Conforme descrito anteriormente, após a realização do levantamento para o ENPEC 2011, considerado um levantamento piloto, passamos para a fase de classificação dos trabalhos, ou seja, identificamos em que medida os trabalhos se apropriavam de Bourdieu. No momento de realizarmos as classificações, segundo trabalho publicado no SMEQ, percebemos a semelhança entre nossas categorias e as propostas no trabalho de Catani, Catani e Pereira (2001) “Apropriações da obra de Pierre Bourdieu no campo educacional brasileiro, através de periódicos da área”. Esse trabalho apresenta objetivos semelhantes ao presente trabalho, porém para a área de Educação. As três categorias do esquema proposto por Catani, Catani e Pereira (2001, p. 65) são:
1. Apropriação incidental – na qual o autor Bourdieu consta nas referências bibliográficas, porém pode ser que não seja citado ao longo texto, assim como pode aparecer em notas de rodapé não significativas. A característica a ser destacada nesta classe é que não existe uma conexão entre os argumentos centrais adotados no texto e a referência.
2. Apropriação conceitual tópica – nesta classe, há o uso de citações e conceitos elaborados pelo autor. Nessa forma as aquisições conceituais do sociólogo são mobilizadas, com maior ou menor intensidade, para reforçar argumentos ou resultados obtidos e desenvolvidos num quadro terminológico que não necessariamente é o do autor.
3. Apropriação do modo de trabalho – além de abordar conceitos e noções do autor, traz de maneira geral relações com os pensamentos e teoria deste autor para interpretar os dados, ou seja, adota Bourdieu como referencial teórico da pesquisa apresentada.
Desde modo então, após o SMEQ, para classificar o novo corpus de trabalho, passamos a utilizar as categorias conforme a proposta de Catani, Catani, Pereira, (2001). Essas categorias foram utilizadas na publicação do ENEQ/2014 com o título “Apropriação da perspectiva teórica de Bourdieu nos Encontros Nacionais de Pesquisa em Educação em Ciências” (VALADÃO; RIOS; MASSI, 2014), na I Jornada de Bourdieu no campo da Educação em Ciências/2015 com o título “Apropriações bourdianas nas linhas de pesquisa em
Educação em Ciências” (VALADÃO, MASSI, 2015) e no ENPEC/2015 com o título “Estado da Arte: a inserção de Pierre Bourdieu nas pesquisas em Educação em Ciências”.
Contudo, para a presente dissertação, após avaliação da banca de defesa, renomeamos as categorias de Catani, Catani e Pereira (2001). Percebemos que o termo “apropriação” só é coerente para nomear a terceira categoria, apropriação do modo de trabalho. Com base na definição da primeira categoria consideramos mais adequado utilizar a nomeação menção incidental, em que o autor é mencionado em alguns momentos não muito significativos no texto. Para a segunda categoria, conforme a definição, aquisições conceituais do autor são mobilizadas, que não estão necessariamente estão no quadro teórico do autor. Sendo assim consideramos a nomeação mobilização conceitual tópica mais adequada para essa categoria.
Portanto para a classificação de todos os trabalhos da presente dissertação utilizamos as categorias inspiradas no esquema proposto por Catani, Catani e Pereira (2001), porém renomeamos as duas primeiras categorias.
Para enquadrar os trabalhos selecionados nessa classificação fizemos a leitura do título, do resumo e buscamos o termo “Bourdieu” pela ferramenta disponibilizada na caixa de busca. Dependendo da quantidade de vezes que o autor era mencionado, e em que quais circunstâncias, o trabalho era lido por completo ou apenas seu entorno. A seguir, apresentamos alguns exemplos de como essa classificação foi realizada.
No artigo da revista Ciência & Educação “Políticas curriculares e qualidade do ensino de Ciências no discurso pedagógico de professores de nível médio” (CARVALHO; REZENDE, 2013), Bourdieu é citado na nota de rodapé, esclarecendo que Bernstein utiliza seu conceito de campo. Diante desta exemplificação e não havendo outras citações do autor ao longo do texto, consideramos este tipo de menção como incidental, pois o autor só apareceu na nota de rodapé. Outro exemplo de como enquadramos o artigo na categoria menção incidental está no trabalho do ENPEC “Livros didáticos de Ciências: a influência da cultura local sobre a escolha e uso por professores do Ensino Fundamental” (SOUZA; GARCIA, 2013), no qual Bourdieu só consta nas referências do artigo, porém não é citado ao longo do texto.
O artigo “O papel do formador no processo reflexivo de professores de Ciências” (ALTARUGIO; VILLANI, 2010) publicado na revista Investigações em Ensino de Ciências, cita o autor Perrenoud e através dele o conceito de habitus de Bourdieu é introduzido, afirmando que uma ação reflexiva seria capaz de modificar o habitus do professor. Neste caso, essa mobilização do autor enquadra-se como conceitual tópica, pois o conceito do autor
C a p í t u l o 3 | 60 |
é utilizado (habitus), porém para a análise do professor reflexivo outros autores são utilizados, ou seja, Bourdieu não é adotado como referencial teórico.
Por fim, na revista “Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências”, o artigo “Análise dos condicionantes sociais do sucesso acadêmico em cursos de graduação em Física à luz da sociologia de Bourdieu” (LIMA JUNIOR; OSTERMANN; REZENDE, 2013) se enquadra na Apropriação do modo de trabalho, considerando que além de o artigo abordar conceitos e teorias de Bourdieu, utiliza também seu referencial teórico para discutir os resultados da pesquisa.
No Encontro Nacional de Ensino de Química (ENEQ/2014) foi publicado parte desse levantamento com o título “Apropriação da perspectiva teórica de Bourdieu nos Encontros Nacionais de Pesquisa em Educação em Ciências” (VALADÃO; RIOS; MASSI, 2014). Nesse trabalho apresentamos a revisão bibliográfica referente a todas as atas do ENPEC até 2011 e algumas considerações e reflexões sobre as contribuições do referencial teórico de Bourdieu na área de Ciências nos trabalhos analisados.