentos sobre esta posição, pois, como não há necessariamente coincidência entre o estatuto atual e o estatuto passado de um constituinte, o valor presente do mesmo pode ser iluminado pela sua gênese e pelo seu transcurso diacrônico. O conhecimento das fronteiras dos constituintes morfológicos que integram as unidades lexicais assenta essencialmente, ainda que de uma forma velada ou implícita, na reunião de dois fatores: o instrumentário de segmentação e de classificação das unidades mínimas de significação baseado na teoria estruturalista; e o conhecimento da história de cada um dos constituintes que integram as unidades lexicais.
Assim, segundo a autora (1998:19), a análise e a morfologia das palavras não podem ignorar a origem e a história destas. Numa análise exclusivamente sincrônica, é claro que muitas vezes estes elementos não possuem significação aparente, já que muitas palavras não construídas no português, por exemplo, possuem um estatuto atual diferente da língua de origem, adquirido durante a evolução. Desta forma, a autora conclui que é possível assegurar a concepção tradicional de morfema como signo mínimo.
Como o nosso objetivo é tecer uma genealogia dos sufixos estudados, isto é, como determinado sufixo entrou na língua e qual era sua acepção ao ser formado na língua de
105 origem, fazemos a paráfrase do sufixo a partir do primeiro significado adquirido pela palavra derivada. A indicação das classes semânticas a que pertence o sufixo é feita, portanto, em forma de paráfrases. Cada paráfrase, por sua vez, pertence a uma determinada classe semântico-categorial, indicada por um código trilítere, inspirado no trabalho de Rio- Torto (1998: 83-132)5.
É importante salientar que o nosso objeto de análise é o significado do sufixo, que é distinto do significado da palavra. Após extraída a paráfrase de cada vocábulo do nosso
corpus, deduzimos que os sufixos ─agem, ─ádego, ─ádigo, ─igem e ─ugem formam
palavras que podem ser classificadas em classes relacionais, classes de ação e valores avaliativos, que explicaremos a seguir, evidenciando as paráfrases pertinentes ao nosso objeto de estudo.
Antes, no entanto, de avançar à análise semântico-categorial dos vocábulos, é de interesse explicitar que os sufixos tratados formam exclusivamente substantivos, com exceção somente do adjetivo selvagem. É preciso considerar que no processo de derivação sufixal pode ou não haver alteração da classe gramatical. Rio-Torto (1998:88) chama de
sufixação isocategorial as operações nas quais a base e o seu produto possui a mesma
categoria gramatical; denomina, por sua vez, sufixação heterocategorial as derivações em que o produto pertence a uma categoria diferente da base. De acordo com o propósito do nosso estudo, apontar a transformação categorial proporcionada pelo sufixo significa considerar o momento de formação da palavra, seja no latim, numa outra língua estrangeira, ou no próprio português.
Entenda-se por X a base lexical, verbal ou nominal; Xv, base estritamente verbal; V, como verbo subentendido não-explícito na base; e, C, como complemento sintático preposicionado da palavra formada, tem-se as seguintes classes explicitadas a seguir:
Classe Relacional, Classe de Ação e Classe de Valores Avaliativos.
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Esses códigos são utilizados pelo Grupo de Morfologia Histórica do Português da Universidade de São Paulo (www.usp.br/gmhp).
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3. 2. 1. 1. Classe Relacional
Na regra de formação de palavras (RFP), há um grupo de sufixos que constroem substantivos e adjetivos denominais relacionais (REL), genericamente parafraseáveis por “relativo a X”, “em relação com X”. Esta significação genérica, segundo a classificação em uso pelo Grupo de Morfologia Histórica do Português, admite diversas variantes, determinadas pela semântica da base e do afixo. São exemplos dessas variantes: a de posse (PSS); a de procedência ou gentílico (GEN); a de similitude ou de semelhança (SEM); a de tipicidade (TIP); a de filiação (FIL); a de quantidade locativa (QNL); a de nomina
essendi (ESS). É importante lembrar que a base das palavras desta classe são nomes.
Algumas importantes palavras em língua portuguesa formadas com os sufixos estudados pertencem à classe REL que produzem nomina quantitatis (QNT), parafraseáveis por “conjunto de X”, onde X expressa a base da qual se formou a palavra derivada. A palavra ramagem é um exemplo de REL. QNT, já que sua primeira acepção na língua francesa e na língua portuguesa é “conjunto de X”, em que X representa a base
ramo, possuindo, assim, a ideia de “conjunto de ramos”. Dissemos que esta acepção se
manifestou em ambas as línguas porque não se sabe ao certo qual sua origem, já que pode ter sido formada em francês, do sb. rameau + –age, que resultou em ramage, ou em português. Resultado análogo se obtém com as palavras pelagem, de origem francesa, que significa “conjunto de pêlos”, e o vernáculo malandragem, cuja primeira acepção no português foi “conjunto de malandros”.
À classe relacional também pertence a subclasse tipicidade (TIP), que é parafraseável por: “que é típico de X”, “que é próprio de X”, “que é característico de X”, “que pertence a X”, “situação em que há X”, “situação em que se V X”, “que está na posição (de) X”. Nesta subclasse está o vernáculo camaradagem, em que o sufixo representa a paráfrase, “que é típico de X”, ou seja, “que é típico do camarada”. Outras palavras que pertencem a este conjunto REL. TIP são: linguagem, vocábulo mais antigo presente no português com o sufixo –agem (anterior a 980), do antigo provençal, com o sentido de “situação em que há X”, isto é, “situação em que há língua”. Devido à necessidade específica dos sufixos abordados, foram inseridas nesta subclasse outras três paráfrases: “produto relacionado com
107 X” (em voltagem), “mesmo que X” (em lentigem/ lentigo), “ação de X” (em capangagem, “ação de capanga”).
Outra subclasse que os sufixos estudados abrangem é a de atividade (ATV). Nesta subclasse, as paráfrases são: “atividade associada a X”, “ideologia associada a X”, “filosofia associada a X”, “sistema associado a X”. Enfermagem, de origem portuguesa, é parafraseável por “atividade associada ao enfermo”, e o recente politicagem por “que é próprio da política”. Devido à necessidade específica dos sufixos abordados, foram inseridas nesta subclasse outras duas paráfrases: “indústria associada a X” (em
cartonagem), “fabricação de X” (em sabotagem).
Há subclasses na classe relacional em que são pouquíssimas as palavras formadas pelos sufixos estudados. Outras subclasses relacionadas com os sufixos deste estudo são
posse (PSS) “que tem X” (em chumbagem); semelhança (SEM) “que tem semelhanças
com X” (em borragem), “que tem propriedades de X” (em molugem); local (LOC) “local onde há X” (em tavolagem), “local em que se V X” (em aterragem); vegetal (VEG) “planta que produz X” (em mucilagem), incluiu-se neste estudo também “planta contra X” (em
tussilagem); doença (DOE) “doença associada a X” (em fogagem); e, taxonomia (TAX)
“substância química associada a X” (em ferrugem).
3. 2. 1. 2. Classe de Ação
Os nomes pertencentes à classe de ação são formados a partir de verbos, possuindo, assim, uma base cuja semântica expressa uma ação. Os sufixos estudados neste trabalho abrangem subclasses como local da ação (LCA), movimento (MOV), transitivo (TRS) e
resultado (RES), que serão explicadas em seguida. Todas essas subclasses foram definidas
pelo Grupo de Morfologia Histórica do Português.
O LCA abrange os substantivos locativos que resguardam os valores verbais, isto é, a ação verbal está expressa na base e o sufixo se presta a designar o local. A paráfrase concernente a esta subclasse é “local onde se Xv”. Passagem, palavra muito antiga formada no francês, do v. passer + –age (1080), tem a seguinte paráfrase: “local onde se passa”.
108 Rio-Torto (1998: 119) define “nomina actionis” como nomes deverbais parafraseáveis por “o fato de V” ou “ação/ processo e/ ou resultado da ação/ processo de V”. Para ela, “actionis” recobre a manifestação ou a ocorrência de V (V = verbo subentendido, portanto, não-explícito na base), qualquer que seja a natureza semântica de V. Assim, de acordo com essa definição, para nós, todas as subclasses presentes na classe de ação são “nomina actionis”, já que todas possuem uma base verbal. A partir destas paráfrases dadas por Rio-Torto para definir esta classe de “nomina actionis”, formaram-se três subclasses: a de movimento (MOV), transitivo (TRS) e resultado (RES).
Os sufixos que estão na subclasse movimento (MOV) expressam apenas o deslocamento de um ser ou se referem ao próprio deslocamento, parafraseáveis por “o fato de Xv”, “ação de Xv”, “processo de Xv”, incluindo-se neste estudo “ação de X se V” (ver
bafugem). Aqui não há a presença explícita de um agente ou paciente fazendo a ação,
concentrando-se, assim, somente na ação.
A subclasse de transitivo (TRS), por sua vez, é para ações em que há necessariamente um agente e um paciente para serem executadas. Em ações que envolvem golpes, como facada, pedrada e ovada, o agente e o paciente estão envolvidos de modo explícito na ação. As paráfrases contidas aqui são as mesmas que estão no movimento: “o fato de Xv”, “ação de Xv”, “processo de Xv”.
Na última destas subclasses, que é a de resultado (RES), há um grande número de elementos envolvidos na ação, em que sua semântica pode envolver a ação em si, o processo pelo qual passa esta ação, o resultado da mesma; todos estes itens podem estar presentes em um único sufixo. Assim, tem-se uma série de fases pela qual passa uma ação desencadeada. As paráfrases presentes neste grupo são: “o fato de Xv”, “ação de Xv”
, “processo de Xv”, “estado decorrente de Xv”, todas as ideias ao mesmo, isto é, “ação e/ ou
processo e/ ou estado decorrente de Xv”, uma e outra somente: “ação e/ ou modo e/ ou estado decorrente de Xv”. Podem-se exemplificar estes elos com o vocábulo lavagem, pois há neste vocábulo derivado três valores semânticos: a ação de lavar, o processo de lavar e o estado decorrente de lavar. Foram acrescentadas outras paráfrases a este grupo, devido à necessidade para se fazer a análise: “ação e/ ou modo e/ ou estado decorrente de Xv” (ver
maquilhagem), “ação de X” (ver cabanagem), “ação e/ ou modo de Xv” (ver empenagem),
109 sobre X” (ver bobinagem), “ação de V em X” (ver milhagem), “ação de V X (ver
lanternagem)” (ver ancoragem), “ação de V C com X” (ver compostagem). Nesta subclasse
concentra-se grande parte das palavras derivadas compostas pelos sufixos estudados neste trabalho.
3. 2. 1. 3. Classe de Valores Avaliativos
Seguindo a argumentação de Rio-Torto (1998:128), designou-se por “produtos avaliativos” os derivados isocategoriais gerados no âmbito da RFP AVAL. A avaliação operada no âmbito desta regra define-se como podendo ser de natureza quantificativa e/ ou qualificativa, e consiste na ponderação do grau de presença, manifestação, intensidade ou de plenitude da(s) propriedade(s) da base.
Esta avaliação implica a ordenação do que está sendo avaliado ao longo duma escala, orientada bipolarmente. Quando a avaliação se orienta num sentido de tornar-se menor, de diminuir ou de reduzir-se, fala-se tradicionalmente em diminuição ou em grau de inferioridade. Já quando a avaliação se orienta num sentido de tornar-se maior (em extensão, volume, quantidade, intensidade, grau etc.), de aumentar, fala-se em aumento, em grau de superioridade ou em grau de superlatividade. Porém, além destes graus que se encontram entre o extremo mínimo e máximo, existem valores intermédios, que representam outros tantos níveis de avaliação.
Os nossos sufixos pouco se encontram nesta classe, mas há a presença de alguns vocábulos derivados significativos. Em AVAL. QNT+, cuja ideia é a de “grande quantidade de X”, temos, por exemplo, papelagem, em que a paráfrase seria “grande quantidade de papel”, “que tem muito papel”, e bostagem, “grande quantidade de bosta”.
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