3. SPIN-OFF ACADÊMICO
3.3 CLASSIFICAÇÕES PARA EMPREENDIMENTOS CRIADOS NO
Nos últimos anos, foram propostas diferentes classificações na tentativa de caracterizar os empreendimentos surgidos no ambiente acadêmico. Esse esforço de caracterização é importante para alinhar os estudos na área, pois, como advertem Pirnay et al. (2003), há quase tantas definições do fenômeno spin-off quanto há pesquisadores que o examinam. Isso pode levar a situações em que os pesquisadores usam o mesmo conceito para estudar e descrever diferentes realidades. Pode-se tomar como exemplo o levantamento feito por Pirnay et al. (2003) em relação aos spin-offs do Massachusetts Institute of Technology (MIT), resumido no Quadro 1 a seguir:
Quadro 1 – Exemplos de divergência entre as taxas de criação de spin-offs acadêmicos.
Estudos consultados Taxa anual média de spin-offs oriundos do MIT
Roberts e Malone (1996, p. 44) 6,4 empresas
Bray e Lee (2000, p. 386) 25 empresas
Carayannis et al. (1998, p.2) e
Steffensen et al. (2000, p. 95) 140 empresas
Fonte: adaptado de Pirnay et al. (2003).
Todas essas estimativas são supostamente precisas, mas provavelmente partem de diferentes definições de spin-offs, que não são explicitamente esclarecidas pelos autores. Dessa forma, a classificação desses empreendimentos tende a contribuir para os avanços dos estudos na área, pois permite aumentar a comparabilidade das amostras e das situações estudadas e, consequentemente, favorece o processo cumulativo de produção do conhecimento (PIRNAY et al., 2003).
No entanto, para Mustar et al. (2006), de maneira geral, tais estudos não foram capazes de contemplar a heterogeneidade das empresas criadas no contexto das universidades. Em relação a esse aspecto, Shah e Pahnke (2014) indicam que a literatura sobre empreendedorismo acadêmico tem se concentrado em empreendimentos criados a partir dos trabalhos desenvolvidos em laboratórios universitários, principalmente no que se refere à exploração de direitos de propriedade intelectual. Todavia, as universidades também contribuem para a geração de outros tipos de empreendimentos, com características distintas, mas igualmente capazes de trazer benefícios econômicos e sociais para a região na qual a universidade está situada.
Nesse sentido, esta seção apresenta um resumo das principais classificações relacionadas aos empreendimentos criados a partir do ambiente acadêmico, considerando pontos fortes e pontos fracos de cada uma (Quadro 2). Os dez estudos consultados cobrem um intervalo de vinte anos, sendo o primeiro publicado em 1994 e o último em 2014. Para facilitar a análise, os estudos estão ordenados por ordem de publicação. Além disso, vale destacar que as dez propostas de classificação resumidas a seguir são discutidas em detalhes nos apêndices deste trabalho.
Quadro 2 – Resumo das classificações para empreendimentos criados no ambiente acadêmico.
(continua)
Classificação
proposta por: Resumo Pontos fortes Pontos fracos
Stankiewicz (1994)
Foco nas atividades desempenhadas pela empresa. Divide os spin-
offs em três modos principais de operação: a) consultoria e contratação de P&D; b) modo orientado a produtos; e c) modo orientado a ativos tecnológicos. Destaca a heterogeneidade dos spin-offs e a necessidade de diferentes
formas de apoio. Além disso, contribui para reforçar que os spin-offs
não se restringem a empresas de rápido crescimento criadas para
explorarem tecnologias desenvolvidas nas universidades, uma vez
que admitem também empresas focadas na prestação de serviço.
A classificação focada no modo de atuação é limitada, pois há a possibilidade de as empresas combinarem mais
de um modo simultaneamente ou iniciarem sua atuação com
base em um modelo e depois migrarem para outro.
Além disso, a classificação enfatiza o que a empresa faz, mas dá pouca ênfase em
como o processo de transferência de conhecimento da universidade para a empresa
ocorreu. Upstill e
Symington (2002)
Divide as empresas em: a) spin-off direto (transferência de propriedade intelectual e de pessoal); b) spin-off indireto (transferência apenas de pessoal); c) empresa de transferência de tecnologia (transferência apenas de propriedade intelectual).
Amplia o conceito de spin-
off para além da
propriedade intelectual, embora privilegie o chamado spin-off direto.
Embora os autores incluam na classificação a empresa
de transferência de tecnologia, ao classificarem
como spin-off apenas os casos em que houve transferência de pessoal, parecem dar maior ênfase à transferência de pessoas em detrimento da transferência
Quadro 2 – Resumo das classificações para empreendimentos criados no ambiente acadêmico.
(continuação)
Classificação
proposta por: Resumo Pontos fortes Pontos fracos
Mustar (2002) Em relação à origem dos
fundadores, há empresas criadas: a) pela própria
universidade; b) por pesquisadores ou
funcionários da universidade; c) por alunos ou ex-alunos; ou
d) por pessoas que não pertencem à universidade. No que se refere à atividade desenvolvida: a) produto; b) componentes; c) instrumentos; d) serviço com infraestrutura específica; e e) serviço sem infraestrutura específica. Questiona a representação do spin-off como empresa formada por pesquisadores
baseada na propriedade intelectual da universidade com crescimento expressivo e contribuição para a geração de empregos. Também destaca o papel do spin-off
como catalisador do processo de transferência
de conhecimento.
A conexão entre as duas dimensões propostas (fundadores e atividades) não está clara. Além disso, a
classificação fornece um leque de opções abrangente
demais, incluindo, por exemplo, empreendimentos que não têm relação com os resultados de pesquisa, mas que obtiveram apoio para o seu desenvolvimento por meio de iniciativas como incubadoras ou parques tecnológicos da universidade. Egeln et al. (2003) Divide os empreendimentos em spin-offs e startups. Os spin-offs podem ser: a)
spin-offs de
transferência; ou b)
spin-offs de
competências. As
startups podem ser
classificadas como com ou sem efeitos de transferência de conhecimento. Determina que o conhecimento adquirido na universidade deve, necessariamente, fazer parte do core business do empreendimento para que seja considerado um spin-
off.
As fronteiras entre os
diferentes tipos podem ser facilmente confundidas.
Pirnay et al. (2003)
Quanto ao status dos indivíduos (pesquisadores ou estudantes), os spin-offs
podem ser acadêmicos ou estudantis. Quanto à
natureza do conhecimento (codificado ou tácito), os
spin-offs podem ser
orientados a produto ou à prestação de serviço.
Lança luz sobre empreendimentos formados por estudantes.
Baseia-se em situações mais prováveis de ocorrer, negligenciando outras
Quadro 2 – Resumo das classificações para empreendimentos criados no ambiente acadêmico.
(continuação)
Classificação
proposta por: Resumo Pontos fortes Pontos fracos
Nicolau e Birley (2003)
Divide os spin-offs em três tipos: a) ortodoxo, quando
o inventor acadêmico deixa a universidade; b) híbrido, quando o inventor
mantém seu cargo na universidade e se dedica ao novo empreendimento
em tempo parcial; c) tecnológico, que envolve a
transferência de tecnologia sem que o acadêmico desenvolvedor
participe do novo empreendimento.
Destaca que a transferência de pessoas não é fator necessário para
a ocorrência do spin-off. Alerta para os riscos de uma taxa elevada de spin-
offs do tipo ortodoxo, o
que provocaria uma perda de profissionais relevantes
para a universidade.
Não aprofunda os aspectos envolvidos no processo de transferência de tecnologia/conhecimento. Druilhe e Garnsey (2004) Baseia-se principalmente nos recursos necessários, no conhecimento e na
experiência dos empreendedores. Foco nas
atividades produtivas/comerciais: contratos de P&D, serviços técnicos, consultorias, produção de software, licenciamento de propriedade intelectual, produção de bens e criação de uma infraestrutura física específica. Destaca a diversidade possível na atuação dos
spin-offs, ressaltando que
embora a criação de valor econômico e social possa variar muito, dependendo do tipo de spin-off, todos
contribuem para a transferência do conhecimento da universidade para o
mercado.
Pouca ênfase em como o processo de transferência de conhecimento ocorre. Bathelt et al. (2010) Diferencia três tipos de empreendimentos: a) spin-
offs oriundos de pesquisas
da universidade, que são baseadas na propriedade intelectual desenvolvida na universidade; b) spin-
offs que resultam de joint ventures universidade- indústria; c) startups resultantes de ideias descentralizadas, individuais ou coletivas, desenvolvidas na universidade, não relacionadas a projetos de pesquisa da universidade.
Destaca o fato de que os
spin-offs podem existir
independentemente do apoio da instituição de
origem. O estudo diferencia spin-offs patrocinados (apoiados)
dos não patrocinados.
Visão do spin-off restrita à propriedade intelectual.
Quadro 2 – Resumo das classificações para empreendimentos criados no ambiente acadêmico.
(conclusão)
Classificação
proposta por: Resumo Pontos fortes Pontos fracos
Shah e Pahnke (2014)
Apresenta quatro tipos de empreendimentos: a)
spinout tipo 1 (pesquisa
acadêmica e educação empreendedora); b) spin-
off tipo 2 (pesquisa
acadêmica sem educação empreendedora); c) ramificação (apenas
educação empreendedora); e d) semente (nenhum dos elementos anteriores).
Destaca que a pesquisa acadêmica e os conhecimentos gerados na
universidade formam apenas uma das dimensões
para entender os empreendimentos surgidos no contexto acadêmico. Ou
seja, as universidades podem contribuir de outras
formas para o desenvolvimento das empresas. A classificação enfatiza apenas a pesquisa acadêmica e a educação empreendedora como fontes para a criação dos
empreendimentos.
Fryges e Wright (2014)
A classificação envolve três tipos: a) startups de alunos; b) spin-offs puros
(formados por pesquisadores); e c) spin-
offs híbridos (formados
por pesquisadores e profissionais externos).
Chama a atenção para empresas criadas por
estudantes, embora considere a participação da
universidade nesses casos apenas de forma indireta.
Foco nas pessoas e não na transferência de tecnologia/conhecimento.
Fonte: elaborado pelo autor.