1. BASES TEÓRICAS DO DIREITO AO ESQUECIMENTO
1.4. DIREITOS DA PERSONALIDADE
1.4.2. Classificação
Nesse momento, é de fundamental importância a classificação apresentada por Tartuce
(2014) acerca dos direitos da personalidade, analisando quais os aspectos que são
primordialmente tutelados por determinado direito. O primeiro grupo está relacionado com o
direito à integridade física, compreendendo o direito à vida e ao corpo, vivo ou morto. O
segundo grupo guarda relação com o direito à integridade intelectual, abrangendo a liberdade
de pensamento e os direitos autorais. Já o terceiro grupo envolve o direito à integridade moral,
abarcando a honra, a imagem e à identidade pessoal.
Considerando a temática abordada no presente trabalho, iremos nos deter ao estudo do
terceiro grupo, acerca dos direitos à integridade moral, realizando uma análise quanto aos
direitos da personalidade conferidos pelo art.5º, X da Constituição Federal.
Em um primeiro instante, necessária a percepção de que o direito à integridade moral
decorre da construção de um arcabouço jurídico que assegure a tutela do equilíbrio
psicológico do ser humano. De tal forma, as concepções adotadas em torno de direito à
intimidade e à vida privada despertam divergências doutrinárias quanto a existência de uma
diferenciação clara entre o conceito de ambas, já que as terminologias são muitas vezes
utilizadas para fazer referência a um mesmo objeto, ainda que a previsão constitucional
constante no art.5º, X da CF tenha lhes considerado de maneira individualizada.
Para Mendes (2012), o objeto do direito à vida privada são os comportamentos e
acontecimentos ligados aos relacionamentos pessoais de forma genérica, abrangendo as
relações comerciais e profissionais que o sujeito não pretende que alcancem o domínio
público. Já quanto o direito à intimidade, seu âmbito protetivo estaria restrito as conversações
e episódios ainda mais íntimos, pertinentes a esfera individual.
Seguindo essa linha de compreensão, Chinellato (2010, p.47) afirma que “o conceito
de intimidade não se confunde com o de vida privada, sendo o segundo um conceito maior e
gênero, de modo que as categorias podem ser expostas por círculos concêntricos, havendo
ainda um círculo menor constituído pelo direito ao segredo”.
Noutra linha, Tavares (2012) verifica que a indicação expressa realizada pelo
legislador constituinte, tratando a intimidade e a vida privada de forma autônoma, não
inviabilizaria a menção, na seara doutrinária e pedagógica, a um direito à vida privada em
sentido amplo, dentro do qual estaria incluída a intimidade. Da mesma forma, Silva (2005)
adota a terminologia da privacidade para tratar de forma ampla das diferentes manifestações
da esfera íntima, privada e da personalidade.
Dessa maneira, o direito à intimidade está relacionado com a proteção do conteúdo de
tudo aquilo que está inserido na esfera pessoal do indivíduo, sob os mais diferentes aspectos,
limitados ao interesse de grupos reduzidos ou de total exclusão de terceiros. A vida privada
possui uma maior abrangência em comparação à intimidade, compreendendo as relações
sociais estabelecidas pelo sujeito, as quais ele não deseja que sejam expostas ao público.
Passando agora ao estudo da proteção constitucional conferida à tutela da honra,
podemos compreendê-la como um grupo de atributos que traduzem a dignidade da pessoa
humana, através do respeito da sociedade, assegurando o bom nome e a reputação.
Trata-se de um direito fundamental pelo fato de a garantia dos atributos decorrentes da
honra constituírem manifestações decorrentes da própria dignidade da pessoa humana. Para
Stolze (2012, p. 186), a compreensão quanto a honra está “umbilicalmente associada à
natureza humana (...) acompanhando o indivíduo desde seu nascimento, até depois de sua
morte”.
A compreensão acerca do conteúdo da honra se desdobra sob o enfoque das suas
dimensões objetiva e subjetiva. A honra objetiva consiste na reputação que o sujeito possui
dentre os membros de uma comunidade, refletindo aspectos como a estima, valor e a
consideração a ele atribuídas. A honra subjetiva, por sua vez, exprime o sentimento pessoal de
estima ou à consciência da própria dignidade.
Por fim, a garantia da proteção à imagem é verificável sob os aspectos da
imagem-retrato e imagem-atributo. Para Tartuce (2014), a primeira consiste na representação das
características fisionômicas do indivíduo, indicando o aspecto visual do sujeito. Já o segundo
constitui a soma das qualidades do ser humano, apontando o que ele representa para a
sociedade, através da reputação e do prestígio social.
A previsão constante no art.5º, X da Constituição Federal trata de assegurar a tutela
imagem-retrato, de modo que a violação desse direito ocorre uma utilização indevida da
imagem física, sem a autorização de seu titular.
De tal maneira, a redação da Súmula 403 editada pelo Superior Tribunal de Justiça
dispõe que “independe de prova do prejuízo a indenização pela publicação não autorizada de
imagem de pessoa com fins econômicos ou comercias”. Além dela, conforme Stolze (2012,
p.188), “os desvios de finalidade do uso autorizado caracterizam violação ao direito à
imagem, devendo o infrator ser civilmente responsabilizado. ”.
Entretanto, a análise do tema sob a ótica da utilização da imagem de artistas, políticos
e demais pessoas públicas, desperta um conflito presente na doutrina e na jurisprudência em
torno da existência de uma possível relativização do âmbito protetivo do direito da
personalidade. Essa perspectiva se coaduna com o teor do Enunciado 279 das Jornadas de
Direito Civil do Conselho da Justiça Federal, tratando quanto a necessidade de ponderação do
aspecto protetivo da imagem com relação a outras garantias constitucionais, principalmente o
aspecto do acesso à informação e da liberdade de imprensa.
O dispositivo há de ser interpretado sistematicamente, admitindo-se a divulgação não autorizada de imagem alheia sem que indispensável à afirmação de outro direito fundamental, especialmente o direito à informação – compreendendo a liberdade de expressão e o direito a ser informado. Isto porque tal direito fundamental é também
tutelado constitucionalmente, sendo essencial ao pluralismo democrático. Daqui decorre uma presunção de interesse público nas informações veiculadas pela imprensa, justificando, em princípio, a utilização da imagem alheia, mesmo na presença de finalidade comercial, que acompanha os meios de comunicação no regime capitalista. (TEPEDINO; BARBOSA; BODIN, 2007, p.54).