2.4 Planejamento da participação política
2.4.3 Comportamento eleitoral no Brasil
2.4.3.1 Clientelismo
Conforme Silveira (1998), até o ano de 1930, o comportamento eleitoral, no Brasil, sofria a influência do clientelismo. O eleitorado brasileiro, predominantemente rural, com baixo grau de escolaridade e não politizado, era incapaz de entender as propostas políticas de candidatos, bem como reconhecer os seus próprios interesses. Dessa forma, era bastante sugestionável, seguindo a indicação de voto do chefe político, ou do coronel local, em troca de favores, ou ainda, como forma de obediência ao chefe, para evitar represálias da parte deste.
O comportamento eleitoral da sociedade brasileira era motivado por relações de dependência pessoal e repressões políticas. A expressão “voto a cabresto” é originária desse período, no qual o eleitor era obrigado a votar nos candidatos do coronel, como forma de garantir seu emprego e evitar punições, como rebaixamentos ou agressões físicas.
Silveira (1998, p.14) salienta que, naquela época, “o processo político e eleitoral era um jogo de cartas marcadas, totalmente controlado pelos chefes políticos locais.” Os políticos faziam parte de partidos, os quais não possuíam consistência ideológica e nem mesmo representatividade social. Serviam, apenas, para representar clãs familiares que, por meio de suas lideranças, ocupavam os cargos públicos.
A partir de 1945, as relações coronelistas e a prática do clientelismo foram progressivamente eliminadas, com o início da industrialização, da urbanização e do desenvolvimento econômico. O eleitorado apresentava-se, nesse período, melhor informado, devido à expansão de jornais e rádios e ao surgimento da televisão, que propiciaram maior circulação de informações sobre política. Outro fator que contribuiu para a conscientização política da sociedade brasileira de 1945, foi o aumento dos níveis de escolaridade da população.
No período anterior a 1930, a fraude eleitoral era tema corrente. Com a reestruturação democrática de 1945, todas as ações relativas às eleições passaram a ser orientadas pela Justiça Eleitoral, encarregada de garantir igualdade de condições aos candidatos, para disputar e fiscalizar a votação e a contagem de votos.
O aumento da lisura nos processos eleitorais, que se tornavam cada vez mais democráticos, possibilitou maior competitividade entre os concorrentes e, consequentemente, o fortalecimento dos partidos políticos. Assim, os partidos políticos começaram a se distinguir política e ideologicamente, defendendo propostas diferenciadas e atraindo diferentes bases eleitorais.
A partir de então, pode-se perceber que o voto não mais se dava em troca de favores, mas sim de acordo com os interesses dos eleitores, que se identificavam com as propostas e ideologias dos partidos políticos.
Essa nova realidade que se instaurava foi confirmada por meio de pesquisas sobre o eleitorado. O estudo pioneiro de Aziz Simão (1956) identificou, de acordo com os resultados das eleições de 1945, uma grande relação entre o voto das zonas operárias e a preferência pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Da mesma forma, Cintra (1968) realizou uma pesquisa em Belo Horizonte, nos anos de 1965 e 1966, a qual revelou a existência de forte ligação entre a situação socioeconômica, o posicionamento político em relação a temas e propostas relevantes do período e a preferência partidária dos eleitores. “Parte considerável do eleitorado reconhecia as diferenças políticas entre os partidos e estabelecia relações de identificação com estas agremiações” (SILVEIRA, 1998, p. 16).
Ainda a esse respeito, Lavareda (1991) mostrou, a partir de resultados de pesquisas do IBOPE, que as taxas de identificação partidária eram grandes, em 1964: 81% no Rio de Janeiro, 80% em Porto Alegre, 66% em Belo Horizonte, 53% em São Paulo e em Curitiba.
Consolidou-se, então, no período de 1945 a 1964, um novo perfil de eleitor, que se mostrava capaz de posicionar-se perante temas políticos e identificar-se com partidos, os quais se apresentavam, agora, ideologicamente bem definidos e apoiados por bases eleitorais distintas sob os aspectos sociais e econômicos. Sobre isso, Silveira (1998, p. 17) afirma que
(...) a política passava a girar mais em torno dos partidos, organizações que estavam se afirmando institucional e politicamente. Aumentava a competitividade em eleições mais lisas e democráticas e eram instauradas as condições de incerteza próprias do processo eleitoral.
As mudanças impostas pelo regime militar, a partir de 1964, que estabeleceram o bipartidarismo, não provocaram a extinção ou redução da identificação partidária. O eleitorado brasileiro dividiu-se entre os dois partidos da época: o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), oposicionista, e a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que congregou os aliados do governo. Estudos demonstraram que em bairros mais pobres das cidades a
preferência era pelo MDB, enquanto que nos mais ricos, a Arena era o preferido pelos eleitores.
Conforme Silveira (1998), as relações clientelistas, na década de 70, além de mais escassas, começaram a ganhar novas formas. Antes, associadas a estruturas e relações sociais tradicionais, passaram a dar-se entre os partidos políticos, que utilizavam o clientelismo para aumentarem o seu poder. No entanto, esse comportamento começou a ser praticado, de forma consciente, pelo eleitor, que percebeu, nele, a possibilidade de obter vantagens por meio do voto. Assim, os vínculos com os partidos começaram a tornar-se menos estáveis, visto que o eleitor percebeu o voto como algo negociável e apoiava, a cada eleição o partido que lhe oferecesse mais vantagens. “Menos ingênuo e mais descrente com os políticos e com a política, o eleitor, ao invés de se deixar simplesmente manipular, participava intencionalmente do jogo da troca” (SILVEIRA, 1998, p. 20).
Mais adiante, nas décadas de 80 e 90, inúmeros fatores contribuíram para o declínio do voto clientelista. Grande parte da população rural migrou para as cidades; as relações de trabalho no campo profissionalizam-se e tornam-se assalariadas e a expansão dos meios de comunicação, principalmente a televisão, aumentou a circulação de informações. Conforme Silveira (1998, p. 21)
O clientelismo também perdeu espaço frente ao crescimento da importância dos meios de comunicação, especialmente da mídia eletrônica, nos processos eleitorais. Eleitores politicamente desinformados passaram a estabelecer outra relação com a política: através da televisão receberam as imagens de que precisavam para avaliar os candidatos e opinar sobre o processo eleitoral.
Diante desse contexto, os eleitores começaram a tomar suas decisões políticas a partir das imagens que recebiam via televisão. Houve, gradativamente, uma substituição de pequenos benefícios e favores imediatos pela obtenção de ganhos de caráter simbólico. “(...) trata-se de uma troca simbólica: os eleitores escolhem candidatos comunicadores em função de uma relação de admiração construída através do constante contato via mídia” (SILVEIRA, 1998, p. 21).
O clientelismo começou a perder influência para a mídia. Políticos tipicamente clientelistas perderam espaço para representantes de segmentos sociais organizados, comunicadores e candidatos avaliados positivamente, em função de atributos simbólicos.
Outro fator, que contribuiu para o enfraquecimento do clientelismo, foi a infidelidade dos eleitores clientelistas, que trouxeram insegurança aos políticos que se apoiavam, essencialmente, nesse tipo de relação.