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Clausura Operacional e Acoplamento Estrutural

1 TEORIA SISTÊMICA, DIREITO E GLOBALIZAÇÃO

1.15 Clausura Operacional e Acoplamento Estrutural

A clausura operacional traz como consequência que o sistema dependa da auto- organização. Veja-se: a diferenciação entre sistema e meio ambiente é o artifício usado pela teoria sistêmica para se desenvolver em simetria com aquilo que estuda, como seu “equivalente funcional”, como dizem Georges Abboud, Henrique Garbellini Carnio e Rafael Tomaz de Oliveira176. Essa diferenciação é chamada sistêmica por que é trazida para dentro do próprio sistema. Daí por que o sistema “total”, a sociedade, aparece como meio ambiente dos próprios sistemas parciais, que dele e entre si se diferenciam por reunirem certos

174

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 48-49.

175 Rocha, L.S.;Shwarz, G.; King, M (2009). A verdade sobre a autopoiese no direito. Porto Alegre: Livraria do

Advogado, p. 20.

176 Consultar Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São

elementos, ligados por “relações”, nas operações do sistema, formando uma “unidade”177. Assim, uma unidade também pode aparecer como meio ambiente para outras unidades, além de diferenciada no sistema do meio ambiente, permitindo que por ela se aplique, recorrentemente, a diferença entre sistema/meio ambiente, sem com isso perder sua “organização”. A “organização” qualifica um sistema como complexo ou como uma simples unidade que possui características próprias decorrentes das relações entre seus elementos, mas que, no entanto, não são características desses elementos. O fato de haver a organização do sistema pela unidade de seus elementos não quer dizer que não variem os elementos que o compõem nem suas relações. Essas possíveis mudanças ocorrem na “estrutura” do sistema, que é formada por elementos componentes do sistema relacionados entre si178. Daí, para a organização do sistema, nas palavras de Abboud, Carnio e Oliveira,

o que importa é o tipo peculiar de relação, circular e recorrente, entre os elementos, enquanto para a estrutura o que importa é haver elementos em interação, ação e reação mútua, elementos esses que podem ser fornecidos ao sistema pelo meio ambiente, sem que por isso a ele não se possa atribuir o atendimento de suas ‘condições gerais’, para se terem ‘sistemas autopoiéticos’, como Luhmann propõe que se considere os sistemas sociais: a ‘autonomia’ e a ‘clausura’ do sistema179.

O fechamento operacional pede uma constante auto-observação. Para os sistemas observadores, no seu plano operativo, não existe nenhum contato com o ambiente. O fechamento e a auto-organização permitem a evolução do sistema mesmo diante (e até compatível com) a desordem do meio (não sentido). As estruturas do sistema podem construir-se e se transformar unicamente mediante operações dele mesmo. Juntas, a clausura e a auto-organização fazem que o sistema se torne altamente compatível com a desordem do ambiente ou com ambientes ordenados fragmentariamente, em sistemas vários, mas sem formar uma unidade180. Por clausura, não se entende “isolamento termodinâmico”, senão

177 Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

Revista dos Tribunais, p. 115-116.

178 Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

Revista dos Tribunais, p. 116.

179 Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

Revista dos Tribunais, p. 116.

180 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

somente fechamento operacional, isto é, que as operações próprias do sistema se tornem recursivamente possíveis pelos resultados das operações próprias do sistema181.

As operações reais são possíveis somente em um mundo que existe na simultaneidade. Isso exclui que uma operação influencie a outra. Se isso é possível, então deve sê-lo no cruzamento imediato de uma operação com outra. Relações recursivas como estas, em que a conclusão de uma operação é a condição de possibilidade de outra, levam a uma “diferenciação” dos sistemas. Nessa, tudo isso se realiza de um modo que, com freqfrequênciaência, é estruturalmente muito complexo, e a uma diferenciação de seu ambiente, que existe na simultaneidade. A clausura operacional é o resultado desse processo182.

O acoplamento estrutural, por sua vez, pressupõe que todo sistema autopoiético opere como sistema determinado pela estrutura, isto é, como um sistema que pode determinar as próprias operações somente por meio das próprias estruturas. O acoplamento estrutural não determina o que sucede no sistema, mas deve estar pressuposto, já que de outra maneira a autopoiese se deterioraria e o sistema deixaria de existir183.

Toda comunicação está estruturalmente acoplada à consciência. Sem consciência, a comunicação é impossível184. Sem comunicação, não há sistemas sociais, como pontuam Georges Abboud, Henrique Garbellini Carnio e Rafael Tomaz de Oliveira185. Não é o homem que pode se comunicar; somente a comunicação pode comunicar186.

181

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 50.

182 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 50.

183 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 51-52.

184

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 52.

185 Ver Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

Revista dos Tribunais, p. 117.

186 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Para compreender a conexão que subsiste entre consciência e comunicação é que se utiliza o conceito de acoplamento estrutural. O acoplamento estrutural funciona sempre e imperceptivelmente. Põe-se a funcionar ainda quando não se pense nele ou não se fale nele, da mesma maneira como em um passeio se pode dar o passo seguinte sem pensar no próprio peso, que para as leis da física é necessário para poder caminhar187.

O acoplamento estrutural entre comunicação e consciência, por seu modo de funcionar sem ruído e sem visibilidade, não exclui absolutamente que os constituintes de parte da comunicação sejam identificados nela ou que a palavra seja dirigida a eles. O processo da comunicação está em condições de personificar referências externas. Toda comunicação deve poder distinguir entre a informação e o ato de comunicar, ou não seria possível distinguir a mesma comunicação. Mas isso significa que se formam as referências materiais e pessoais correspondentes188.

Nos sistemas de comunicação, as indicações sumárias, como nomes ou conceitos como homem, pessoa, consciência, servem para processar a referência à complexidade do ambiente (dupla seletividade). Trata-se de utilizar a complexidade ordenada (estruturada, mas não calculável) na medida das próprias possibilidades de operação, o que nas sociedades significa linguisticamente189. O acoplamento estrutural (interpenetração) regular entre sistemas de consciência e sistemas da comunicação se faz possível por meio da linguagem. Do ponto de vista da evolução, a linguagem é um tipo de ruído extremadamente improvável, o qual, precisamente por essa improbabilidade, possui um alto valor de atenção e possibilidades altamente complexas de especificação190.

O fato de os sistemas de comunicação estarem acoplados aos sistemas de consciência, que, desta forma, aproveitam sua seletividade sem serem especificados por ela, atua como

187 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 53.

188

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 53.

189 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 54.

190 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

uma “couraça”, que, em geral, impede que a inteira realidade do mundo incida na comunicação (dupla seletividade).

Luhmann e De Georgi passam, então, a contradizer os pressupostos fundamentais da linguística saussureiana. Para eles, a linguagem não possui nenhum modo próprio para operar, não deve ser manejada como o ato de pensar ou como o ato de comunicar. Consequentemente, a linguagem não constitui um sistema próprio. É e seguirá sendo dependente do fato de que os sistemas de consciência, por uma parte, e o sistema de comunicação da sociedade, por outra, prossigam com a própria autopoiese mediante operações próprias completamente fechadas191 .A comunicação pode ser modificada somente através da consciência. Tudo o que atua sobre a sociedade desde fora, sem ser comunicado, deve ter atravessado o duplo filtro da consciência e da possibilidade de comunicação192.

Com respeito a todas as condições externas da autopoiese, portanto, a consciência tem uma “posição privilegiada”. Controla, em certa medida, o acesso do mundo externo à comunicação, mas exerce esse controle não como sujeito da comunicação, como entidade que fundamenta a comunicação, senão em virtude de sua capacidade de percepção. Essa, por sua vez, com base nas condições do acoplamento estrutural, depende de processos neurofisiológicos do cérebro e, através destes, de outros processos de autopoiese da vida193.

O sistema de comunicação, portanto, se apoia necessariamente em si mesmo; pode ser dirigido somente por si e pode fazê-lo somente na medida em que alcance ativar em seu ambiente o material de consciência que é necessário para tal fim194. O conceito de acoplamento estrutural explica que os sistemas, porque são completamente autodeterminados, em geral, desenvolvem-se em uma direção determinada, tolerada pelo ambiente. A parte do acoplamento estrutural que é interna ao sistema pode indicar-se com o conceito de irritação (ou moléstia ou perturbação). Ainda sob este aspecto, os sistemas – tanto os de consciência

191 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 55.

192

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 56.

193 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 56.

194 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

como o de comunicação da sociedade – são completamente autônomos195. O sistema tem a possibilidade de encontrar em si mesmo as causas da irritação, de apreender essa ou de imputá-la ao ambiente e assim de tratá-la como um causal ou buscar sua origem no ambiente e afastá-la196.

A linguagem, assim, na síntese de Georges Abboud, Henrique Garbellini Carnio e Rafael Tomaz de Oliveira197, é a “primeira condição” para que se dê o acoplamento estrutural entre sistemas autoconscientes e sistemas sociais autopoiéticos de comunicação. Esse acoplamento, no entanto, precisa ser viabilizado por certos meios (media).

No caso do Direito, o meio principal que Luhmann utilizada como exemplo de acoplamento entre o sistema de Direito e o sistema da política são as constituições. Isso irá remeter ao entendimento de que o Judiciário será a organização que ocupará o “centro” do sistema jurídico, situando-se as cortes constitucionais no “centro do centro” do sistema jurídico, já que determinam, em última instância, o que é ou não direito, assim como os poderes legislativo e executivo se encontram no centro do sistema político198. Assim, é no “centro do centro” que se daria o acoplamento estrutural do sistema jurídico com os demais sistemas. Como explicam Abboud, Carnio e Oliveira,

Todos os demais sistemas, não só o político, mas também a economia, a arte, a religião etc. penetram no direito e por ele são penetrados, principalmente por via de interpretações do que se acha disposto na constituição. Interpretações essas que são feitas por juristas, juízes e demais operadores jurídicos e, mesmo, por jornalistas, padres, cientistas, enfim todos os cidadãos, e essas interpretações todas influenciam os membros das Cortes Constitucionais, no entanto, a interpretação que prevalece num sistema jurídico autopoiético é tão somente a deles, membros das Cortes Constitucionais199.

195

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 57.

196 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 57.

197 Ver Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

Revista dos Tribunais, p. 117.

198

Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 118.

199 Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

É, pois, por via do acoplamento estrutural que se pode reconhecer a possibilidade de haver influência dos sistemas uns sobre os outros. Assim é que o sistema da política se acopla estruturalmente ao sistema de Direito pelas constituições dos Estados, enquanto o Direito se acopla à economia pelos títulos de propriedade e assim por diante200.

Há que se dizer, ainda, que a clausura estrutural permite compreender a teoria da diferenciação dos sistemas. As características da autorreferência, da reprodução autopoiética e da clausura operacional com a exclusividade de um tipo de operação próprio, ou seja, a comunicação, levam a que um sistema da sociedade construa uma complexidade estrutural própria e com isso organize a própria autopoiese. A complexidade estrutural organizada representa o “problema central da teoria dos sistemas” (Helmut Willke)201. A distinção que constitui a complexidade tem a forma de um paradoxo: a complexidade é a unidade de uma multiplicidade202. A forma específica de produção da complexidade, então, é dada pela simultaneidade do operar de sistemas que não podem se comunicar entre si. Estes sistemas só podem operar como operam porque são autopoieticamente fechados, ensina De Giorgi203.

A distinção decisiva no paradoxo da complexidade é a que se dá entre sistemas que dispõem de possibilidades de relação completa entre seus elementos e sistemas que dispõem de possibilidade de relação somente seletiva. A distinção da complexidade é a necessidade de manter uma relação somente seletiva entre os elementos ou, dito de outro modo, a organização seletiva da autopoiese do sistema204.

200 Abboud, G.; Carnio, H.G.; Oliveira, R.T. (2013) Introdução à teoria e à filosofia do direito. São Paulo:

Revista dos Tribunais, p. 118. A teoria sistêmica considera os diversos sistemas sociais como autônomos, autopoiéticos, mas interligados, “estruturalmente acoplados”. Assim, transformações em um desses sistemas termina por afetar os demais. Guerra Filho, W.S. (1997). Autopoiese do direito na sociedade pós-moderna:

introdução a uma teoria social sistêmica. Porto Alegre: Livraria do Advogado, p. 19.

201 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 59.

202

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 59.

203 De Giorgi, R. (1998). Direito, democracia e risco: vínculos com o futuro. Porto Alegre: Sergio Antonio

Fabris, p. 22.

204 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

No âmbito objetivo compreendido pelo conceito de complexidade, a sociedade constitui um caso extremo porque o tipo de suas operações elementares, isto é, as comunicações, a colocam sob notáveis restrições205. A condição recursiva da autopoiese da sociedade, como dito alhures, não está organizada por resultados causais (outputs como inputs) nem tampouco na forma de resultados de operações matemáticas, mas reflexivamente, isto é, mediante a aplicação da comunicação a comunicação.

Cada comunicação, assim, expõe-se a perguntas, dúvidas, à aceitação ou a rejeição, e antecipa tudo isso, sem exceções. Se uma tentativa de comunicação quisesse subtrair-se a esta forma de recursividade reflexiva, não poderia ser qualificada como comunicação. Não seria reconhecível como tal. A consequência à resposta ao problema da complexidade é a infinidade ineliminável da comunicação. A última palavra não existe. A representação da complexidade do sistema e do seu ambiente no sistema pode permanecer aberta como um fenômeno que deve ser continuamente explicado. E também significa que a comunicação deve reivindicar autoridade no sentido da possibilidade de dizer, explicar, motivar mais do que, no momento, pareça oportuno206.

Para Luhmann e De Georgi, a representação da complexidade em forma de sentido é a mais importante “aquisição evolutiva” que, em geral, faz possível a comunicação207. Também aqui “forma” significa “distinção de duas partes”. As duas partes da forma sentido são realidade e possibilidade; ou bem, em consideração ao seu uso operacional, “atualidade” e “potencialidade”. Essa distinção é o que permite representar nos sistemas que processam sentido a coação da seleção da complexidade. Cada atualização do sentido potencializa outras

205 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 61-62.

206

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 63.

207 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 59. A teoría dos sistemas é uma aquisição evolutiva da sociedade pós-industrial, tendo sido modelada com o intuito de descrever sua realidade (virtual). Ela substitui a oposição epistemológica “sujeito x objeto” (abordagem objetivo-teorética) pela diferenciação funcional “sistema x meio” (abordagem diferencial-teorética), considerando como seu objeto não o ser humano, mas o intercâmbio de comunicação, consequentemente gerando a arquitetônica conceitual mais adequada para a sociedade informacional da era pós-moderna. Isso acontece porque a teoria dos sistemas autopoiéticos pretende aprimorar os instrumentos da auto-observação, da comunicação com a sociedade acerca da sociedade (Luhmann). Guerra Filho, W.S. (1997). Autopoiese do direito na sociedade pós-moderna: introdução a uma

possibilidades. A seletividade (contingência) de todas as operações se converte em uma necessidade inevitável, que é a necessidade dessa forma de autopoiese. O mundo está presente em cada instante, não como plenitude, mas como diferença entre o sentido atualizado e a possibilidade, que são acessíveis a partir desse sentido208.

A determinação da sociedade como sistema social complexo tem como consequência que, para cada comunicação capaz de ligar-se às outras, pode existir somente um sistema único de sociedade. No plano fático, por evidente, podem existir diversos sistemas de sociedade209. A sociedade, porém, articula-se conforme uma diferenciação nos sistemas de funções. Com isso se desvanece a possibilidade de definir a unidade de um sistema da sociedade a partir dos limites territoriais ou a partir de seus habitantes, diferenciando-os de quem não sejam seus membros. Os sistemas de funções, como a economia ou a ciência, a política ou a educação, a atenção aos doentes ou o direito, cada um, propõem exigências próprias a seus próprios limites, os quais não podem estar integrados concretamente em um espaço ou em relação com um grupo de homens210.

Nesse contexto, a comunicação é a diferença que faz a diferença. Como sistema da comunicação, a sociedade se distingue de seu ambiente e, precisamente por isso, não se distingue em seu interior. Para todos os sistemas parciais da sociedade, os limites da comunicação são os limites externos da sociedade. Nisto, e somente nisto, se cruzam. Toda diferenciação interna deve e pode relacionar-se a este limite externo. Na medida em que comunicam, todos os sistemas sociais participam da sociedade. Na medida em que “se” comunicam em um modo distinto, se distinguem211.

208 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 63.

209

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 64.

210 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 67.

211 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios