Nos últimos meses, tenho recebido visitas rigorosamente insólitas. Ocorrem, sempre, entre uma e duas horas da manhã e, também sempre, quando ao som de Bach, Scarlatti ou Chopin, Brahms, Beethoven ou Falla, mantenho a sala na penumbra e vagueio entre a vigília e o sono. Há, então, uma atmosfera densamente favorável à presença de personagens raríssimos, desusados, vivos ou mortos, e até mesmo daqueles que muitos julgam simplesmente imaginários. Tento dizer que a sala ganha forma e cores mágicas, onde tudo é possível, eis que se transforma em um palco surrealista, no qual se mesclam realidade e fantasia.
Dia 2 de janeiro, duas horas da manhã, a última pessoa de quem poderia eu esperar a visita, sobretudo por impropriedade de calendário, foi precisamente a que chegou. A campainha soou duas vezes. Abri a porta.
– Papai Noel?!
– Eu mesmo. Desculpa a data e a hora, mas é uma emergência. – Banheiro?
– Nada disso. É que estou partindo pro Polo Norte agora e estou desprevenido – disse ele, levando a mão à boca e fazendo do polegar um gargalo.
– Conhaque ou vódica?
– Conhaque ou vódica. Indiferente. Pode ser até cana. Aquele clima é terrível. Séculos e séculos lá e não me acostumo.
– Mas... senta, Noel. Fica à vontade.
– Só um minutinho, então. Não quero te incomodar. – Incômodo, nada. É um prazer.
O detetive de Florianópolis
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Papai Noel ficou realmente à vontade. Tirou o gorro, as botas, o cinturão, a túnica vermelha. Sentou-se. A alva e longa barba cobriu-lhe a enorme e suada barriga de cera.
– Agora que estou vendo que a vódica e o conhaque acabaram. O Sérgio da Costa Ramos bebeu tudo no Natal e ano- novo. Mas tenho uma cana aqui, uma “Chora na Rampa”, que é um espetáculo. Esta vou te presentear, pra viagem. E pra beber agora resta-me esta meia garrafinha de uísque, que tá até empoeirada, presente do Fúlvio Vieira, em 1963, última vez que se imbuiu do espírito natalino.
– Aquilo é um sovina. – Conheces?
– Quem não?!
– Aceitas um cauboizinho?
– Não, obrigado. Tá muito calor. Mas se tiveres por aí uma gelada, aceito.
Papai Noel bebeu os dois primeiros copos de cerveja em dois únicos e apressados sorvos. No frenesi, permitiu que dois pequenos e dourados riachos de bebida deslizassem barba abaixo, passeassem, em meandros, sobre o toicinho da barriga, sumissem no profundo buraco do umbigo.
– Como é que estão as coisas, Noel?
– Mais ou menos. Estou com duas renas grávidas e uma terceira com a perna machucada. Isto impede que as outras cinco desenvolvam a velocidade ideal. Daí, o meu atraso. Dia 2, já, e ainda por Florianópolis...
– Mas por que tanta pressa? Falta tanto tempo pro Natal! – É que preciso instruir os gnomos na fabricação dos presentes. É muita coisa. Com exceção de alguns países, visito praticamente o mundo inteiro, em dois dias.
– E como consegues?
– É que Ele me deu o poder da onipresença. Caso contrário, seria impossível dar tantos presentes.
– Por falar em presentes, tenho uma queixa a fazer. Quando eu era menino, durante anos e anos te pedi uma bicicleta e nunca trouxeste. Até hoje não entendi a razão. Eu passava o ano inteiro sem dizer nome feio, sem desobedecer à mamãe e à vovó, respeitando os mais velhos, indo buscar balde d’água na torneira do seu Acácio, porque lá em casa não tinha, tudo por causa dela, da bicicleta. Passava meses pensando nela, toda azulzinha, com sinetinha e lampadazinha. Quando se aproximava o Natal, chegava a emagrecer e ter febre, de tanto que rezava, noites intermináveis, para que não te esquecesses. Na véspera, eu não dormia. Ficava acordado, ouvindo os cães latirem, o vento chiando nas frestas das paredes de madeira, depois o cantar dos galos, alguns próximos, outros longe. Meus olhos queimavam, de tanto sono. Pareciam ter areia dentro. Tinha medo que chegasses e não me visses. E que, então, levasses a bicicleta para outro menino. Mas amanhecia, chegava Natal, nada. Nada mesmo. Nem bicicleta, nem outros brinquedos. Então eu chorava. Chorava bem baixinho, pra ninguém ouvir. Porque papai dizia que homem não chora. Só houve um dia em que tu pediste para dona Lalinha entregar um par de meias pra mim. Ela entregou mas não adiantou. Pra que meias se eu não tinha sapatos? Às vezes eu pensava que tu não vinhas porque a nossa casa era muito feia, muito pequeninha, com buracos nas predes. E chovia dentro.
Olhei para o Papai Noel e vi que chorava. As lágrimas surgiam em grossas bagas, tremelicavam no soalho orbital, escorriam sobre os zigomas escarlates, ganhavam a barba.
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– Ofensa, coisa nenhuma. Tens toda razão. Já está na hora de me aposentar. Estou muito velho, esclerosado. Esqueço tudo. Meu substituto fará um trabalho muito melhor. Distribuirá os presentes com mais justiça. Desculpas. Mil desculpas... – disse ele, passando a mão gorda e alva sobre os olhos.
– Tudo bem, Noel. Falemos em coisas mais alegres. Tenho uma curiosidade: o que foi que a dona Cloraldina, a solteirona aqui do lado, te pediu?
Papai Noel olhou para um lado, olhou para o outro, bebeu mais um copo de cerveja, coçou a barriga, e parece por temer que as próprias paredes escutassem, ergueu-se, aproximou os lábios do meu ouvido e sussurrou o que dona Cloraldina pedira.
– Mesmo? – indaguei. – Mesmo!
– Mas que barbaridade! – Isto é só pra tu ver! – E trouxeste?
– Claro que não! Já imaginaste?!
Aí, rimos, rimos, rimos, rimos, rimos. Rimos tanto que Papai Noel aceitou um cauboizinho, depois outro, outro, outro e outro.
– Agora eu vou. É tarde. Já estou como o Diabo gosta. E as renas já devem estar indóceis.
– Onde estão elas? – Já te mostro.
Calçou as botas, vestiu a túnica, colocou o cinturão, cingiu o gorro. De pé, bebeu mais um cauboizinho, botou a “Chora na Rampa” no saco, abriu a porta, apontou para o céu.
– Lá estão.
– Mas que alto! Como podes chegar lá?
Papai Noel assoviou. Dos seus lábios, então, além do brando som de uma solitária nota, saiu, também, dourada e flutuante clave de sol. Agarrou-se a ela e voou em direção ao trenó. Já lá em cima, me deu adeus e zarpou rumo norte.
Fechei a porta. Três horas da manhã. Onde sentara, sem que eu percebesse, deixou um disco de Noel. De Noel Rosa.