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Estrutura Silábica e Fonotática em Squliq Atayal

6.6. Clusters Consonantais e o Schwa [ ] de Superfície

Inúmeras formas como [] e [] com clusters consonantais, apresentadas anteriormente, não foram discutidas de maneira explícita. Sequências de consoantes como essas são especialmente comuns no limite esquerdo das palavras. Baseando-nos em Rau 1992: 22-3 e Huang 2006: 11, assumimos que esses clusters são uniformemente desfeitos pela inserção de um schwa [] epentético (os colchetes angulados < > indicam que a consoante em questão é analisada como uma apêndice extrassilábico)57. A seleção de um candidato que apresenta a inserção de uma vogal epentética é demonstrada no tableau 45 abaixo, precedido da definição da restrição *APPENDIX (baseada em Sherer

1994 e Zec 2007) dada em (97): (97)

*APPENDIX: Atribua uma marca de violação para cada consoante analisada

como um apêndice extrassilábico.

57 Os fenômenos são mais complexos do que implicado por essa descrição sumária, mas um tratamento

exaustivo dos mesmos fugiria do escopo do presente estudo. Notamos apenas que a incidência destes

clusters consonantais próximo ao limite esquerdo da palavra prosódica resulta de um processo de redução

(apagamento?) vocálico induzido por um reposicionamento do acento primário, um efeito observado em conjunção com a sufixação. Assumimos que a hipótese da epêntese de [] aplica-se tanto aos casos de clusters não derivados, quanto ao caso daqueles que participam de alternâncias com vogais plenas.

Tableau 45.

// [..] “vermelho” *APPENDIX MAX-C DEP-V

(a) [<>.] W * L

(b) [.] W * L

(c) [..] *

No tableau 45 acima, a comparação entre a forma subótima em (a) com a forma ótima em (c) consiste na competição entre o candidato ótimo que apresenta a vogal epentética [] e um candidato que analisa a consoante inicial como um apêndice extrassilábico. A primeira razão pela qual a consideração desse candidato subótimo se faz necessária é porque a restrição *APPENDIX tem sido assumida por uma série de pesquisadores como sendo parte do conjunto CON (e.g. Sherer 1994; Zec 2007; também em McCarthy 2008 como *Cunsyll). A segunda razão reside no fato de que, caso tal restrição esteja presente

em todas as gramáticas, esperamos que ela esteja ativa precisamente em casos como o da sequência consonantal no input acima, sequências que, caso analisadas como parte de um ONSET complexo, implicariam na violação da generalização ou princípio de sequenciamento de sonoridade (Sonority Sequencing Generalization ou SSG). Como notado por Vaux & Wolfe 2009: 103, exceções aos perfis e contornos de sonoridade esperados são a motivação usual para a postulação de apêndices extrassilábicos. Como visto no tableau acima, o Atayal não tolera esse tipo de estrutura e opta pelo mapeamento não fiel: o par de candidatos em (b) mostra que a inserção de uma vogal epentética tem preferência sobre o apagamento da consoante, mostrando assim que MAX-C>>DEP-V.

Como mostramos no tableau 46, pode-se argumentar que algumas instâncias do [] epentético são motivadas não pela restrição que proíbe consoantes extrassilábicas, mas sim pela restrição *COMPLEXONSET que é violada por ataques complexos. Essa

diferença se baseia no fato de que algumas sequências consonantais presentes em inputs poderiam em princípio ser analisadas como ataques complexos que não violam a SSG:

Tableau 46.

// [] “bom” *COMPLEXONSET MAX-C DEP-V

(a) [] W * L

(b) [] W * L

(c) [.] *

Exemplos adicionais mostram que a distribuição dos schwas previsíveis leva à produção de sílabas do padrão “ideal” CV (dados de Rau 1992: 25-6):

(98)

(a) //  [..] ‘tudo, todos’ (b) //  [.] ‘você sabe’

(c) //  [..] ‘diarreia’

Uma importante implicação dos dados acima, em particular da ocorrência de [] entre uma consoante e um glide (98a-b), é que os casos de formação de glide, analisados anteriormente e concebidos como envolvendo o apagamento de moras de vogais em posição pré-vocálica, consistem aqui na criação de ataques complexos que por sua vez são desfeitos pela inserção do schwa (seguimos Green 2003: 239 e assumimos que, em uma perspectiva moraica da organização silábica, a noção de ataque corresponde à sequência de segmentos entre o limite esquerdo da sílaba, [ e o núcleo silábico):

(99)      

               

De modo mais geral, podemos afirmar que os exemplos em (98a-b) acima são evidência em favor da análise dos glides que compõe essas sequências de vocóides como ocupando uma posição de margem silábica e não, como poderia implicar uma análise alternativa, como parte de um núcleo complexo ou ramificado. Caso as sequências glide-vogal, como [], fossem consideradas parte de um núcleo ramificado, por exemplo, seria impossível explicar a ocorrência do schwa [] em (98a-b). O único caso

em que um vocóide de transição é inserido, em Atayal, entre um ataque silábico e um núcleo é no ambiente de transição entre a uvular // e a vogal anterior //, como em //  [] “feijão verde” (Li 1980: 234). Nesse caso, a inserção deste elemento relaciona-se não com restrições de estrutura silábica, mas, provavelmente, à necessidade de acomodação entre dois gestos articulatórios opostos, porém adjacentes: a articulação anterior de // e a articulação posterior de //.

O tableau 47 condensa o que parece ser uma generalização a respeito da fonologia do Atayal: embora a epêntese vocálica seja uma estratégia ótima para evitar onsets complexos ou apêndices extrassilábicos, a epêntese nunca é implementada como estratégia para se evitar violações de NOCODA:

Tableau 47.

// [..] ‘diarreia’ *APPENDIX *COMPLEXONSET DEP-V NOCODA

(a) [...] W*** L

(b) [.] W* L* *

(c) [<>] W* W* L *

(d) [..] ** *

A disjunção presente na linha (c) acima não é problemática para os argumentos de ranqueamento, uma vez que já apresentamos evidências independentes de que tanto *APPENDIX quanto *COMPLEXONSET dominam DEP-V (ver tableaux 44 e 45, e candidato

(b) no tableau 9).

Uma questão debatida na teoria fonológica recente diz respeito à natureza de “vogais intrusivas” como o schwa em Atayal (ver e.g. Levin 1987; Warner et al. 2001; Hall 2006). Uma alternativa consiste em tratar essas vogais como o resultado de mudanças na sincronização temporal ou acomodação entre gestos articulatórios independentes, ao invés de atribuir a sua existência aos efeitos de restrições de marcação sobre a estrutura silábica. Embora uma análise mais profunda e cuidadosa das vogais intrusivas em Atayal demande um estudo independente, podemos indicar ao

menos dois fatores que são, no mínimo, consistentes com a análise apresentada aqui dessas ocorrências de [] como vogais epentéticas fonológicas, ao invés de simples vocóides de transição:

(100)

(a) Não encontramos, seja em Rau (1992) ou em Huang (2006), afirmações de que essas vogais podem estar opcionalmente ausentes em função de alterações na velocidade de fala;

(b) por outro lado, a ausência dessas vogais produziria estruturas marcadas como ataques complexos ou apêndices extrassilábicos, de forma que a sua ocorrência pode ser vista plausivelmente como uma maneira de se evitar tais configurações

Os dois pontos acima são apresentados e discutidos por Hall 2006: 391 como dois ‘sintomas’ ou indicadores de vogais epentéticas fonológicas: vogais epentéticas, ao contrário de simples transições fonéticas entre consoantes, aparecem frequentemente como estratégias de reparo para evitar estruturas marcadas. Como argumentamos acima, mapeamentos não fiéis de inputs e outputs em que tais vogais aparecem no que seriam loci de violações de restrições de marcação são mais harmônicos do que mapeamentos fiéis em que essas vogais não estão presentes. Como notado também em (100a), não há evidência de que a presença dessas vogais seja função da velocidade de fala o que, novamente de acordo com Hall 2006, parece indicar o status fonológico dessas vogais epentéticas.