2.1. AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS
2.1.1 Classificação
Geralmente, para classificar uma empresa, usa-se o número de pessoas ocupadas como medida de tamanho, contudo essa medida varia de país para país e não é padronizada. Segundo Torrès (1999), em alguns países além do número de funcionários e volume de negócios, as empresas são classificadas de acordo com a quota de mercado. Alguns estudos agrupam as empresas em micro e pequenas empresas (MPEs), outros em pequenas e médias empresas (PMEs) e outros em micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).
Para os autores Campos et al. (2009, p. 4), a definição das “PMEs varia de acordo com a metodologia adotada por cada país, mais especificamente, pelo tamanho de cada mercado. Países de economia desenvolvida, como os Estados Unidos, identificam-nas como tendo 500 funcionários ou menos.” Entretanto, nos países em desenvolvimento, onde o tamanho do mercado e os indicadores de tamanho das organizações são menores, as PMEs possuem entre 100 e 250 trabalhadores. Os autores afirmam que, quando se trata da questão da formação de blocos econômicos, tem aumentado o consenso referente à classificação das PMEs. Puga (2000), em seu estudo, define que, na União Europeia, tais empresas possuem até 250 empregados; nas Américas, o critério adotado pelos países que integram o NAFTA e pelo Brasil, considera como MPMEs aquelas com até 500 empregados. Na Ásia e Taiwan, consideram-se MPMEs aquelas que possuem até 200 empregados; na Coréia do Sul e Japão, até 300 empregados.
No Brasil, apesar do grande número de MPEs existentes, não há unanimidade sobre a caracterização do porte dessas empresas. Utilizam-se dois critérios, não excludentes entre si: o número de pessoas ocupadas e o valor da receita bruta anual. Os órgãos representativos do setor e instituições de pesquisa utilizam ou o número de pessoas ocupadas ou a receita bruta anual; já as instituições financeiras,
como o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Nordeste do Brasil (BNB), entre outras, utilizam a receita bruta anual.
O SEBRAE utilizava o número de pessoas ocupadas para classificar o porte de uma microempresa ou pequena empresa, entretanto, passou a utilizar o critério da receita bruta anual da MPE em consonância com a Lei Complementar nº 123, denominada Estatuto Nacional da Microempresa e Empresa de Pequeno Porte, também conhecida como Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que foi sancionada em dezembro de 2006. A Lei Complementar n° 139 de 10 de novembro de 2011 altera os valores do teto que delimita o faturamento da microempresa e da pequena empresa a partir de 1º de janeiro de 2012.
O quadro 1 sintetiza os critérios adotados por algumas instituições para o enquadramento de micro e pequenas empresas no Brasil.
Quadro 1 - Critérios para classificação das MPEs no Brasil - 2012
Instituição
. Porte
Atividade Econômica Indústria7 Comércio/ Serviços
IBGE Número de pessoas ocupadas8
Micro 0 a 19 0 a 9
Pequena 20 a 99 10 a 49
SEBRAE e BNB Receita Bruta Anual
Micro menor ou igual a R$ 360 mil
Pequena maior que R$ 360 mil e menor ou igual a R$ 3,6 milhões
BNDES Receita Bruta Anual
Micro menor ou igual a R$ 2,4 milhões
Pequena maior que R$ 2,4 milhões e menor ou igual a R$ 16 milhões
Fonte:Elaborado pela autora a partir de informações obtidas no IBGE (2012), SEBRAE (2012), BNB (2012) e BNDES (2012)
Pode-se notar que os tipos de classificação dadas às MPEs diferem quanto ao número de pessoas ocupadas e quanto à receita bruta anual, critérios esses considerados quantitativos. Essas diferenças podem ser atribuídas às finalidades com que essas instituições pretendem interagir com tais empresas. De modo geral, para fins fiscais e de acesso ao crédito, o critério utilizado tem sido o valor da receita bruta anual; e, para a realização de estudos, pesquisas e levantamento estatísticos, usa-se o critério número de pessoas ocupadas.
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As mesmas delimitações de porte foram utilizadas para a atividade econômica construção civil. 8
Independentemente da sua classificação, na maior parte das vezes, as microempresas e pequenas empresas são tratadas como iguais, entretanto, quando analisadas mais profundamente, observa-se que elas são diferentes.
Pequenas empresas de base tecnológica não devem ser colocadas em uma mesma classificação de uma pequena empresa de produtos tradicionais, pois as primeiras geralmente participam de editais públicos para conseguir recursos públicos, participam de licitações, mantêm parcerias com universidades, contam com colaboradores com especialidades e investem em P&D. Contudo, as pequenas empresas de produtos tradicionais, diferentemente das de base tecnológica, investem muito em mão de obra não especializada.
De acordo com Torrès (1999), os critérios quantitativos por si sós, não explicam como as empresas de pequeno porte operam ou, mais precisamente, a especificidade de sua gestão, sendo necessário admitir critérios qualitativos que refletem a natureza de distinção da gestão dos pequenos negócios. Ainda de acordo com o autor, os critérios qualitativos usados com mais frequências são: i) recursos limitados (humanos e financeiros); ii) participação majoritária no negócio; iii) gestão centrada no proprietário-gerente; iv) estratégia altamente intuitiva, informal e reativa; v) produção adaptável e flexível; vi) estrutura simples, com supervisão direta; vii) empregados com múltiplas habilidades; e viii) território limitado com forte “penetração regional”.
Alguns autores, a exemplo de Drucker (1981), afirmam que a estrutura administrativa, especialmente a estrutura da alta administração, é o único critério de confiança para avaliar o tamanho de uma empresa. O autor, a partir da estrutura administrativa, apresenta quatro estágios do tamanho de uma empresa, cada qual com características distintas, conforme mostrado no quadro 2.
Quadro 2 – Classificação das empresas de acordo com a estrutura administrativa
Porte Características
Micro Não existe separação de níveis hierárquicos. O dirigente utiliza a maior parte do tempo em tarefas operacionais do empreendimento. O restante do tempo é utilizado em funções do empreendimento (compras, contabilidade etc.).
Pequena A empresa já necessita de organização administrativa, exige um nível administrativo entre o
“chefe” e os trabalhadores. O dirigente acumula as
seguintes funções: a maior parte do tempo é utilizada em áreas funcionais (finanças, vendas, compras, etc.) e o restante do tempo é direcionado à função de direção e a tarefas operacionais.
Média O cargo de cúpula exige dedicação em tempo integral e os objetivos empresariais globais não podem ser estabelecidos pelo ocupante deste cargo. A inaptidão,na resolução dos problemas de organização administrativa é uma das causas mais freqüentes e graves de dificuldades deste estágio
Grande A função de direção suplanta a capacidade de uma pessoa, dividindo-se em
coordenação de níveis médios e estabelecimento de objetivos empresariais. Fonte: Drucker (1981)
Finalmente, Souza e Mazzali (2008) argumentam que as classificações variam de país para país e de acordo com os objetivos das políticas de apoio e promoção. Para os autores, apesar da variedade de cortes, as classificações são úteis, mas os critérios têm sempre certo grau de arbitrariedade, em grande medida ligado aos seus propósitos. Ainda, de acordo com os autores, o reconhecimento da acentuada heterogeneidade no segmento das MPEs permite apontar a fragilidade de argumentos a favor de medidas indiscriminadas de apoio, justificadas apenas pelo porte pequeno das empresas. Quando se trata de MPEs, não se justifica uma política geral, visto que elas não constituem um bloco único e homogêneo.