Capítulo III: A evolução do emprego formal entre 2003 e 2013: categorias
3.1 Classificação das categorias ocupacionais
Como descrito acima, a classificação da estrutura de ocupações aqui proposta é representada por quatro grandes categorias ocupacionais, definidas com base nos salários médios das ocupações, agrupadas conforme o segundo nível de agregação descrito na CBO187
políticas públicas na área do mercado de trabalho. Disponível em:
<http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/saibaMais.jsf>. Acesso em: 10 set. 2016.
186 Ver Introdução desta tese.
187 A CBO possui uma estrutura hierárquico-piramidal composta por 10 grandes grupos ocupacionais, que se
subdividiam em 47 subgrupos principais, mas passaram para 49 subgrupos principais devido à separação dos “Profissionais em gastronomia” e dos “Trabalhadores do artesanato”. O subgrupo principal “Operadores de outras instalações industriais”, componente do grande grupo “Trabalhadores da Produção de Bens e Serviços Industriais de Processos Contínuos”, não consta nos registros da RAIS nos anos selecionados para esta pesquisa e os subgrupos principais “Membros das forças armadas”, “Policiais militares” e “Bombeiros Militares”,
2002, denominado de subgrupos principais, escolha que se mostrou satisfatória aos objetivos da análise. Para realizar o cruzamento com os setores de atividade utilizou-se a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 95), agregada através do nível Seção188. A CBO, embora descrita com 49 subgrupos principais, de acordo com estrutura disponível no site do Ministério do Trabalho e Emprego, em 2013 a RAIS registrou vínculos referentes a 46 conjuntos ocupacionais. Contudo, para efeito de comparação, optou-se por agregar esses 46 conjuntos em 44 conjuntos, de forma a compatibilizar a estrutura ocupacional verificada em 2013 com as estruturas dos anos de 2008 e 2003, na medida em que a estrutura de 2013 foi acrescida de mais dois subgrupos principais que não registravam vínculos na base de 2008 e 2003, a saber, “Profissionais em gastronomia” e “Trabalhadores do artesanato”. Dessa forma, de acordo com as características das categorias ocupacionais, o primeiro subgrupo principal foi agregado ao subgrupo principal “Trabalhadores dos serviços”, quanto ao subgrupo principal “Trabalhadores do artesanato”, este foi agregado ao subgrupo “Trabalhadores da indústria têxtil, do curtimento e vestuário”.
Feita a compatibilização, construiu-se a classificação das ocupações por categorias de renda, utilizando-se os resultados obtidos em dezembro de 2013 – mês de registro da RAIS –, de forma a identificar qual a estrutura ocupacional gestada ao final do período considerado, de acordo com as remunerações médias. Foram comparados os salários médios de cada subgrupo principal com o salário médio do conjunto dos subgrupos. Esse exercício possibilitou agrupar os subgrupos principais em quatro categorias de renda média. A primeira, categoria A, de alta renda média, compõe-se das ocupações com rendas médias entre 2,0 e 4,9 vezes o salário médio geral, o que inclui os quatro subgrupos principais do grande grupo “Membros superiores do poder público, dirigentes de organizações de interesse público e de empresas e gerentes”, além de cinco dos oito subgrupos principais do grande grupo “Profissionais das Ciências e das Artes”. A categoria B, de média-alta renda média, incorpora as ocupações com rendas médias entre 1,2 e 1,8 vez o salário médio geral, o que inclui dois dos três subgrupos principais restantes do grande grupo “Profissionais das Ciências e das Artes”, com cinco dos oito subgrupos principais do grande grupo “Técnicos de Nível Médio”, além de um dos subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores da Produção de Bens e Serviços
componentes do grande grupo de mesmo nome, aparecem na pesquisa como “Não classificados”. Esses subgrupos principais se desagregam em 192 subgrupos, que podem ser separados ainda em 596 grupos de base ou famílias, as quais, por sua vez, são desagregadas em 2.422 ocupações. Disponível em: <http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/informacoesGerais.jsf#7>. Acesso em: 12 set. 2016.
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Industriais de Processos Contínuos” e um dos três subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores em Serviços de Reparação e Manutenção”.
A categoria C, de média-baixa renda média, agrega as ocupações com rendas médias entre 0,8 e 1,0 vez o salário médio geral, que inclui três dos oito subgrupos principais do grande grupo “Técnicos de Nível Médio”, que não foram incluídos na categoria B, um dos dois subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores de Serviços Administrativos”, um dos quatro subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores Agropecuários, Florestais e da Pesca”, três dos nove subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores da Produção de Bens e Serviços Industriais de Processos Discretos”, três dos seis subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores da Produção de Bens e Serviços Industriais de Processos Contínuos” e um dos três subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores em Serviços de Reparação e Manutenção”. Para terminar, a categoria D, de baixa renda média, contém as ocupações com rendas médias entre 0,5 a 0,7 vez o salário médio geral, e é formada pelo subgrupo principal restante do grande grupo “Trabalhadores de Serviços Administrativos”, pelos dois subgrupos principais que compõem o grande grupo “Trabalhadores dos Serviços, Vendedores do Comércio em Lojas e Mercados”, por três dos quatro subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores Agropecuários, Florestais e da Pesca”, considerando que um está na categoria C, por seis dos nove subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores da Produção de Bens e Serviços Industriais de Processos Discretos”, por um dos seis subgrupos principais do grande grupo “Trabalhadores da Produção de Bens e Serviços Industriais de Processos Contínuos” e, finalmente, pelo último dos três subgrupos principais do grande grupo “Serviços de Reparação e Manutenção” – essa classificação pode ser conferida no Anexo1.
Conforme a classificação utilizada, as categorias A e B, compostas pelos subgrupos principais de maiores salários médios, são formadas por ocupações de direção e profissionais de nível superior de educação, grande parte das ocupações técnicas de nível educacional médio e uma pequena parte de ocupações manuais da produção de bens e serviços industriais. Quanto às categorias C e D, que englobam os subgrupos principais de menores salários médios, são formadas por uma minoria de ocupações técnicas de nível médio, a maioria das ocupações manuais da produção de bens e serviços industriais e todas as ocupações de serviços de apoio administrativo, de prestação de serviços, de vendas e de trabalho na agropecuária, na extração florestal e na pesca. Observando a categoria D, de menor salário médio, é perceptível a composição basicamente por ocupações ligadas à agropecuária, aos serviços, às vendas e à produção de bens e serviços industriais de processos discretos. A
categoria C é composta pela minoria dessas ocupações, as ocupações técnicas de piores salários e as ocupações manuais da produção de bens e serviços industriais de processos contínuos – ver Anexo1.
Poucas alterações ocorreram nessa classificação dos subgrupos principais, conforme as quatro grandes categorias de renda média, entre os anos de 2003 e 2013. Entre as categorias A e B, verificaram-se duas mudanças. O subgrupo principal “Comunicadores, artistas e religiosos”, que em 2003 estaria na categoria A, em 2013 foi classificado na categoria B. O movimento inverso se observou para o subgrupo principal “Diretores, gerentes em empresas de serviços de saúde, da educação ou de serviços culturais”, que estaria na categoria B em 2003, mas em 2013 foi classificado na categoria A. Considerando as categorias C e D, mais duas alterações foram identificadas. O subgrupo principal “Trabalhadores da mecanização agropecuária e florestal”, que em 2003 estavana categoria D, deslocou-se para a categoria C em 2013, ao passo que o subgrupo principal dos “Trabalhadores em funções transversais”, que em 2003 estava em C, em 2013 desceu para a categoria D – ver Anexo1.
Essas informações sinalizam para o fato de que tal classificação dos subgrupos principais por categorias de renda média permite uma análise satisfatória do que ocorreu com a estrutura ocupacional ao longo dos dez anos observados, indicando que não houve grandes alterações na estrutura ocupacional, apesar da melhora na distribuição das remunerações, como será evidenciado no item 3.2.
Na tabela 3.1, pode ser observado que a quantidade média de vínculos de emprego captados em 31 de dezembro de 2013 era de duzentos e oitenta e seis mil vínculos nos subgrupos principais de mais alta renda média, que compõem a categoria A, e um milhão cento e vinte e cinco mil vínculos nos subgrupos principais de mais baixa renda média, que compõem a categoria D. Dessa forma, identifica-se uma relação inversa entre a quantidade média de vínculos de emprego dos subgrupos principais e seus níveis de remuneração, o que reflete o caráter mais especializado, ocupacional e setorial desses subgrupos principais com maiores salários.
As categorias A e B têm salários médios bem maiores do que a média geral de salários dos empregos da RAIS e as duas juntas registravam uma participação de 23,2% desses empregos em 31 de dezembro de 2013. As categorias de subgrupos principais de salários inferiores, categoria C e categoria D, têm salários médios menores que a média salarial geral da RAIS e, em conjunto, participavam com 76,7% do emprego em 31 de dezembro de 2013 – ver tabela 3.1. Essa classificação dos subgrupos principais conforme categorias de renda média reflete, portanto, de forma satisfatória a distribuição dos empregos da RAIS de acordo com o nível salarial, na medida em que mais de 70,0% dos empregos da RAIS têm remuneração inferior à média salarial geral, confirmando a enorme assimetria da distribuição de salários do emprego formal no Brasil. Essa característica é verificada ainda na grande disparidade entre a média e a mediana dos salários. O salário médio do total dos empregos da RAIS em dezembro de 2013 era 47,2% acima da mediana dos salários – ver tabela 3.4.
Na tabela 3.1, é possível verificar as enormes diferenças entre os salários médios das categorias de subgrupos principais. Observando o salário médio da categoria C em 2013, o valor era 63,0% maior que o salário médio da categoria D, e o salário médio da categoria B era 54,8% maior do que o salário médio da categoria C, o qual, por sua vez, era superado em 66,7% pelo salário médio da categoria A. Todavia é preciso sublinhar que, ainda que as diferenças salariais entre as categorias de ocupação e, portanto, entre os subgrupos principais, fossem bastante grandes em 2013, as disparidades de rendimento dentro de cada subgrupo principal eram muito maiores.
Isso fica evidenciado quando se observa a dispersão dos salários médios entre as categorias de subgrupos principais que, em 2013, representava apenas 17,0% da dispersão total dos salários dos empregos da RAIS. Isso quer dizer que a média das dispersões de salários dentro das categorias equivalia a 83,0% da dispersão salarial total dos empregos da
RAIS, o que mostra a enorme disparidade de renda que ocorre dentro de cada subgrupo principal.
A distribuição dos empregos da RAIS por faixas de salário mínimo, considerando as quatro grandes categorias ocupacionais, reforça a característica de enormes disparidade e assimetria da distribuição salarial da nossa estrutura de ocupações, relacionada à elevada participação das categorias ocupacionais de baixos salários médios. Observando a tabela 3.2, a categoria D tinha 43,8% das ocupações com renda média até 1,5 SM e 84,2% até 3 SM. Entre 3 SM e 5 SM, a participação não chegava a 8,0% e, acima de 5 SM., não completava 4,0%. Desse modo, em 2013 era enorme a proporção dos ocupados com até 3 SM e insignificante a proporção com mais de 5 SM no grupo de baixa renda média, ou seja, não basta dizer que a renda média da categoria D é baixa, mas deve-se atentar para o fato de que, em 2013, também havia uma quantidade imensa de trabalhadores com renda média de até 3 SM.
Quanto à categoria C, de média-baixa renda média, o peso das ocupações com salários médios de até 1,5 SM era de 25,4%, sendo um pouco mais que a metade da proporção existente em D para a mesma faixa de renda. Mesmo assim, somando as duas primeiras faixas de renda, a categoria C apresentava quase 65% de ocupações. Já a proporção de ocupações com rendimento médio acima de 5,0 SM não era elevada (quase 15,0%), mas era muito mais significativa que a proporção existente na categoria D.
Na categoria B, a proporção das ocupações com remunerações médias acima de 5,0 SM era de cerca de 30,0%, sendo o dobro da proporção da categoria C. Ainda na categoria B, é possível verificar que mais de 40,0% das ocupações tinham renda média de até 3,0 SM, porém, deste conjunto de trabalhadores, somente 13,7% auferiam renda média de até 1,5 SM.
Não é uma proporção elevada, contudo também não é desprezível, o que ocorre de forma similar na categoria A.
A categoria A, de alta renda média, apresentava 10,0% das ocupações com renda média de até 1,5 SM e 30,0% com renda média de até 3,0 SM, enquanto que na categoria B, os trabalhadores com essa faixa de renda, representavam mais de 40,0%. A maior diferença entre essas categorias de rendas médias mais elevadas está na proporção de ocupações com rendimentos médios acima de 10,0 SM. Na categoria A, as ocupações com essa faixa de renda média superavam 20,0%, enquanto que na categoria B a participação desses trabalhadores caiu para 10,0%. Desse modo, o que importa destacar é o fato de que essa classificação evidencia a enorme dispersão salarial dentro dos subgrupos principais na medida em que, mesmo nas duas categorias de mais alta renda média em 2013, não era desprezível a quantidade de ocupações com salários mais baixos, mas era muito maior a proporção daqueles que ganhavam salários médios acima de 5,0 SM. Já nos outros dois conjuntos de subgrupos principais, de remunerações médias mais baixas, eram insignificantes as proporções de trabalhadores na faixa de renda acima de 5,0 SM, no entanto era muito elevada a proporção de ocupações com renda média inferior a 1,5 SM.
As informações da tabela 3.3 possibilitam identificar que, em 2013, o total das ocupações das duas categorias com rendas médias mais baixas (76,7%) era bastante superior ao total das ocupações das categorias de maiores rendas médias (23,2%). Nota-se, portanto, que a proporção das categorias de mais baixos salários médios na geração de vínculos de emprego de alta remuneração média era bem maior do que a proporção das categorias de mais altos salários médios na geração de vínculos de emprego de baixa renda média. Ainda assim, a maioria dos vínculos de emprego nas faixas de renda acima de 5,0 SM era gerada nas duas categorias de maiores salários médios e a maior parte dos vínculos de emprego nas faixas de renda abaixo de 5,0 SM era gerada nas duas categorias de remunerações médias inferiores.
Observando as medianas dos salários das categorias de subgrupos principais, conforme a tabela 3.4, identifica-se uma grande diferença entre as categorias, porém as diferenças maiores se encontram entre os salários médios. Nas categorias de maiores níveis salariais, registravam-se diferenças proporcionais maiores entre os salários médios e as medianas, chegando a ser mais de uma vez e meia na categoria A. Esses indicadores mostram que o grau de assimetria da distribuição de salários era muito elevado em todas as categorias de subgrupos principais, o que também pode ser comprovado através da elevada proporção de ocupações com rendimentos menores que a média salarial. Os dados de dezembro de 2013 da RAIS permitem concluir que, na categoria de mais baixo salário médio, quase 58,0% dos ocupados tinham remunerações inferiores à média, o que nas outras categorias girava em torno de 65,0%. Analisando o conjunto das categorias de subgrupos principais, aqueles que auferiam renda média inferior ao salário médio geral eram 69,5%, indicando uma assimetria da distribuição salarial total maior do que a assimetria contida em cada grande categoria. Os indicadores referentes ao coeficiente de variação, por sua vez, mostram o enorme leque salarial do total das ocupações da RAIS e ainda indicam que a maior dispersão relativa dos salários, em 2013, ocorria na categoria de mais alta renda, com um desvio padrão 21,0% superior à média salarial da categoria, e a menor dispersão era registrada no grupo de baixa renda média, com um desvio padrão 87,0% do salário médio da categoria. Contudo o coeficiente de variação indica que a maior dispersão ocorria para o conjunto dos vínculos, um pouco mais de 40,0% da média geral de salários, o que reforça a capacidade da classificação da estrutura de ocupações por quatro grandes categorias de subgrupos principais, conforme a remuneração média, de descrever de forma sintética a distribuição salarial dos empregos da RAIS.
A síntese da estrutura ocupacional brasileira, a partir dessa classificação em apenas quatro grandes categorias de subgrupos principais, permite, portanto, identificar uma enorme diferenciação entre as categorias ocupacionais, o que fica nítido quando se compara a
categoria de mais alta renda média e a categoria de renda média mais baixa. Dessa forma, a despeito das dificuldades de análise em virtude da brutal disparidade salarial e elevada assimetria da distribuição de salários dos empregos formais, mesmo entre ocupações iguais – reflexos de uma estrutura econômica caracterizada por forte heterogeneidade e pelas debilidades do nosso sistema de relações de trabalho –, a classificação aqui definida pode ser considerada como uma representação sintética razoável, criando assim um critério de análise que viabiliza o estudo do emprego formal descrito na RAIS e sua evolução nos períodos de aceleração e desaceleração do crescimento da economia, em uma trajetória de significativa estruturação do mercado de trabalho e inclusão maior dos trabalhadores da base da pirâmide social, entre 2003 e 2013.
3.2 Composição do emprego formal na aceleração e desaceleração do crescimento