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2 O PAPEL DA TRADUÇÃO NA PROPAGAÇÃO DE

2.2 A OBRA TRADUZIDA DENTRO DO SISTEMA DE MECENATO

2.2.2 O Clube do Livro

Detalhar os aspectos e funções do Clube do Livro no Brasil tem como objetivo salientar a sua importância na difusão de obras traduzidas no cenário cultural brasileiro, entre leitores de várias classes sociais. A obra 1984 de George Orwell, objeto de estudo desta pesquisa, circulou, também, no mercado editorial através do Círculo do Livro, que substituiu o Clube do Livro em anos posteriores, entre 1973 e 1998. O Círculo desempenhou função similar à do Clube ao viabilizar o acesso aos leitores de poder econômico mais baixo às obras nacionais e estrangeiras, a um custo menor.

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O Clube do Livro17 foi fundado em 1943 por Mário Graciotti e inspirou-se no Book-of-the-Month Club, criado em Nova York em 1926, que tinha como objetivo publicar obras com uma linguagem bem accessível e que tratassem de assuntos interessantes para o gosto popular. No Brasil, a intenção foi, prioritariamente, tornar a leitura um hábito entre a classe média, ou classe média baixa. Monteiro Lobato influenciou de forma significativa na ampliação deste sistema de venda de livros, assim como estimulou a venda de livros em lojas e bancas de jornais. Para Lobato, cuja frase “um país se faz com homens e livros” (LOBATO, 1932), tornou-se célebre, a leitura deveria fazer parte da vida dos brasileiros e, portanto, barateá-la seria um meio de atingir este objetivo (MILTON, 2002).

O Clube se baseava em três princípios: “Texto limpo e anotado, preço barato, entrega em domicílio” (HALLEWELL, 1985). Os leitores se beneficiavam da facilidade de poder escolher os livros através de catálogos e, portanto, visando lucros maiores, várias editoras, principalmente as citadas anteriormente, disponibilizaram suas coleções para a venda através do Clube.

A contracapa dos livros do Clube trazia frases e adjetivos enaltecedores sobre as obras e os autores, no sentido de valorizá-las e torná-las mais atraentes. Além disso, as editoras tinham a preocupação de esclarecer para os leitores o significado de palavras mais eruditas ou de origem estrangeira, com notas de rodapé. Outro fato curioso é que havia o interesse não só de disseminar a leitura, mas também de instruir ou educar os leitores sobre hábitos de vida saudáveis. “a melhor forma de difundir esses hábitos seria através dos livros, então, por que não unir o esforço de difundir cultura e alimentação saudável por meio de notas de rodapé?” (MILTON, 2002, p. 46).

Deste modo, maus hábitos alimentares ou a ingestão de álcool que fizessem parte da vida dos autores ou dos personagens dos livros seriam “condenados” ou esclarecidos nas notas explicativas. Um exemplo foi a alusão às irmãs Brontë em uma nota de rodapé do livro O

Professor de Charlotte Bronté (1958), na qual se atribuía a morte

prematura das irmãs por tuberculose à falta de cuidados alimentares. A fundação do Clube também coincidiu com a época em que o francês deixou de ser a língua mais traduzida para dar lugar ao inglês. A segunda Guerra Mundial foi a responsável por essa mudança

53 temporária, pois o bloqueio naval inglês, em 1939, interrompeu o fornecimento de livros oriundos dos territórios controlados pelos nazistas. Assim, as importações de livros passaram a ser feitas dos Estados Unidos, o que resultou no aumento no número de publicações de traduções de língua inglesa no Brasil. Apesar de o quadro ter se revertido depois da guerra, esse período foi responsável por despertar o interesse dos brasileiros por coisas americanas, aliado à forte influência do cinema.

Embora o Clube do Livro tenha incluído vários clássicos da literatura estrangeira em seu catálogo, algumas dessas obras foram adaptadas para se tornarem viáveis para a venda a um custo baixo. Entre as estratégias de tradução e publicação estavam a condensação, a reciclagem e a encadernação em papel de baixa qualidade. A condensação se caracterizava por cortes feitos nos textos durante as traduções, a fim de reduzir o número de páginas. O Clube as denominava de “tradução especial”. Contudo, dependendo da editora, não havia uma menção na contracapa de que houvera uma redução do texto original. Um exemplo dado por John Milton foi o enunciado na página de rosto do livro Aventuras de Huck feito pela Ediouro: “as nossas edições reproduzem integralmente os textos originais” (grifos do autor), embora o texto tivesse sido “adaptado” do original de Mark Twain, por Herberto Sales (Idem, Ibid., p. 94). A reciclagem, por sua vez, constituía-se da modernização de outra tradução. Um exemplo foi a obra Ivanhoe de Walter Scott, publicada em 1943 pelas Edições Cultura e, em 1953 pelo Clube do Livro e cujas traduções são bem similares à lançada pela Editora Garnier, em 1905 (Ibid.).

Algumas das estratégias de marketing utilizadas pelas editoras eram dividir as obras em coleções para um público específico. Na década de 1950, a Companhia Editora Nacional dividiu as coleções de romances traduzidos para garotas (Biblioteca das moças) e para garotos (Terramarear), além de versões reduzidas de alguns livros, em revistas femininas, como foi o caso de Pride and prejudice (Orgulho e

Preconceito) em 1940, e Wuthering heights (Morro dos ventos uivantes)

em 1947. Na maior parte das vezes, livros como as obras traduzidas de

The adventures of Tom Sawyer (As aventuras de Tom Sawyer) em 1937, Moby Dick em 1935 e Gulliver´s travels (As viagens de Gulliver) em

1937 eram considerados livros para crianças. O interessante é que algumas destas obras, embora aparentemente direcionadas para um

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público infantil, foram censuradas pelo Estado Novo por conterem mensagens políticas implícitas em seu conteúdo, como será detalhado mais adiante.

Importante destacar que as edições condensadas por tradutores conhecidos, com capas mais luxuosas e mais bem ilustradas eram dirigidas a um público mais exigente, com maior poder aquisitivo. Ao passo que aquelas com encadernações simples, traduzidas por anônimos, eram acessíveis aos leitores da classe mais baixa. Desta forma, o Clube do Livro atendia às necessidades de um público variado.