4 O MERCADO INTERNACIONAL DE BIOCOMBUSTÍVEIS
4.4 CLASSIFICAÇÃO E BARREIRAS COMERCIAIS
As dificuldades na classificação dos biocombustíveis se produto agrícola, manufaturado ou ambiental é uma questão básica dado que ainda não há clareza sobre o assunto no plano internacional e precisa ser levada em conta porque representa um complicador das negociações internacionais.
mais acelerada ou eliminação de tarifas. Nas negociações os países desenvolvidos apresentaram uma lista grande de bens ambientais que não inclui o etanol. O Brasil ameaçou bloquear a aprovação da lista caso o etanol continue excluído14. Como a Rodada Doha ainda não foi concluída, o que se tem por enquanto é indefinição.
O Sistema Harmonizado é empregado para identificação dos bens e correspondentes escalas de tarifas, quotas e outras barreiras ao comércio. Ao longo do tempo os países mais desenvolvidos conseguiram defender seus interesses, formalizando o Acordo sobre Agricultura da OMC que admite várias formas de subsídios, e dá tratamento muito mais restritivo ao comércio de produtos agrícolas que aos demais bens. Estar classificado como produto agrícola significa enfrentar barreiras mais elevadas e conseqüente perda de competitividade internacional15.
O etanol permanece enquadrado como produto agrícola sob códigos tarifários HS 2207.10 e 2207.20, álcool etílico não-desnaturado e desnaturado, respectivamente. Por conseqüência, pelo menos por enquanto, seu comércio está subordinado às regras restritivas do Acordo sobre Agricultura da OMC16.
O biodiesel é enquadrado como produto industrial - capítulo SH 38 - produtos diversos das indústrias químicas, e corresponde ao código tarifário HS 3824.90, outros produtos químicos misturados que, pelo próprio título, inclui outros bens além do biodiesel17.
O protecionismo à produção industrial obedece outra lógica. Para esses produtos os países desenvolvidos empregam o que se convencionou chamar escalada tarifária e significa que a estrutura tarifária registra progressividade à medida que os produtos adquirem maior valor agregado. Por enquanto, a produção de biodiesel é muito incipiente e praticamente inexiste
14 PAÍSES ricos tiram etanol da lista de bens ambientais. Valor Econômico, São Paulo, maio 2007. O bloqueio é possível porque as decisões na OMC são tomadas por consenso, regra que exprime a igualdade entre os Estados partes.
15 O Sistema Harmonizado é dividido em 99 capítulos sendo que os 24 primeiros, exceto peixes e derivados (cap. 3), além de alguns códigos tarifários dos capítulos 29, 33, 35, 38, 41, 43, 50, 51, 52 e 53 fazem parte do Acordo sobre Agricultura.
16 Não só o etanol, mas todos os insumos para biocombustíveis procedentes da agricultura.
17 No Brasil a portaria ANP 313, de 27/12/2001, parágrafo único do artigo 4º. Estabeleceu que “o biodiesel deverá ser classificado no destaque 001 da posição tarifária 3824.90.29 da Tarifa Externa Comum (TEC) no Sistema Integrado de Comércio Exterior (SISCOMEX)”.
comércio internacional. Mesmo assim, cerca de nove países fixaram tarifas máximas sobre a importação do produto acima de 20%, sendo 35% a tarifa mais elevada, cobrada pelas Bahamas
Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), na distribuição das tarifas NMF máximas cobradas sobre a importação o etanol é sujeito a um grau de proteção muito mais elevado que o biodiesel. Acrescente-se que as barreiras ao comércio não se limitam às tarifas NMF. Há uma infinidade de outros mecanismos empregados pelos governos para coibir importações, destacando-se as barreiras não tarifárias (BNT), mecanismos impostos pela burocracia, que muitas vezes são usados com fins protecionistas, embora esse não seja o espírito dos acordos multilaterais.
Os mercados agrícolas, principalmente dos países já desenvolvidos, têm sido os mais protegidos por barreiras tarifárias e alfandegárias. Os impasses nas atuais negociações da Rodada de Doha têm se caracterizado pelas resistências dos países centrais em liberalizar seus mercados agrícolas. Suani Teixeira Coelho do CENBIO - Centro Nacional de referência em biomassa afirma que baseado na experiência brasileira de desenvolvimento da produção de etanol discute suas vantagens e demanda a abertura dos mercados para o etanol brasileiro. Segundo ele, os subsídios aos combustíveis fósseis, os subsídios agrícolas e outras externalidades encobrem o foco central da discussão sobre os biocombustíveis, que é a “rápida melhoria da curva de aprendizagem por meio do comércio internacional liberalizado e da exploração total do potencial produtivo de biocombustíveis nos países em desenvolvimento.
Apesar das resistências na liberalização do comércio internacional, dos problemas técnicos de classificação dos biocombustíveis como sendo um produto agrícola ou uma commodity energética como desde 2006 o governo brasileiro vem demandando, não existe certeza de que os mercados americano, europeu e japonês permanecerão sempre fechados para os biocombustíveis brasileiros.
Segundo Marcos Jank, aos lobbies protecionistas da agricultura, se contrapõem lobbies igualmente poderosos, que não querem se sujeitar ao preço interno elevado do milho nos EUA e do óleo de colza/canola na União Européia. Para ele, há enorme espaço para o Brasil aumentar a
sua presença nos grandes países consumidores de energias fósseis, cujo mercado potencial para combustíveis renováveis é enorme. Qualquer pequena abertura comercial nos mercados centrais pode representar um aumento expressivo da demanda por biocombustíveis uma vez que toda a atual produção brasileira de álcool representa um volume equivalente a apenas 2% de substituição de gasolina nos Estados Unidos. Além desse aspecto, Jank, salienta que a imagem do Brasil está associada à sustentabilidade econômica, social e ambiental do setor de renováveis. Se o Brasil não for ecologicamente correto, pode enfrentar mais barreiras nos grandes mercados.
4.5 DESAFIOS
O primeiro grande desafio a ser destacado é que tanto o etanol e quanto o biodiesel ainda não são commodities reconhecidas: falta padronização, certificação, escala, negociação de grandes volumes em bolsa, etc. que possibilitem a negociação ampla com esses produtos. Se dentro do Brasil inexiste logística suficiente para transferir essas mercadorias do produtor ao consumidor final, o problema é mais grave no mercado externo. Outro impedimento importante decorre das regras e exceções no âmbito da OMC; a simples leitura das regras e exceções da OMC permite concluir que os países-membros têm plena liberdade para proteger seus mercados de bioenergia, respaldados em diversos termos dos acordos. Maior liberdade ocorre com relação ao etanol, devido a sua classificação como produto agrícola.
Finalmente, tem-se que razões, fundamentalmente, de segurança energética e/ou ambiental orientam as estratégias adotadas pelos principais players para biocombustíveis, que podem resultar em importantes barreiras ao comércio internacional.
5 ESTRATÉGIAS QUE PODEM SER IMPLEMENTADAS PARA DESENVOLVER O