4 ANÁLISE DOS DADOS
PROFESSOR IDADE TEMPO NA UFC MANDATOS
4.4 Clio: O tempo de se dizer
Nossa narrativa começou descrevendo a criação segundo a visão da Grécia clássica. Assim, é justo que, ao chegarmos ao final, também nos aproximemos dessa mítica. Nossa história é composta prioritariamente daquilo que desejamos falar, narrar-se faz referência a fazer-se, na medida em que, para dizer de mim, é preciso que eu reflita sobre meu objeto, qual seja, eu mesmo.
Os métodos de pesquisa em Psicologia do Trabalho dão conta, de diversas maneiras, dessa possibilidade do trabalhador falar de si através do seu fazer, no seu fazer e com o seu fazer. Se já percorremos teoricamente e empiricamente a centralidade do trabalho para os profissionais que ora estudamos, não é surpresa que o ato laboral venha a ser uma das narrativas mais importantes para que o trabalhador fale de sua própria história. Da mesma forma, ao tomar um contorno de heterocondicionalidade, o trabalho também pode se converter em um casulo, uma cela, um castigo, de onde sua ação passa a ser esvaziada de sentido e,
com isso, a capacidade de se dizer desse trabalhador fique muda, como no mito de Sísifo (Σίσυφος), condenado ao trabalho inútil de levar uma pedra gigantesca ao cume de um monte, só para que ela rolasse para o início quando sua tarefa estivesse quase concluída.
Nessa etapa da pesquisa, busco dar voz mais uma vez a esses professores. Se em um primeiro momento (Seções 3.1.2 e 4.2), os entrevistados falavam livremente sobre suas tarefas, sem perceberem as implicações temporais e pessoais do que falavam, a retomada dessa fala agora, sob impacto da aplicação do questionário (Seções 3.2.1 e 4.3), busca antes de tudo um sentido sobre as implicações da organização temporal desses docentes. Como será visto a seguir, ser questionado sobre como divide seu tempo dentro do trabalho trouxe inúmeras reflexões para esses professores gestores.
Em função disso, a forma de organizar as entrevistas foi um problema à parte. A decisão de organizar por núcleo temático (obedecendo ao método escolhido) parecia, por vezes, deixar escapar algumas nuances dessas falas. A revelia disso, decidi me fiar no método de análise de dados que escolhi e apenas decidi acrescentar detalhes que poderiam deixar claro ao leitor as sutilezas e os pormenores que aparecem por trás das falas recortadas por núcleos temáticos (a relação entre as perguntas, os objetivos e as categorias de análise foi apresentada na Tabela 6). Com efeito, as análises vão seguir as categorias teóricas apresentadas anteriormente (discutidas no segundo capítulo e apresentadas de forma resumida na Tabela 7), e apenas nas considerações finais farei um arremate na tentativa de fiar todo o material frente aos objetivos já propostos (apresentados no terceiro capítulo e na Tabela 9).
Os entrevistados serão nomeados aqui assim como foram na Seção 4.2 (por números). Desta forma, os aqui retratados figurarão como a entrevistada 6 até o entrevistado 10.
4.4.1 Precarização e flexibilização
Ao serem questionados sobre como organizavam seu tempo de trabalho, quatro dos cinco entrevistados relataram que organizavam seu tempo semanal com a ajuda de um cronograma, o qual alocam as atividades por dia e horário. Segundo eles, isso facilita e otimiza seus trabalhos. Apenas um relatou que não tem programação prévia e que costuma trabalhar de acordo com o fluxo de trabalho que chega. Solicitei os cronogramas desses gestores e os quatro disponibilizaram. Uma característica comum a todos em seus planejamentos é a prioridade para atividades fixas como as aulas e reuniões, deixando espaços vagos para atendimentos de alunos e demandas que possam surgir ao longo da semana.
Apesar dos cursos terem uma divisão de horários diferentes entre si - alguns são diurnos, outros noturnos -, apenas um desses professores gestores, ao mostrar os seus cronogramas, não ocupa os três turnos de trabalho12 na semana, o que corrobora com os dados levantados na aplicação do questionário, apresentados na Tabela 24 e discutidos na seção anterior. Dessa forma, mesmo aqueles cursos que funcionam à noite, demandam uma atividade de gestão que se inicia pela manhã, e aqueles cursos que funcionam matutinamente acabam ocupando o gestor até a noite. Logo, percebemos que o horário de funcionamento do curso não é determinante (pelo menos em termos dos dados levantados por essa pesquisa) no turno de trabalho desses docentes, uma vez que eles ocupam os três turnos durante a semana.
A seguir, apresento alguns cronogramas13 desses professores e o quantitativo de atividades14 declaradas por cada um. Mesmo que esses dois dados sejam de períodos diferentes, existe um padrão de atividades segundo os próprios entrevistados:
12
Esse alegou que tem dificuldades em acordar cedo e costuma alocar suas aulas começando no fim da manhã. Entretanto, como dorme muito tarde, costuma trabalhar durante a madrugada. Desta forma, em termos de tempo efetivo dispensado ao trabalho, o que não é empregado pela manhã acaba sendo compensado na madrugada. Desta forma, seu tempo de trabalho total se equipara aos dos demais.
13
Nas tabelas de cronograma, foram suprimidas as informações que pudessem identificar os professores ou seus cursos. Esses cronogramas fazem referência ao período de 2019.1.
14
Tabela 29 – Quantitativo por atividade de cada entrevistado
Atividades ENT 6 ENT 7 ENT 8 ENT 9 ENT 10
Apresentações artísticas 0 0 0 0 0 Aulas na graduação 7 12 8 8 12 Aulas na pós-graduação 8 0 4 0 0 Bancas examinadoras 0,25 0,5 2,5 0 0,75 Cargo administrativo 20,5 10 8 1 8 Comissões científicas 0 0,5 0 4 0
Coordenação de projeto, ação ou evento de extensão 2 16 4 2 9
Coorientação de Doutorado 0 0 0 0 0
Coorientação de Mestrado 0 0 0 0 0
Correção de provas 0 2 2 4 2
Correção de trabalhos e artigos de alunos e orientandos 4 0 2 0 2
Desenvolvimento de Produto ou Processo 0 0 0 0 0
Desenvolvimento de Produto ou Processo Tecnológico 0 0 0 0 0 Desenvolvimento de Softwares no âmbito de projetos de
ensino, pesquisa ou extensão 0 0 1 0 0
EAD 0 0 0 0 0
Ensaios para produções e apresentações artísticas 0 0 0 0 2 Ministração de curso de extensão, palestras, conferências e
mesas redondas 0 0,5 0 0 0,5
Núcleo Docente Estruturante 1 1 4 0 1,25
Organização de Eventos 0 0,5 6 0 0
Orientação de bolsistas de programas institucionais 2 6 1 4 2
Orientação de Doutorado 0 0 0 0 0
Orientação de Especialização 0 0 0 0 0
Orientação de estágio supervisionado 0 0 4 1 0,75
Orientação de Mestrado 0 0 0,5 0 0
Orientação de Pós-doutorado 0 0 0 0 0
Orientação de TCC 4 12 4 0 2,25
Parecer ad hoc 0 0 0,5 0 0,5
Participação em comitê editorial 0,5 0,5 0 0 0
Participação em eventos 0 1 6 0 2,5
Preparação de aula 0 4 5 4 3
Produção de artigos, livros, de capítulo de livros ou artigos
em jornal 1,5 5 2,5 5 1,5
Produção de Relatório Técnico/Científico 0 0 1,25 0 8
Produção de textos para eventos 0,5 1 0 0 0
Produções artísticas e/ou culturais 0 0 0 0 0
Projeto de pesquisa 8 5 8 21 3
Representante em órgão e/ou comissão junto à sociedade
(comitês de planejamento, arte e cultura etc.) 0 0 0,5 0 0 Representante em órgão representativo de classe 0 0 0,5 0 0
Reuniões de conselhos 0 0,5 1 1,5 0
Reuniões de departamentos 0 0 0 0 0
Trabalhos Técnicos 0 0 0,5 0 0
TOTAL 60,75 83,5 77,75 56 62,25
Tabela 30 – Cronograma Entrevistada 6
SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA
08h30 às 12h Coordenação Atendimento Aula 08h às 11h Coordenação Atendimento Aula 08h às 12h Aula 08h às 12h 14h às 7h Coordenação Orientação de tcc e dissertação de mestrado Reunião de Colegiado ou conselho ou NDE Coordenação Coordenação Aula 13h30 às 17h30 18h às 20h Extensão 18h às 21h
Tabela 31 – Cronograma Entrevistada 715
Manhã Segunda Terça Quarta Quinta Sexta
8h às 12h Aula Aula Pesquisa Pesquisa Coordenação
Tarde
14h às 18h Orientação TCC e PID
Orientação
BIA e PREX Produção de artigo.
Produção de
artigo. Coordenação
A Entrevistada 6 apresentou um cronograma em que dedica dez horas e meia à coordenação no seu cronograma, mas, ao responder o questionário, apontou que dedicava vinte horas e meia à essa atividade. Já a Entrevistada 7 apresentou um planejamento em que oito horas são dedicadas à gestão, mas, ao responder o instrumento quantitativo, declarou dedicar-se dez horas ao cargo (como pode ser visto na Tabela 29). Isso possivelmente se deve ao fato de que o cronograma foi elaborado no início do semestre e a atividade de coordenação tem como característica ser flutuante, como a entrevistada frisou. Dessa forma, existe um hiato (nesse caso, grande) daquilo que era esperado e o que a realidade pede enquanto gestão. Esse pode ser um dos motivos da carga horária alta para esses docentes
15
que levantaram essa hipótese, quando perguntados o motivo de uma carga de trabalho tão alta.
Além disso, a Entrevistada 6 afirmou durante a entrevista que disponibiliza um tempo fora da universidade (incluindo algumas vezes a sua residência) para atender estudantes com demandas mais delicadas e que precisam de um espaço mais reservado para conversar sem as interrupções que o ambiente da universidade acaba ocasionando. Essa precariedade do ambiente de trabalho, associada a uma flutuabilidade própria dos horários da gestão (característica de atividades flexibilizadas), acaba demandando um tempo maior do que o previsto. Esse discurso é corroborado pelo Entrevistado 9, que afirma sempre atuar na gestão fora de horários programados por ele, em função de demandas urgentes. Ainda sobre a flexibilidade das demandas da gestão, os Entrevistados 8 e 10 afirmam:
[...] trabalhei muito por uma situação atípica [...] no entanto a preocupação é: sempre tem alguma coisa atípica (Entrevistado 10).
[...] qual a demanda da semana [...] o que eu tenho da coordenação? [...] o que eu tenho (das outras atividades)? uma coisa administrativa que eu consigo resolver mais rapidamente eu vou fazendo um check list, matei isso aqui hoje, né, o que deu para fazer, vou fazendo na ordem que aparecer [...] mas o que pesa, na verdade, é que você tem que fazer essa parte administrativa burocrática e dar aula, eu não sei você, mas eu zelo muito pelas aulas [...] aqui é só administrando a parte basilar que o curso tem que ter para funcionar, mas o essencial é a aula [...] é tentar economizar o máximo possível essa parte burocrática para liberar tempo para o planejamento para as minhas atividades de sala de aula (Entrevistado 8).
Esse fato se reflete nos seus cronogramas (Tabelas 32 e 33), uma vez que não vemos horários reservados para a gestão (a não ser no caso de reuniões). Ou seja, apesar de planejarem suas atividades semanais como fazem os Entrevistados 6 e 7, as atividades de gestão não são alocadas, possivelmente por não ter horários de demanda, aproximando de uma organização (nesse aspecto) do Entrevistado 9.
Tabela 32 – Cronograma Entrevistado 8
SEGUNDA TERÇA QUARTA QUINTA SEXTA