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Classificação das impressões de prazer e de dor

2. O orgulho dentro da classificação humeana das impressões da mente

2.5. As impressões de prazer e de dor

2.5.1. Classificação das impressões de prazer e de dor

É importante analisarmos as impressões de prazer e de dor, pois elas são fundamentais dentro do mecanismo proposto por Hume para explicar o surgimento do orgulho e da humildade.

No início do Tratado, Hume havia falado sobre a existência inicial de vários tipos de impressão atingindo os sentidos: calor, frio, sede, fome, prazer e dor. Eis a passagem: “Primeiro, uma impressão atinge os sentidos, fazendo-nos perceber o calor ou o frio, a sede ou a fome, o prazer ou a dor, de um tipo ou de outro.”. T 1.1.2.1.

Isso significa que todas essas seis impressões mencionadas são, no entender de Hume, impressões de sensação. Significa também que existem outros sentidos veiculando impressões de sensação além do tato, da visão, da audição, do olfato e do paladar; esses outros sentidos, para os quais não existiriam nomes específicos, seriam responsáveis pelas percepções de sede, de fome, de prazer e de dor. Alguns comentadores de Hume, entretanto, entendem que a sede e a fome seriam impressões de reflexão, baseados em outras evidências textuais, como veremos adiante nesta dissertação, mais precisamente no item 2.6.1.

Quanto ao prazer e à dor no Tratado, Fieser (1992: 11-12) afirma que existem tanto prazeres e dores que são impressões de sensação (caso da dor de alguém ao ter a pele cortada) quanto prazeres e dores que seriam impressões de reflexão (caso dos juízos estéticos e morais)25.

Podemos reparar que o prazer e a dor mencionados na passagem citada no segundo parágrafo do presente item desta dissertação encontram-se incluídas sob essa categoria das impressões de sensação. Na passagem do Parágrafo T 2.1.1.1, já citado no início do item 2.2, Hume se

manifestou no mesmo sentido. Aqui a repetimos:

Do primeiro tipo [as impressões de sensação] são todas as impressões dos sentidos, e todas as dores e prazeres corporais.”. (T 2.1.1.1; meus colchetes).

Hume ainda faz uma outra colocação a respeito dos prazeres e dores corporais: “Dores e prazeres físicos26 são fontes de muitas paixões, seja quando sentidos, seja quando considerados pela mente; mas surgem na alma, ou no corpo (como se preferir), originalmente, sem nenhum pensamento ou percepção precedente.”. (T 2.1.1.2).

Esse prazer e essa dor corporais mencionados nas duas últimas passagens certamente não compreendem aquilo a que Hume se referirá como sendo a agradabilidade e a desagradabilidade típicas das paixões. Mas será que as impressões “separadas” 27 de prazer e de dor que Hume diz

25 Para ser mais exato, Fieser (1992: 11) fala em prazeres e dores reflexivos (em contraste com prazeres e dores que

seriam impressões de sensação) e que esses prazeres e dores reflexivos seriam o que ele chama de impressões de reflexão geralmente calmas. Fieser (1992: 7) usa os termos ‘impressão de reflexão geralmente calma’ para se referir à classe dos sentimentos experimentados em relação à beleza e à deformidade e ‘impressão de reflexão geralmente violenta’ para se referir à classe que inclui o amor, ódio, orgulho, humildade, alegria e tristeza.

26 No original, “bodily pains and pleasures” (HUME, 1896).

27 Essa expressão aparece no Tratado pela primeira vez na passagem seguinte, que citamos da edição inglesa pela

maior evidência em que aparece a noção de prazer ‘separado’ e dor ‘separada’: “(...) every cause of pride, by its peculiar qualities, produces a separate pleasure, and of humility a separate uneasiness”. (HUME, 1896: 285). A edição brasileira traz a seguinte tradução da passagem: “toda causa de orgulho, por suas qualidades peculiares, produz um prazer à parte, e toda causa de humildade, um mal-estar.”. T 2.1.5.1.

que experimentamos, por exemplo, ao contemplarmos uma coisa bela ou uma coisa feia constituirão um prazer e uma dor corporais?

Quando Hume fala em impressões “separadas” de prazer como sendo os efeitos diretos da beleza, da virtude e da riqueza, não fica claro se essa impressão é de sensação ou de reflexão. Hume fala em impressões de prazer e de dor que são separadas das paixões em diversos momentos ao longo do Livro T 2. Essas impressões “separadas” de prazer e de dor são semelhantes à agradabilidade e à desagradabilidade típicas das paixões, mas, segundo Hume, diferentes destas. Essa questão será discutida em maior profundidade no próximo item.

O problema, enfim, é saber se, para Hume, existem prazeres e dores que são impressões de reflexão28. A dor que se segue a um ato de ver uma coisa feia e disforme pode ser comparada à dor que se segue ao ato de sentir o toque de uma lâmina. No primeiro caso, há uma impressão de sensação visual seguida de uma dor e, no segundo, caso há uma impressão de sensação de tato seguida de uma dor. Se no segundo caso Hume afirma explicitamente que a dor é uma impressão de sensação29, podemos perfeitamente suspeitar, por analogia, que a dor no primeiro caso é também uma impressão de sensação. Por outro lado, podemos entender que os dois casos são inteiramente distintos e que não cabe o raciocínio por analogia, o que nos leva a suspeitar, a partir dessa constatação, que a dor no primeiro caso não é uma impressão de sensação, mas uma

28 Se considerarmos, como faz Fieser (1992: 11) que as paixões e os sentimentos estéticos são espécies de prazer e de

dor, concordaremos que existem prazeres e dores que são impressões de reflexão (afinal, Hume concordaria que paixões e sentimentos estéticos são impressões de reflexão). Se, por outro lado, considerarmos que paixões e sentimentos estéticos são apenas causalmente relacionados com prazeres e dores, mas que não são propriamente prazeres e dores, então permanecerá a dúvida se existem prazeres e dores que sejam impressões de reflexão.

29 Essa menção se encontra na Seção T 1.4.2, que tratava do ceticismo quanto aos sentidos: “(...) observemos que os

sentidos nos transmitem três tipos diferentes de impressões. O primeiro tipo compreende as impressões da figura, volume, movimento e solidez dos corpos. O segundo, as de cores sabores, aromas, sons, calor e frio. O terceiro compreende as dores e os prazeres resultantes da aplicação dos objetos a nossos corpos; por exemplo, quando uma lâmina corta nossa carne, e coisas semelhantes.”. (T 1.4.2.12). Nessa passagem, está explícito que existem prazeres e dores que são impressões de sensação.

impressão de reflexão que surge na mente como um reflexo interno do aparecimento na mente da impressão visual da coisa feia e disforme.

A posição de prazeres e dores no sistema humeano das impressões da mente fica, portanto, em aberto. O próprio Hume comenta que “é evidente que, sob o termo prazer, compreendemos sensações30 muito diferentes, que não apresentam mais que uma distante semelhança umas com

as outras, suficiente apenas para fazer que sejam expressas pelo mesmo termo abstrato.”. (T 3.1.2.4). É de se reparar que Hume reconhece que chamamos pelo termo ‘prazer’ várias coisas diferentes. Entretanto, ele não diz na passagem acima que o termo ‘prazer’ compreende várias impressões diferentes, de tipos diferentes, mas diz que são “sensações” muito diferentes. Isso poderia nos levar a pensar que, apesar de diferentes, todas essas sensações seriam efetivamente impressões de sensação, mas, por outro lado, também poderia nos levar a pensar que algumas sensações de prazer são físicas e externas (e, portanto, impressões de sensação), enquanto outras são meramente internas (e, portanto, impressões de reflexão).

2.5.2. Impressões de prazer e de dor não componentes das impressões de reflexão violentas