CAPÍTULO 2: O TRONCO TUPÍ E AS CLASSIFICAÇÕES INTERNAS DA FAMÍLIA
2.2 A FAMÍLIA TUPÍ-GUARANÍ E SUAS CLASSIFICAÇÕES INTERNAS
2.2.1 Classificação interna de Rodrigues (1984/85 e 2002)
O estudo de Rodrigues de 1958 é um esboço classificatório das línguas que compõem o tronco Tupí. No que diz respeito à família Tupí-Guaraní, as línguas que pertencem a essa família foram classificadas naquele momento de forma preliminar e, por isso, foi necessário ter uma revisão, tanto que em 1984/85, Rodrigues desenvolveu um novo estudo para verificar as relações internas da família linguística TG com base em novos conhecimentos sobre essas línguas. Na classificação de Rodrigues de (1984/85), o autor se baseou numa seleção limitada de elementos fonológicos e lexicais, com uma pequena contribuição de informações gramaticais. Nessa classificação o autor dividiu as línguas da família Tupí-Guaraní em subconjuntos ou ramos, de acordo com o compartilhamento de certas propriedades específicas que podem fazer relação ao Proto-Tupí-Guaraní (PTG daqui adiante). Essas propriedades consistem basicamente nos itens elencados abaixo por ele (1984/85).
Perda ou conservação total ou parcial de consoantes finais Os reflexos do proto *ʧ
Os reflexos do proto *ts Os reflexos do proto *pw Os reflexos do proto *pj
Conservação ou não de acento final Marcas pessoais de terceira pessoa
Distinção da fala de homem e de mulher por meio de marcas pronominais de terceira pessoa
A partir dos compartilhamentos dessas propriedades foram distinguidos oito subconjuntos ou ramos da família Tupí-Guaraní. A classificação é mostrada abaixo (adaptado de Rodrigues 1984/85):
Subconjunto I (Ramo I): Guaraní Antigo, Mbyá, Xetá (Serra dos Dourados), Nhandewa (Txiripá), Kaiowá (Kauová, pãj), Guaraní Paraguaio, Gwayakí (Aché), Tapieté, Chiriguiano (Ava), Izoceño (Chané).
(a) Perda das consoantes finais;
(b) Conservação de *tx ou sua mudança para ts ou s; (c) Mudança de *ts em h ou em zero;
(d) M ç * ʷ kʷ k; (e) Mudança de *pj em tx ou x.
Subconjunto II (Ramo II): Guarayo (Guarayú), Sirionó, Hora (Jorá). (a) Perdas das consoantes finais;
(b) Fusão de *tx e *ts, ambos manifestos por ts ou s; (c) M ç * ʷ kʷ k;
(d) Conservação de *pj;
(e) Deslocamento do acento da última para penúltima sílaba da palavra.
Subconjunto III (Ramo III): Tupinambá, Língua Geral Paulista (Tupí Austral), Língua Geral Amazônica (Nheengatu), Kokáma, Kokamíya (Cocamilia), Omágua.
(a) Conservação das consoantes nasais;
(b) Fusão de *tx e *ts, ambos manifestos com ts ou s; (c) C ç * ʷ;
(d) Conservação de *pj; (e) Conservação do acento.
Subconjunto IV (Ramo IV): Tapirapé, Avá (Canoeiro), Asuriní do Tocantins (Akuáwa), Suruí do Tocantins (Mujetíre), Parakanã, Guajajára, Tembé.
(a) Conservação das consoantes finais, com ou sem modificações; (b) Fusão de *tx e *ts, ambos mudados em h;
(c) Mudança de *pj em tx ou ts; (d) Mudança de *j em tx, ts, s ou z.
Subconjunto V (Ramo V): Kayabí, Asuriní do Xingu, Araweté (?). (a) Conservação das consoantes finais;
(b) Fusão de *tx e *ts, ambos mudados em h ou em zero; (c) M ç * ʷ (b b );
(d) Mudança de *pj em s; (e) Mudança de *j em dj;
(f) Marcas prenominais de 3ª pessoa masculina, feminina e plural.
Subconjunto VI (Ramo VI): Parintintin (Kagwahíb), Tupí-Kawahíb (Tupí do Machado, Pawaté, Wiraféd, etc.), Apiaká (?).
(a) Conservação das consoantes finais;
(b) Fusão de *tx e *ts, ambos mudados em h ou em zero;
(c) M ç * ʷ kʷ (P , ká) w, (T -Kawahíb); (d) Conservação de *pj;
(f) Marcas prenominais de 3ª pessoa masculina, feminina e plural, comuns aos homens e à mulher.
Subconjunto VII (Ramo VII): Kamayurá (a) Conservação das consoantes finais;
(b) Fusão de *tx e *ts, ambos mudados em h ou em zero; (c) M ç * ʷ ʷ ,
(d) Conservação de *j.
Subconjunto VIII (Ramo VIII): Takunyapé, Wayampí (Oyampi), Wayampipukú, Emerillon, Amanayé, Anambé, Turiwára, Guajá, Urubú-Ka'apor.
(a) Perda parcial das consoantes finais;
(b) Fusão de *tx e *ts, ambos mudados em h ou zero; (c) M ç * ʷ kʷ;
(d) Mudança de *pj em s; (e) Conservação de *j.
No estudo preliminar classificatório genético da família TG de 1958, Rodrigues incluía as línguas: Mawé, Mundurukú e Kuruáya. Já na classificação realizada por ele em 1984/85, o autor exclui essas línguas da família TG. Essas línguas foram excluídas por apresentarem propriedades linguísticas que são bastante divergentes em relação às outras línguas dessa família.
Com novas informações sobre as línguas que compõem a família Tupí-Guaraní e com
um avanço na documentação dessas línguas, foi necessário fazer uma revisão da classificação 1984 85 “ , ê , x ç ” (RODRIGUE & CABRAL, 2002, p. 327). Então, em 2002, uma revisão da classificação interna da família Tupí-Guaraní foi proposta, que permitiu escolher alguns critérios adicionais, fonológicos e gramaticais. A revisão, segundo os autores, permitiu também a inclusão de novas línguas na família, como também a exclusão de outras, reajustou alguns subconjuntos e reformulou os critérios fonológicos e gramaticais.
Nos casos de exclusão, Rodrigues & Cabral (2002) explicam que a língua Kokama, o Omáwa e Kokamíya, variantes próximas de uma mesma língua, não apresentam correspondências regulares dos seus subsistemas linguísticos com os respectivos subsistemas das línguas da família TG. Os autores mostram que há vários indícios linguísticos de que o Kokama/Omágua poderia ter surgido de uma situação de contato linguístico com outros
falantes de uma língua Tupí-Guaraní e com falantes de uma ou mais línguas da família Arawák, como também de falantes de línguas não identificadas (CABRAL, 1995, 1999).
Já nos casos de inclusão, os autores incluíram o Zo'é no ramo VIII. De acordo com Rodrigues & Cabral (2002), a língua Zo'é junto com Emerillon e o Wayampi formam um agrupamento mais particular. As línguas do ramo VIII mantêm parcialmente as consoantes finais do PTG. Os autores verificam que o Zo'é perdeu as bilabiais orais em posição final. E “t em final de palavra como o Emérillon e não r como o Wayampí e Urubu-Ka' ” (RODRIGUE & C BR L, 2002, 332)
Em relação aos reagrupamentos os autores mantiveram o Araweté como pertencente ao ramo V. A língua Kayabi que antes era associada ao ramo V, agora é uma língua que pertence ao ramo VI juntamente com Apiaká, Juma, os dialetos Tupí-Kawahíb e o Parintintin. O quadro abaixo, extraído de Rodrigues e Cabral (2002, p. 335) mostra a nova constituição interna da família Tupí-Guaraní.
Quadro 2: Nova classificação interna da família TG segundo Rodrigues & Cabral (2002)
Ramo I
Guarani Antigo Kaiwá (Kayová, Pãi) Nhandewa (Txiripá) Guaraní Paraguaio Mbya
Xetá (Serra dos Dourados) Tapiéte Chiriguano (Ava) Izoceño (Chané) Guayakí (Axé) Ramo V Araweté, Ararandewára-Amanajé Anambé do Cairarí Asuriní do Xingu Ramo II Guarayo (Guarayú) Sirionó, Hora (Jorá)
Ramo VI
Kayabi, Apiaká
Paritintintín (Kagwahíb), Tupí-Kawahíb (Tupí do Machado, Pawaté, Wiraféd, Uruewauwau, Amondáva, Karipúna, etc)
Juma
Ramo III
Tupí, Língua Geral Paulista (Tupí Austral) Tupinambá, Língua Geral Amazônica (N ‟ ú) Ramo VII Kamayurá Ramo IV Tapirapé Asuriní do Tocantins Parakanã Suruí (Mujetire) Ramo VIII
Wayampi (Oyampí), Wayampípukú, Emérillon, J ‟
Urubu- K ‟ ó , b E Guajá
Avá-Canoeiro
Tembé, Guajajára, Turiwára Awré e Awrá Takunhapé
Fonte: RODRIGUES & CABRAL, 2002, p.335-336.