1. Os clientes
Existem três tipos de clientes. O cliente jovem: normalmente vem com a turma – quando vem sozinho é porque brigou com a namorada (risos) – e vem pra fazer farra e aparecer (se mostrar) pros amigos. Esses não pagam nada. No máximo pagam uma table dance1 pra aparecer para os amigos, mas os amigos se divertem mais do que quem pede o table. Eles normalmente fazem muito barulho, mexem com as meninas e não são muito bem vindos na casa. Muitas vezes eles se interessam por alguma menina, pedem telefone, querem encontrar com ela lá fora, chamam pra sair, mas nunca pagam copos. Eles sempre vêm com aquele papo de que não precisam pagar por companhia e essas coisas. O cliente maduro: é aquele na faixa dos 35 a 45 anos. Esses geralmente estão fartos da vida de casado e saem em busca de alguma diversão porque já não frequentam mais discotecas e sítios desse tipo. As vezes vêm em pequenas turmas ou apenas em dois. É muito comum eles virem após jantar com os amigos ou colegas de trabalho. Eles saem pra jantar, bebem um pouco e se animam a esticar um pouco mais a noite. Eles gostam da companhia das meninas mas conversam muito e pagam pouco. Sabem como funcionam essas casas e são espertos. Enrolam o quanto podem para pagar copos e ficam por conta de tentar seduzir as meninas. Esses normalmente não estão interessados em se relacionar com as meninas fora da casa por causa das esposas e família. O cliente velho: a partir dos 45 ou 50 anos. Esses vêm quase sempre sozinhos ou apenas com um amigo, são discretos e gostam de se sentar mais ao fundo, menos na vista. Em comparação com os outros, são bons clientes porque sabem que estamos aqui a trabalhar, valorizam nosso trabalho e não acreditam que possam seduzir a gente sem pagar copos. São, na maioria, casados há muitos anos e já não fazem
1 Table dance ou Lap dance, são danças eróticas que as strippers executam para um cliente
individualmente. Nessa dança, que acontece no local onde o cliente está sentado, a dançarina se despe enquanto faz movimentos de simulação sexual e seu corpo fica em contacto direto com o cliente, embora este não possa tocá-la.
sexo com as esposas. São muito carentes e quase sempre querem se relacionar com as meninas fora do bar. Convidam para jantar, almoçar, viajar e fazem várias propostas. Sempre pedem telefone (Laura).
O depoimento de Laura é bastante significativo pois ele resume com precisão os variados tipos de clientes e coincide, grosso modo, com as observações que pude fazer no campo. As diferenças de comportamentos são bastante marcadas e visíveis, mesmo aos olhares menos afiados, sobretudo no que diz respeito aos clientes jovens. Estes são claramente menos cobiçados pelas mulheres e passam a maior parte do tempo sem a presença feminina na mesa, uma vez que não se mostram muito dispostos a pagarem copos. Ao mesmo tempo, se fazem presentes pelo tom alto das conversas, pelas interações com os shows de striptease e pelo consumo dos serviços, como o table dance, como foi relatado por Laura. Essas turmas de jovens normalmente vão aos bares em ocasiões comemorativas tais como despedidas de solteiro ou aniversários. Por uma questão de recorte etnográfico, mantive mais atenção aos clientes mais velhos que são, na maioria dos casos, os que compõem o quadro dos clientes habituais.
O meu envolvimento com o terreno empírico desta pesquisa, que ao todo conta mais de cinco anos, me permite afirmar que frequentar bares de alterne é um tipo de entretenimento largamente procurado por homens portugueses de variadas idades, classes sociais e status conjugal. Complementando o que disse Laura, mesmo aqueles que não frequentam os bares com assiduidade possuem conhecimentos sobre suas dinâmicas de funcionamento e já fizeram pelo menos uma visita, muito provavelmente por ocasiões da despedida de solteiro de um amigo ou confraternizações com colegas de trabalho.
Ao longo destes anos me familiarizei com a expressão “da noite” que, embora também seja utilizada para falar de pessoas que trabalham no divertimento noturno no geral, nomeadamente músicos, Djs ou produtores de eventos e festas, é um termo comumente usado para fazer uma referência mais específica aos estabelecimentos de entretenimento erótico. Salvo as exceções citadas, se uma mulher é “da noite” isso significa que ela trabalha em bares de alterne, de saída, de striptease, numa casa de
massagem ou é acompanhante. Se um homem é “da noite” isso significa que ele é do tipo que frequenta regularmente os estabelecimentos onde essas mulheres trabalham.
Como vimos, a sexualidade das meninas da noite é percebida como desviante por ser deslocada da função reprodutiva familiar e, além disso, por se construir num espaço marginalizado onde há a associação da atividade sexual ao dinheiro. No entanto, para os homens, a busca por entretenimento erótico, ou sexo extraconjugal, em cenários prostitucionais ainda é aceitável e até valorizada.
Os homens que colaboraram nesta pesquisa2 são clientes regulares em bares de
alterne, têm idades entre 45 e 60 anos, são nascidos em Lisboa ou arredores – alguns vivem em cidades vizinhas e vêm à Lisboa frequentemente por questões de trabalho – e são casados ou divorciados. A maioria se identifica como empresário, o que, no geral, significa que são donos ou sócios-proprietários em pequenas empresas. Há também aqueles que exercem profissões de nível técnico3.
Considerando a faixa etária, observamos que trata-se de homens nascidos nas décadas de 1950-1970 em Portugal, oriundos de uma geração em que as concepções tradicionalistas sobre as relações de gênero constituem forte referência, o que não significa, entretanto, que estas não sejam diariamente desconstruídas no decorrer de suas experiências de vida.
Vale de Almeida (2000a), numa etnografia situada em Pardais, uma aldeia Alentejana (região sul de Portugal), procurou explorar os elementos presentes nas relações sociais que refletem os ideais de masculinidade hegemônica neste contexto em questão. Os habitantes da aldeia estudada por Almeida percebem a diferenciação entre gêneros de maneira essencialista, ou seja, o mundo é dividido entre as categorias homem e mulher que, por sua vez, é o mesmo que masculino e feminino, uma vez que tais diferenças são vistas como diferenças sexuais, inscritas somente no corpo. Neste sentido, o modelo de dominação masculina monogâmico, heterossexual e reprodutivo é
2 Vale lembrar que as entrevistas e conversas informais com clientes de casas de alterne assumem aqui o status empírico de fontes secundárias e complementares no âmbito global da pesquisa.
3 Essas informações foram recolhidas através das informantes em relação aos clientes com quem elas mantinham certa proximidade e através das entrevistas com clientes.
percebido de forma naturalizada.
O contributo do trabalho de Vale de Almeida se dá na abordagem da masculinidade a um nível local, embebida, portanto, nas especificidades e complexidades culturais e históricas do contexto empírico em questão, demonstrando assim que os processos que constituem a masculinidade se dão precisamente na experiência social. O trabalho do autor foi de grande importância para a pesquisa que aqui se apresenta uma vez que ambos tratamos de contextos de sociabilidade masculina portugueses, ainda que seja preciso manter as devidas ressalvas em relação à heterogeneidade dos mesmos.
Entre as gerações mais velhas, como observa Pais (2010), é muito recorrente o ideal conservador que defende o matrimônio e os laços conjugais duradouros, uma estrutura familiar tradicional e um certo puritanismo sexual. Entretanto, o autor observa que os homens, sobretudo os mais velhos, veem-se constantemente submetidos às noções de instinto ou impulsos biológicos nas quais inscrevem-se a ideia de que ser homem/macho é ter uma sexualidade disponível, de forma permanente, indiscriminada e compulsiva.
(…) Os valores machistas encontram-se de tal forma arraigados no tecido social que acabam por sobreviver ao “enferrujamento” dos impulsos biológicos. (…) Quanto mais ameaçadoras são as disfunções erécteis, tanto mais se procura defender a reputação de “macho” perante si próprio ou perante os outros – companheiros das idas às casas de alterne (Pais 2010, p. 17).
Assim como no caso das mães de Bragança, relatado anteriormente, no universo de interações dos bares de alterne em Lisboa também estamos a lidar com um terreno em que os significados de gênero são herdados de percepções tradicionalistas que abrigam significativas atribuições de gênero às ações, emoções e comportamentos.
No que diz respeito às questões relacionadas à classe social e ao capital escolar, articulados às percepções sobre valores de gênero, diversos estudos sociológicos no campo da conjugalidade em Portugal têm sugerido que as diferentes maneiras de se conceber os relacionamentos afetivos heterossexuais estão diretamente ligadas aos
contextos sociais e culturais de pertença dos indivíduos (cf: Aboim 2006a, 2006b; Torres 1996, 2002; Wall 2005). Os estudos apontam para uma tendência mais tradicionalista nas concepções sobre os papéis de gênero entre pessoas com percursos escolares menos privilegiados, enquanto que o oposto também se verifica, ou seja, os contextos sociais acadêmicos ou profissionalmente mais qualificados são campos mais férteis para o desenvolvimento de concepções menos convencionais a respeito das relações afetivas e sexuais.
(…) para além das transformações ocorridas no universo simbólico dominante das sociedades ocidentais (que certamente contribuíram para a actual visibilidade da «psicologização» emocional das relações), existem os contextos sociais de pertença, onde as desigualdades estruturais se materializam. Situados algures nesse espaço social diferenciado, os indivíduos, possuidores de capitais específicos, incorporam disposições diferentes para a acção, mesmo que algumas delas frequentemente se referenciem a simbolismos comuns. Embora os sistemas de disposições não sejam impermeáveis às possibilidades que cada percurso de vida oferece ao indivíduo, existe uma força do habitus (Bourdieu, 1998), bem visível na correlação tendencial entre determinados estilos de conjugalidade e contextos de classe (Aboim 2006a, p. 824).
Um campo empírico que serve para ilustrar a existência dessa correlação entre determinadas maneiras de se conceber a conjugalidade e os contextos de classe, mencionada por Aboim, é o dos praticantes de swing4 em Portugal, terreno abordado pela pesquisadora Maria Silvério (2014). Silvério constatou que o perfil socioeconômico dos swingers portugueses, não diferentemente do que ocorre também nos EUA, segundo a autora, é predominantemente constituído por pessoas de classes média e média-alta, com nível de instrução e salarial elevados, posições profissionais estáveis ou em cargos de gerência, casados e brancos (Silvério 2014, p. 556). Além disso, Silvério observa ainda que, embora a prática do swing seja, a princípio, motivada pela diversificação de parceiros sexuais, a escolha dos participantes acaba por respeitar um critério homogâmico, não apenas social, mas também em termos de equivalência de
4 O swing, também conhecido como troca de casais, pode ser definido como uma prática em que casais heterossexuais estáveis mantêm relações sexuais com outros casais ou pessoas solteiras, com o total consentimento do parceiro (Silvério 2014, p. 552).
capital cultural. Por fim, a autora conclui que, embora a prática do swing aponte para a abertura e flexibilidade dos modelos conjugais monogâmicos e convencionais, ela não abandona por completo os valores tradicionalistas a respeito dos papéis de gêneros e da heteronormatividade conjugal.
De maneira mais ou menos oposta ao contexto dos swingers, vejo as casas de alterne como um terreno que privilegia e promove o exercício de performances de gênero mais convencionais que vêm ao encontro de disposições reconhecíveis e desejadas pelos clientes, por fazerem parte de seu contexto cultural e histórico. O ambiente, o consumo, as práticas, as interações e o policiamento da heterossexualidade favorecem comportamentos que se aproximam de ideais hegemônicos de masculinidade. As meninas, por sua vez, conduzem as interações de forma a reiterar essas noções de gênero e, mais ainda, a articulá-las às noções racializadas de brasilidade. Elas performam uma feminilidade calcada na alteridade, nomeadamente ao imaginário popular que se tem sobre as brasileiras, ou seja, na sensualidade, na pronta disponibilidade afetiva e sexual, no cuidado e numa espécie de submissão aos desejos masculinos.
Em Nightwork: sexuality, pleasure, and corporate masculinity in a tokyo hostess club, Anne Allison (1994), pesquisa as interações entre hostesses e clientes que acontecem em um clube direcionado a um público masculino de classe média alta de Tóquio que possui semelhanças com os bares de alterne. A autora aborda as questões relacionadas com a masculinidade no Japão e observa como esse tipo de entretenimento noturno masculino possui um papel importante para o bom funcionamento das grandes corporações, no sentido de fomentar a boa interação profissional entre seus empregados homens. Essas corporações disponibilizam fundos que são direcionados ao pagamento do referido entretenimento, com o objetivo de fornecer aos funcionários um ritual que reforça os vínculos entre colegas e entre estes e a empresa através do exercício da masculinidade.
O trabalho de Alisson é interessante não só pelo fato de apontar as especificidades dos rituais de masculinidade no contexto cultural japonês, mas também por apresentar os diversos elementos ligados à busca por este tipo de entretenimento
adulto, tais como a articulação entre rituais que envolvem questões de sexualidade e o fomento dos laços de amizade entre os homens, e os interesses por trás das grandes companhias no financiamento deste lazer como forma de institucionalizar outras dimensões da vida dos empregados que não somente sua força de trabalho.
Semelhantemente a atividade das alternes, as hostesses no Japão trabalham para entreter e fazer companhia aos clientes. Elas acendem seus cigarros, mantém os copos sempre servidos, os incentivam a cantar no karaokê, falam e ouvem com atenção. Serviços sexuais não são permitidos nos bares, mas as mulheres flertam com os clientes e mantêm conversas temperadas por alusões sexuais. “The job of the hostess, as both speaker and listener, is to make customer feel special, at ease, and indulged. Or as a Japanese man told me, the role of the hostess is to make a man ‘feel like a man’.” (Allison 1994, p. 8).
Isso não quer dizer que as performances de gênero se deem ao nível teatral, num esforço de atuar um papel relacionado unicamente com regras ou padrões fixos que informam o que é masculinidade e feminilidade. Como já foi colocado, a performance é o que consolida o sujeito e a sua identidade sexual, através da repetição e reiteração das normas de gênero que acaba por produzir o que entendemos por ser mulher ou ser homem (cf: Butler 1990).
2. Beber um copo, pagar um copo: o que dizem os clientes?
Eu estava na dúvida a respeito de como me vestir para o meu primeiro encontro com o João, um ex-cliente e amigo de Mariana (que veio a se tornar uma das figuras chaves nas minhas incursões no terreno). Ele tinha sido bem simpático quando falamos ao telefone mais cedo. Demasiadamente simpático, talvez. Não sei exatamente o que Mariana disse a ele a meu respeito antes de nos colocar em contato. Sobre ele, ela me disse: “o João é um ex-cliente do bar, um amigo de longa data e super bacana, tenho certeza que ele vai te ajudar. E, olha, ele tem dimdim (querendo dizer que ele é rico), eim? Aproveita!” É interessante como a condição material
privilegiada do homem está frequentemente em evidência e representa, aos olhos das meninas, uma vantagem, mesmo que elas saibam que o meu interesse é exclusivamente profissional. João me convidara para jantar com dois amigos seus, antes de partirmos para o objetivo desse encontro: me acompanhar nas visitas de bares de alterne em Lisboa, me apresentar algumas de suas amigas da noite e, enfim, me ajudar na minha reaproximação do campo de pesquisa. “Eles são boa gente e também são 'da noite', pode ser interessante para você.” Disse ele, ao telefone, sobre os amigos que estariam no jantar. Eu, claro, aceitei o convite.
Optei finalmente pelos jeans, uma blusa preta mais “noite” e um par de sapatos discretos e de saltos baixos, ou seja, um visual nem muito sério e nem muito extravagante. A ideia era compor uma imagem que pudesse contribuir para a impressão que queria causar nesses homens: qualquer coisa entre o não assustá-los e o não deixá-los demasiadamente à vontade. Contudo, sendo eu mesma brasileira, vivendo em Portugal já há alguns anos e pesquisando sobre o mercado sexual, eu sabia bem que a coisa não seria assim tão simples e não dependia somente da minha aparência.
João veio me buscar no local combinado em um carro de modelo esportivo conversível, desses com apenas dois lugares. Na rádio do carro tocava música comercial brasileira, do tipo sertanejo. Ele se vestia casualmente com uma camisa de botões, calças de ganga claras e sapatos com o bico levemente fino. João tem 45 anos, é divorciado, vive em Cascais, é dono de um lava-jato e diz ter também negócios no Brasil, ele exporta vinhos para São Paulo. É um homem simpático, educado e, felizmente, comunicativo. Ele disse adorar o Brasil e conversava comigo puxando o sotaque brasileiro. Chegamos ao restaurante e seus dois amigos estavam à nossa espera, já acomodados em uma mesa ao fundo do restaurante. Duarte é o mais velho, tem 49 anos – embora aparente ter mais de 60 –, é divorciado, mas “vive com uma brasileira” (João me disse ainda no carro), e Miguel é o mais jovem dos três, tem 37 anos e é recém-casado com uma jovem advogada portuguesa.
Após ser apresentada por João como “minha amiga jornalista”, eu expliquei que sou Antropóloga e falei um pouco sobre a minha pesquisa. Após algumas cervejas, rapidamente a conversa começou a fluir e eu tive que lidar com uma certa euforia de três homens desejosos por falar sobre suas aventuras sexuais e afetivas com mulheres da noite e/ou brasileiras. As conversas foram mais ou menos como eu esperava: cheias de discursos sexistas e machistas, de marcadores de masculinidade e
percepções racializadas sobre as mulheres brasileiras, sobretudo a respeito de sua sexualidade.
Eu fiz sinais de concordância com a cabeça quando eles diziam que “a mulher deve ser uma senhora na sala e uma puta na cama”. E me mantive neutra quando falaram das vantagens em sair com meninas que trabalham na noite afirmando que “se queres ir para a ‘tourada’ deves ir com as vagabundas e não com a tua esposa”. E não expressei nenhuma discordância frente a afirmação de que, embora a mulher brasileira seja demasiadamente ciumenta e passional, é o tipo de mulher que cuida do seu homem e que sempre faz tudo por ele. E ainda fingi achar graça quando João disse, no tom jocoso comum das piadinhas de policiamento da heterossexualidade, que ia sugerir à esposa de Miguel que o penetrasse com um pepino para que ele tivesse uma experiência diferente, dizendo logo depois: “só não me conte depois se gostares”, todos riram.
Eu tomava nota de tudo – mentalmente e alguns poucos e discretos escritos no bloquinho de anotações. Ao mesmo tempo, pensava nos meus limites enquanto pesquisadora, sobretudo na constante negociação entre a eficiência na recolha de material, a importância da postura ética e o impulso que sentia em me posicionar verdadeiramente na conversa. A cada impulso eu me controlava e me recompensava com o fato de ter conseguido incentivar as falas, colocando minhas companhias à vontade, sem cair na armadilha de acabar por me transformar em um alvo de tentativas de sedução ou galanteio, o que, na posição em que estava, evitá-lo era uma tarefa difícil.
Após o jantar, nos despedimos e eu e João entramos em seu carro. Duarte se aproximou da minha janela e disse ao João: “com uma máquina dessas, vais longe!” Como se estivesse se referindo ao carro, estava claro que “a máquina” era eu (Notas de campo, Julho de 2012).
Quando comecei a entrevistar clientes habituais de bares de alterne, um dos pontos que eu objetivava precisamente perceber era sobre as motivações que levam os homens a frequentar tais bares, ou seja, o que eles esperavam e desejavam lá encontrar. Entretanto percebi que quando direcionava a pergunta diretamente ao interlocutor – “Por que você vai às casas de alterne?” – obtinha respostas vagas e diferentes de quando abordava terceiros, na tentativa de provocar uma reflexão de maneira mais geral a respeito do assunto – “Por que os homens vão às casas de alterne?”.
bares por ocasiões de confraternização com colegas de trabalho ou para agradar clientes