O debate sobre classes sociais pode ser feito à luz de um número significativo de correntes teóricas. Neste trabalho, optamos pela perspectiva marxista. É importante destacar que mesmo dentro da análise marxista existem campos internos díspares, neste sentido, não nos aproximaremos do economicismo. A interpretação de que não existem classes sociais no capitalismo também é uma perspectiva teórica, esta, porém, não será sustentada pela presente pesquisa.
Como afirmou Miliband31, o primeiro imbróglio é decidir se existem ou não classes sociais. Marx32 fundamenta a distinção social a partir da propriedade ou não dos meios de produção. Esta definição, a partir da propriedade privada do elemento não-humano das forças produtivas, é ampla, porém é um marco importante trazido pela contribuição teórica marxista. Possibilita o entendimento de que numa sociedade capitalista o fruto da riqueza da sociedade é o trabalho acumulado e concentrado, assim, a distinção entre burguesia (proprietários) e proletariado (não proprietários) é o marco para o entendimento do processo de exploração e dominação capitalista. Desse modo, aqueles que se apropriam desta riqueza acumulada, deste sobre-trabalho33, compõem a classe
hegemônica (dirigente). Consequentemente, a classe subalterna é representada pelos segmentos que têm essa riqueza retirada, onde os sem tetos são inseridos.
Isto difere, pois, da análise de Smith34 sobre o capitalismo, ao identificar apenas o
pagamento do lucro do capital de maneira dissociada do pagamento do custo do trabalho, como se o trabalho não fosse o efetivo responsável pela geração do pagamento do capital. Neste sentido, o pagamento do capital constitui exatamente a parte não paga ao trabalho, o que Marx35 chamou de mais-valia. Um dos patronos do liberalismo econômico, Adam Smith, não precisou que o fruto da riqueza de um Estado (ou de uma nação) no capitalismo era justamente o trabalho acumulado e a apropriação de seus excedentes por uma classe detentora do poder36.
Esta definição por proprietários e não proprietários, diluída nas obras de Marx, que foram analisadas para esta pesquisa, tem um limite na compreensão da sociedade
31. Ref. 15. 32. Ref. 6. 33. Ref. 15.
34. SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. Volume I. São Paulo: Nova Cultural, 1988. 35. Ref. 6.
mediante a estratificação por renda. A maior parte dos levantamentos estatísticos produzidos e utilizados para esta pesquisa, dentre eles os do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas37, por exemplo, leva em consideração as faixas de renda da
população, identificando setores a partir da quantidade de recebimentos. Em pesquisas mais recentes, o indicativo tem sido sobre a capacidade de consumo da população, o que, para Smith38, é o elemento mais significativo para mensurar as riquezas.
Marx não deixou de compreender as frações de classe, ou seja, não identificou somente dois blocos antagônicos de maneira monolítica. Em Dezoito Brumário39, há uma análise da correlação de forças e das articulações entre as diversas frações de classe se movimentando na disputa pelo poder na França de Luiz Bonaparte. Burguesia financista, pequena burguesia, burguesia agrária, proletariado urbano e rural e lupemproletariado.
O conceito de lupemproletariado, inaugurado no Manifesto Comunista40, foi aprofundado em Miséria da Filosofia41 e Crítica à Economia Política42. Na trama deste último texto o lupemproletariado constitui o segmento do proletariado mais suscetível a cooptação pela burguesia, devido à sua condição própria de miserabilidade e sua luta cotidiana pela alimentação e sobrevivência.
De acordo com Jacob Gorender, em artigo sobre o proletariado e sua missão histórica43, há uma priorização política de Karl Marx e Frederich Engels na classe operária, no sentido de colocá-la na condição do segmento proletário responsável por comandar uma superação do capitalismo. Em função disto há, em nossa avaliação, uma subvalorização e uma desconfiança desmedida para com o lupemproletariado, também corroborada por Cardoso44.
Uma grande parte das habitações sociais são para atender a este público, seja nos programas habitacionais governamentais ou nas habitações populares produzidas de maneira espontânea pela população (favelização). Da mesma forma, o proletariado urbano, que é o conjunto de trabalhadores assalariados que atuam nos mais variados setores.
37. BRASIL. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Síntese de indicadores
sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira. Coordenação de População e Indicadores Sociais. Estudos e pesquisas. Informação demográfica e socioeconômica. Rio de Janeiro: IBGE, 2017. 38. Ref. 34. 39. Ref. 6. 40. Ref. 23. 41. Ref. 20. 42. Ref. 6. 43. Ref. 23.
Compreender esta classe subalterna com sua composição de frações e grupos é imprescindível para se ter noção do movimento de construção do espaço urbano das cidades e da produção de políticas públicas. Os sem tetos acabaram por provocar o Estado a atender de alguma maneira suas demandas, tendo em vista que ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, a imensa quantidade de ocupações urbanas, tipo favelização, feitas pelo proletariado e lupemproletariado. Estas ocupações se davam em grande medida em terrenos de propriedade privada de grandes proprietários de terras urbanas, que compõem o Capital Imobiliário.
Para se entender a ação sobre o espaço urbano de um segmento econômico de vultosa importância, como o Capital Imobiliário, faz-se necessário antes precisá-lo, definir quais tipos de atividades econômicas estaremos denominando e agrupando como Capital Imobiliário, na medida em que há segmentos que, mesmo pertencendo ao Capital Imobiliário, possuem demandas próprias, podendo, algumas vezes, serem conflitantes.
Como exemplo, para as empresas que administram ou são proprietárias de imóveis residenciais, nem sempre é interessante o aumento da disponibilidade e acesso à casa própria, pois isso pode gerar uma queda no preço dos aluguéis, haja vista uma maior oferta. Na década de 1960, este tipo de reação contrária ficava explícito em declarações feitas aos jornais por associações de proprietários e administradores de imóveis residenciais para alugar, quando deixavam entender que o aumento de produção de unidades habitacionais financiadas pelo Banco Nacional de Habitação (BNH) “dificultava” o setor.
Fica delimitado aqui de maneira abrangente Capital Imobiliário, classificando-o enquanto toda empresa/associação empresarial ou outro tipo de agência e escritório que tenha por finalidade atuar dentro do setor imobiliário, promovendo a espoliação urbana, seja na compra, venda e aluguel de terrenos e imóveis urbanos (grandes proprietários e escritórios/agências imobiliárias); compra, venda e aluguel de frações de terrenos e imóveis urbanos existentes ou em forma de crédito construtivo (incorporadoras); ou na construção de novos imóveis (construtoras), bancos e fundos financiadores destes tipos de operações imobiliárias (financiadores imobiliários).