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No último século, as condições de vida e saúde têm melhorado de forma

contínua e sustentada na maioria dos países (BUSS, 2000). O que repercutiu na

mudança do perfil epidemiológico mundial e, consequentemente, no aumento da

expectativa de vida (ARAÚJO, 2013; PERRACINI, FLÓ, GUERRA; 2011). Tal fato

está relacionado aos progressos políticos, econômicos, sociais e ambientais, assim

como aos avanços na saúde pública e na medicina (BUSS, 2000). Apesar de

motivadoras, essas mudanças produzem novos desafios à área da saúde pública,

principalmente no que se refere a planejamento de ações de saúde (OMS, 2003).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem como uma das missões a

produção de Classificações de Saúde que representem modelos consensuais a

serem incorporados por sistemas de saúde, gestores e usuários, visando à utilização

de uma linguagem comum para a descrição de problemas ou intervenções em

saúde (RUARO et al., 2012; FONTES, FERNANDES, BOTELHO, 2010).

Com vistas a essa nova realidade, a Organização Mundial de Saúde (OMS),

iniciou na década de 70, a incorporação aos indicadores de saúde, além de dados

relativos à mortalidade, morbidade e nutrição, aspectos relacionados às

consequências das doenças sobre a capacidade funcional das pessoas (ARAÚJO,

BUCHALLA, 2013; FARIAS, BUCHALLA, 2005).

Em 1980, a OMS publicou uma classificação denominada International

Classification of Impairments, Disabilities and Handicaps (ICIDH), em caráter

experimental, para ser utilizada e testada em pesquisas. Foi traduzida para o

português, em 1989, como Classificação Internacional das Deficiências,

Incapacidades e Desvantagens – CIDID (SIMONELLI, 2009; FARIAS, BUCHALLA,

2005; OMS, 2003).

A ICIDH foi empregada durante as décadas de 1980 e 1990, como um

instrumento para classificar as consequências das doenças e as repercussões na

vida do indivíduo. Com abordagens distintas e lineares entre Doença, Deficiência,

Incapacidade e Invalidez (PERRACINI, FLÓ, GUERRA, 2011; FARIAS, BUCHALLA,

traduzidas respectivamente aos termos deficiência, incapacidade e desvantagem. A

deficiência – refere-se às anormalidades nos órgãos, sistemas e estruturas do corpo;

incapacidade refere-se às consequências da deficiência sobre o rendimento

funcional no desempenho das atividades; e o termo desvantagem refere-se à

adaptação do indivíduo ao meio ambiente como resultado da deficiência e

incapacidade (SIMONELLI, 2009; FARIAS, BUCHALLA, 2005).

No entanto, esse modelo não informava adequadamente a relação existente

entre os conceitos e gerava interpretações adversas do modelo, com indicativos

causais e de evolução unidirecional da enfermidade. Este fato motivou, em 1993, a

revisão da Classificação Internacional de Deficiências, Incapacidades e Invalidez se

tornando conhecida como ICIDH-2 (PERRACINI, FLÓ, GUERRA, 2011).

Após a primeira revisão, em 1996, grupos de colaboração de centros

especializados em estudos sobre incapacidade na França, Holanda, Países

Nórdicos e na América do Norte se uniram a OMS com objetivo de esclarecer

distorções na conceituação dos termos e identificar a relação entre os potenciais

fatores de risco que interferem no desenvolvimento das incapacidades (OMS, 2003).

Posteriormente, testes em mais de 50 países, por cerca de 1800 profissionais

de saúde foram realizados, e a nova versão foi apresentada e aprovada para uso

internacional na 54ª Assembleia Mundial de Saúde (2001) como um novo

instrumento para a mensuração da saúde da população, passando a fazer parte da

chamada “Família de Classificações Internacionais da OMS” e designada

International Classification of Functioning,Disability and Health - ICF (FONTES,

FERNANDES, BOTELHO, 2010; OMS, 2003).

A versão brasileira foi traduzida pelo Centro Colaborador da Organização

Mundial da Saúde para a Família de Classificações Internacionais em Língua

Portuguesa com o título de Classificação Internacional de Funcionalidade,

Incapacidade e Saúde, CIF (OMS, 2003).

A nova versão apresenta modificações substanciais na terminologia e

classificação das dimensões e respectivos qualificadores, e oferta uma contribuição

conceitual, com a associação das diferentes dimensões e domínios da

funcionalidade e da incapacidade humana (RUARO et al., 2012; PERRACINI, FLÓ,

GUERRA, 2011).

A CIF pertence à “família das classificações internacionais” desenvolvida pela

Organização Mundial da Saúde (OMS) para aplicação em vários aspectos da saúde

e, portanto, proporciona um sistema para a codificação de várias informações sobre

saúde. Esta codificação proporciona uma linguagem comum e padronizada que

permite a descrição e a comparação da saúde das populações num contexto

internacional e interdisciplinar (OMS, 2003).

Com olhar na funcionalidade e na incapacidade relacionados as condições

de saúde, a CIF identifica o que uma pessoa - pode ou não pode fazer nas diversas

categorias da própria vida diária e prática. Contempla as funções dos órgãos,

sistemas e estruturas do corpo e as interferências nas atividades e na participação

social no meio ambiente onde vive (SIMONELLI, 2009).

Em estudo de revisão, Thonnard e Penta (2007) descrevem o esquema

conceitual da CIF, que se apresenta estruturalmente conforme a figura 2. O

esquema ilustra o panorama funcional e o impacto de uma determinada condição

clínica sobre quatro domínios relacionados à aspectos orgânicos (estrutura e função

do corpo), funcionais (atividade e participação) e contextuais (ambiente e pessoal).

Entende-se que o domínio “Função do corpo” refere-se à aspectos fisiológicos

dos sistemas orgânicos, sinais e sintomas. O Domínio “Estrutura do corpo” refere-se

a partes anatômicas do corpo, tais como, órgãos, membros e componentes,

classificados de acordo com os sistemas orgânicos. Já o domínio de “Atividade”

contempla execução de uma tarefa ou ação por um indivíduo, representando a

perspectiva individual da funcionalidade. O domínio “Participação” contém

envolvimento de um indivíduo numa situação da vida real, representando a

perspectiva social da funcionalidade. E por fim, a relação destes com o último

domínio o “Ambiente” referente aos aspectos relacionados à influência de Fatores

Contextuais externos ao indivíduo — Fatores Ambientais — ou intrínsecos ao

Figura 2 - Interação entre os componentes da CIF.

Fonte: OMS, 2001.

Os Fatores Ambientais merecem destaque já que constituem o ambiente

físico, social e atitudinal em que as pessoas vivem e conduzem a própria vida.

Referem-se a todos os aspectos extrínsecos que formam o contexto de vida de um

indivíduo, tendo por isso um impacto sobre a funcionalidade dessa pessoa. Nestes

fatores estão incluídos o mundo físico e as características; o mundo físico criado

pelo homem, as outras pessoas em diferentes relacionamentos e papéis, as atitudes

e os valores, os serviços e os sistemas sociais, as políticas, as regras e as leis. Já

os Fatores Pessoais são representados pela idade, o sexo, a educação, a profissão,

entre outros, ainda não codificados na classificação (FONTES, FERNANDES,

BOTELHO, 2010).

Neste cenário amplificado a funcionalidade é compreendida como um aspecto

positivo na vida do indivíduo já que se determinam as habilidades e competências e

classificam-se os impactos determinando as principais dificuldades e barreiras.

Estes últimos referem-se às incapacidades e correspondem aos aspectos negativos,

porém como termos secundários, por exemplo, limitação ou restrição (FONTES,

FERNANDES, BOTELHO, 2010; SIMONELLI, 2009).

Assim, no modelo da CIF a incapacidade é vista como a resultante da

interação entre a disfunção apresentada (orgânica e/ou da estrutura do corpo), a

limitação nas atividades e a restrição na participação social, além dos fatores

ambientais que podem atuar como facilitadores ou barreiras para o desempenho das

atividades e da participação (OMS, 2003).

A incapacidade na conceituação da CIF, não é considerada um atributo

pessoal, mas o resultado de uma experiência que engloba algum, ou a totalidade de

fatores. Aspectos esses que oferecem a CIF uma fundamentada abordagem

biopsicossocial, que incorpora as três dimensões: a biomédica, a psicológica e a

social. Nesse modelo cada nível age sobre e sofre a ação dos demais, e todos os

três níveis são influenciados pelos fatores ambientais. Desta forma, não se limita

enquanto classificação, a descrever detalhadamente a incapacidade, mas descreve

de forma abrangente a possibilidade do impacto que os fatores ambientais

produzem na funcionalidade do indivíduo, quer enquanto facilitadores quer enquanto

barreiras, sendo este o maior diferencial entre as classificações anteriores

(FONTES, FERNANDES, BOTELHO, 2010).

Outro aspecto relevante se refere à complementariedade reconhecida pela

OMS entre a CID-10 (abreviatura da Classificação Internacional de Doenças,

Décima Revisão) e a CIF, no qual a CID-10 fornece uma estrutura de base etiológica

sobre o estado de saúde das pessoas, e a CIF classifica a funcionalidade e a

incapacidade associadas a este estado de saúde. Assim, duas pessoas com a

mesma doença, classificadas na CID-10, podem ter diferentes níveis de

funcionalidade, não obstante duas pessoas com o mesmo nível de funcionalidade,

classificadas pela CIF, não tem necessariamente, a mesma condição de saúde

(SIMONELLI, 2009).

Em conjunto, as informações sobre o diagnóstico e sobre a funcionalidade,

oferecem uma imagem mais extensa e mais significativa da saúde das pessoas ou

da população que pode valer-se em tomadas de decisões por avaliar as condições

de vida e fornecer subsídios para políticas de inclusão social (FARIAS, BUCHALLA,

2005).

Para Fontes et al., (2010) a CIF representa um dos marcos mais importantes

da reabilitação dos últimos 20 anos, ao descrever de forma prática e conceitual os

descritores múltiplos da saúde, proporcionando um modelo explicativo que permite

uma melhor compreensão da génese da(s) incapacidade(s), mas sobretudo de que

forma esta pode ser diminuída. Em complemento Oesch et.al., (2012) afirmam que a

CIF favorece a elaboração de terapêuticas mais eficazes.

O objetivo pragmático da CIF é fornecer uma linguagem padronizada e um

modelo para a descrição da saúde e dos estados relacionados à saúde, permitindo a

comparação de dados referentes a essas condições entre países, serviços, setores

de atenção à saúde, bem como o acompanhamento da evolução no tempo (FARIAS,

BUCHALLA, 2005).

De acordo com a OMS (2003) apresenta os seguintes objetivos específicos:

• proporcionar uma base científica para a compreensão e o estudo dos

determinantes da saúde, dos resultados e das condições relacionadas com a saúde;

• estabelecer uma linguagem comum para a descrição da saúde e dos

estados relacionados com a saúde, para melhorar a comunicação entre diferentes

utilizadores, tais como, profissionais de saúde, investigadores, políticos e o público,

incluindo pessoas com incapacidades;

• permitir a comparação de dados entre países, entre disciplinas relacionadas

com os cuidados de saúde, entre serviços, e em diferentes momentos ao longo do

tempo;

• proporcionar um esquema de codificação para sistemas de informação de

saúde.

Estes objetivos inter-relacionam-se dado que a necessidade de aplicar a CIF

requer a construção de um sistema prático e útil que possa ser aplicado por vários

colaboradores na política de saúde, na garantia da qualidade e na avaliação de

resultados em diferentes culturas.

Os componentes das funções e estruturas, atividades e participação e fatores

ambientais estão classificados através de categorias. Estes são apresentados em

uma lista com cerca de mais de 1400 categorias que formam as unidades da

classificação organizadas numa estrutura hierárquica de quatro níveis, que se

diferenciam de forma progressiva quanto à precisão ou especificidade do conceito e,

que esquematicamente, se apresenta conforme a figura 3 (FONTES, FERNANDES,

BOTELHO, 2010; FARIAS, BUCHALLA, 2005).

Figura 3 - Estrutura hierárquica da CIF

Fonte: Fontes, Fernandes, Botelho, 2010.

Na figura 3, observam-se os qualificadores como último nível, estes têm a

finalidade de determinar a magnitude e/ou extensão da lesão ou ainda quanto à

presença ou ausência de facilitadores ou barreiras ambientais. Apresentada em uma

escala numérica que varia de 0 a 4, sendo comum a todos os componentes e por

essa razão também designada como qualificador genérico.

Esta estrutura operacional permite uma avaliação normalizada e uma

descrição integral da saúde e dos estados relacionados com a saúde, do ponto de

vista biológico, pessoal e social.

A CIF é baseada no modelo biopsicossocial e classifica a funcionalidade e

incapacidade associada aos estados de saúde ou relacionada com a saúde nas

NUBILA, 2010; FARIAS, BUCHALLA, 2005). Este modelo, mais coerente, está cada

vez mais presente nas ações destinadas às pessoas com deficiência, porém, ainda

não alcançou o modelo hegemônico, que na prática ainda é o modelo biomédico.

A estrutura hierárquica apresenta um esquema de ramificação, constituído por

componentes (funções e estruturas do corpo, atividade e participação), domínios e

categorias. Cada um dos componentes contém vários domínios e cada um dos

domínios contém várias categorias, que são as unidades de classificação da saúde

e dos estados da saúde (FARIA et al., 2012; RIBERTO, 2011; FARIAS, BUCHALLA,

2005). Para Riberto (2011), a CIF aborda, de forma completa, a funcionalidade

humana, apresentando-se como uma classificação extremamente abrangente e com

grande poder descritivo, paradoxalmente essa característica inibe a utilização

prática.

Fontes, Fernandes e Botelho (2010) relatam que para contornar está

dificuldade a OMS e os centros colaboradores, têm desenvolvido “listagens” mais

curtas para facilitar a aplicabilidade da classificação. Uma dessas listagens, a

“checklist”, apresenta as 152 principais categorias que identificam os problemas

mais comuns em pacientes com condições crônicas de saúde. Já utilizado em

diversos estudos demonstra uma descrição completa sobre a sintomatologia e a

funcionalidade dos grupos de pacientes testados (ŠVESTKOVÁ, SLÁDKOVÁ,

KOTKOVÁ, 2016).

Outro instrumento desta listagem é o WHODAS II — World Health

Organization Disability Assessment Schedule II, desenvolvido em 2010. Trata-se de

um questionário multidimensional que fornece um perfil da funcionalidade. Inclui seis

domínios (compreensão e comunicação, relacionamentos, participação na

sociedade, atividades relacionadas com o trabalho e atividades domésticas,

autocuidado e mobilidade). É constituído por 36 questões ou, na sua versão mais

curta, por 12 questões. Em 2015, com autorização da OMS, pesquisadores da

Universidade Federal do Triângulo Mineiro, traduziram para o português o Manual

do WHODAS 2.0 que apresenta a metodologia utilizada no desenvolvimento, os

resultados obtidos com a aplicação em diversas condições de saúde e todas as

2016). A versão completa, com 36 questões, foi traduzida e adaptada para o Brasil

por Silveira et al., (2013).

Nessa mesma perspectiva o MDS - MODEL DISABILITY SURVEY foi

desenvolvido em parceria com a OMS e o Banco Mundial para coletar informações

de prevalência sobre a deficiência comparáveis entre países. O instrumento coleta

informações sócio demográficas; histórico do trabalho e benefícios; fatores

ambientais; funcionalidade; condições de saúde e capacidade; utilização de serviços

de saúde; e satisfação, personalidade e bem-estar. O principal diferencial em

relação ao WHODAS é a incorporação de uma seção sobre o meio ambiente, tal

detalhamento confere ao instrumento um tempo de aplicação entre 60 a 120

minutos, o que é compreensível pela amplitude das informações (CASTRO et al.,

2016).

Com vistas a ampliar a aplicabilidade da CIF, desde 2004, desenvolvem-se os

Core Sets da CIF, traduzidos como “conjunto principal” ou “itens essenciais” de um

conjunto de categorias selecionadas a partir das categorias da classificação

completa CIF. O propósito é descrever de forma típica padrões mínimos para a

avaliação e documentação da funcionalidade e saúde em estudos clínicos,

encontros clínicos e avaliação multiprofissional abrangente. Avalia-se as categorias

típicas e significativas numa determinada condição de saúde (RIBERTO, 2011).

Em estudo de revisão com objetivo de descrever os core sets existentes na

literatura, Riberto (2011), encontrou 44 artigos publicados a partir de 2004. A maior

parte na língua inglesa, apenas 04 na língua portuguesa e entre esses, dois são de

grupos brasileiros com objetivo de criar core sets para as afecções

musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho e o outro para indivíduos com

síndrome de imunodeficiência adquirida sob terapia antirretroviral. Resultados

semelhantes foram descritos por Brasileiro, Moreira e Buchalla (2013).

Castaneda et al., (2014) em uma revisão sistemática sobre a utilização da CIF

em estudos observacionais relataram que apesar de existirem dois modelos de core

sets, ainda são escassos os estudos científicos epidemiológicos quantitativos na

prática clínica. Os autores relatam que estudos com a CIF vem aumentando nos

últimos 10 anos, porém, essa dificuldade na prática clínica, pode estar relacionada

ao fato de que a classificação não indica os instrumentos necessários para a

avaliação da incapacidade e da funcionalidade. Eles encontraram 31% estudos

utilizando os core sets, e a maioria utilizou categorias avulsas da CIF para

montagem de questionários e escalas de avaliação clínica.

Estudos internacionais concordam com esses argumentos e consideram a

falta de instrumento para responder o core set resulta em uma aplicação não

uniforme e dificulta a comparação e a comunicação interdisciplinar entre os usuários

contrariando os princípios da CIF (ŠVESTKOVÁ, SLÁDKOVÁ, KOTKOVÁ, 2016;

SALTYCHEV et al., 2013; FINGER et al., 2012; ESCORPIZO, 2011a,b).

Já Araújo e Buchalla (2015) consideram que a discussão sobre a

aplicabilidade da CIF não deve ser pautada na ampla abordagem. Na opinião dos

autores esta característica confere a CIF a capacidade de apreciar itens da

funcionalidade humana que outras classificações não conseguem observar. Eles

recomendam adequar as abordagens da CIF aos instrumentos de avaliação

verificando se as questões avaliadas nos instrumentos estão contempladas nos

domínios da CIF e se a forma de mensuração dos resultados e respostas atende

aos qualificadores da CIF.

2.4 Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF)

e Reabilitação Profissional (RP)

Uma adequada inserção laboral das pessoas com deficiência advém de

ações Inter setoriais que reúnam o Estado, as empresas, e os profissionais de saúde

e assistência. A regulamentação do direito da pessoa com deficiência ao trabalho

está bem definida e amparada legalmente. No entanto, a operacionalização da

inclusão laboral encontra impedimentos de toda ordem.

Complementa-se com o questionamento sobre a visão biomédica acerca da

deficiência na qual a Lei de Cotas e o decreto 5298/99 se baseiam. Estes não

abrangem o contexto e as barreiras sociais, que dificultam a participação, o

desempenho e as oportunidades das pessoas com deficiência em todos os aspectos

da vida em sociedade. Fato reconhecido e apoiado pelo Ministério da Saúde (2008)

e instituído na Lei Brasileira de Inclusão (2015) que insere o modelo social proposto

pela OMS (2003), fundamentado no conceito de que a deficiência está na sociedade

e não no indivíduo e, a lesão não está diretamente relacionada à deficiência

(MARTINS, 2013; SIMONELLI et al., 2013; SIMONELLI, CAMAROTTO, 2011).

O parâmetro biomédico (CID10) permite definir os beneficiários da reserva de

mercado, mas não é suficiente para reconhecer e compreender o impacto que a

doença tem no dia-a-dia do indivíduo. Desta maneira, se propõe que além do

diagnóstico, seja reconhecida a forma como realiza as atividades habituais

necessárias para um bom desempenho no trabalho, em casa, na escola e/ou outras

áreas sociais. A identificação dos níveis de funcionalidade e incapacidade de uma

pessoa podem garantir um melhor gerenciamento e planejamento de ações

(SILVEIRA et al., 2013; ARAÚJO, BUCHALLA, 2013; CERNIAUSKAITE et al., 2011;

DI NUBILA, 2010).

Martins (2010) sugere que para uma adequada inserção laboral é necessário

realizar uma avaliação precisa, detalhada e contínua com dois enfoques específicos:

a) avaliação do indivíduo - interesse pelo trabalho, capacidades e incapacidades que

influenciam no desempenho para a vaga disponível; b) avaliação dos aspectos

ergonômicos - exigências do trabalho, características das tarefas, adequação do

posto de trabalho e equipamentos necessários para execução da tarefa.

Vários autores sugerem o modelo social como forma de garantir uma inserção

eficiente no trabalho. Uma vez que permite a ClF permite classificar a habilidade da

pessoa de modo preciso e detalhado (SALTYCHEV et al., 2013; MARTINS, 2013;

SIMONELLI, CAMAROTTO, 2011; GLÄSSEL et al., 2011; MAENO, VILELA, 2010;

TANAKA, MANZINI, 2005).

No contexto da Saúde do Trabalhador se observa o esforço de pesquisadores

brasileiros em utilizar a CIF por meio de Core Set. No entanto, os estudos abordam

os aspectos preventivos das doenças relacionadas ao trabalho (DRT), em especial,

as DORTs/LER (Doenças Relacionadas ao Trabalho/Lesões por Esforço Repetido)

devido à alta prevalência e repercussões entre a população trabalhadora típica no

Brasil e no mundo (ARAÚJO, BUCHALLA, 2013; LIMA et al., 2008).

Com enfoque específico nos trabalhadores em Reabilitação Profissional foram

propostos dois estudos utilizando a CIF. O estudo de Toldra et al., (2010) utilizou os

componentes da CIF para organizar e analisar os dados, de um estudo documental

exploratório, de 10 prontuários de trabalhadores acompanhados pela terapia

ocupacional em um Centro de Referência em Saúde do Trabalhador da cidade de

São Paulo. O objetivo do estudo foi identificar os facilitadores e as barreiras para o

retorno ao trabalho após um longo período de permanência sem resolutividade no

serviço. As informações coletadas nos prontuários foram distribuídas segundo as

categorias da CIF, inicialmente utilizando o checklist da CIF para a codificação em

primeiro nível e os demais níveis de codificação utilizaram a classificação completa

da CIF. Os autores consideram que os resultados foram satisfatórios e conseguiram

uma visão mais abrangente, integral, articulada e sistematizada das informações

referentes aos diversos componentes de saúde e funcionalidade dos trabalhadores.

Como limitação mencionou a dificuldade de normatização do prontuário que não

permitiu a codificação no 3º e 4º nível da CIF.

Já Simonelli e Camarotto (2011) propõe um modelo para melhoria no

processo de RP, com enfoque na inclusão da pessoa com deficiência. Os autores

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