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3.2 Espécies potencias para recuperação de áreas da caatinga

3.2.3 Cnidoscolus quercifolius Pohl. (Faveleira)

Cnidoscolus quercifolius, popularmente conhecida como faveleira. Essa espécie é xerófila e pertencente à família Euphorbiaceae (MEDEIROS 2013). A faveleira se apresenta em todo o semiárido brasileiro, em regiões de caatinga que envolve áreas dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, sudoeste do Piauí e partes do interior da Bahia e do norte de Minas Gerais. Exclusivamente no Estado do Rio Grande do Norte, é uma das plantas

21 predominantes da caatinga da microrregião do Seridó Oriental, que engloba municípios de Acari, Cruzeta, Currais Novos, Jardim do Seridó e São José do Seridó e do município de Serra Negra do Norte (SANTANA 2006).

A faveleira é uma espécie de disposição arbórea que pode atingir de 3 até 5 metros de altura e se apresenta com ou sem espinhos. A existência desses espinhos cria um mecanismo de defesa bastante eficiente e sua picada causa sensação bastante desagradável àqueles os quais são picados. Os exemplares sem espinhos são encontrados, porém com uma menor taxa do que aquelas variedades com espinho (DUQUE 2004).

Nas raízes estão as reservas energéticas produzidas durante o período de chuva para manutenção do vegetal durante a seca (COSTA 2009). As raízes da Cnidoscolus quercifolius atingem grandes profundidades, o que facilita a captação de água das poucas chuvas que ocorrem na região. Sendo assim, a faveleira tem grande potencial para o reflorestamento sustentável do semiárido.

Estudos realizados com a faveleira demonstraram que a espécie é bastante importante para o desenvolvimento da região semiárida, uma vez que é uma espécie largamente encontrada, que está adaptada as condições extremas da região e que pode ser empregada de diversas formas. Em se tratando das suas formas de aplicação, a faveleira é utilizada na alimentação animal e humana, recuperação de áreas degradadas, uso medicinal e serraria (ARIEL 2004).

Figura 7. Cnidoscolus quercifolius. Fonte: http://floraufersa.blogspot.com/2014/01/faveleira.html

22 3.2.4 Caesalpinia Ferrea Mart (Pau Ferro)

Pertencente à família das leguminosas, Caesalpinia ferrea Mart. ex Tul., popularmente chamada de pau-ferro ou jucá, é uma planta com altura variando entre 10- 15m, com distribuição em toda a região nordestina até o estado do Rio de Janeiro, na floresta atlântica. É uma espécie economicamente fundamental por ter multiplicidade de usos: as folhas servem para forragem; a madeira muito pesada empregada na construção de pequenos itens de madeira e nas áreas rurais, na produção de mourões, devido à alta qualidade e resistência ao intemperismo, podendo ser aproveitada em projetos de reflorestamento. (LORENZI 1998) .

A propagação acontece principalmente através de sementes as quais possuem problemas de dormência tegumentar. A redução das atividades fisiológicas integradas no processo de dormência de sementes está comumente atribuída com o desenvolvimento dos tecidos protetores externos o que ocasiona a hidratação do citoplasma (LORENZI 1998). Embora a dormência confira resistência às situações adversas tornando, assim mais capaz de perpetuação da espécie, pode refletir um problema considerável na sua propagação em meios não naturais, acarretando atraso, desuniformidade ou falhas de emergência das plântulas no campo durante atividades de reflorestamento, atém de colaborar para avaliação incorreta da qualidade fisiológica de sementes em laboratório, e causar perdas aos programas de melhoramento genético (MARCOS FILHO 1999).

23 Figura 8. Caesalpinia ferrea Mart

.Fonte:http://powo.science.kew.org/taxon/urn:lsid:ipni.org:names:77100755-1

3.2.5 Amburana cearensis (Allemao (Cumaru)

Espécie da família Fabaceae habitualmente conhecida por cumaru, amburana, amburana-de-cheiro. Essa planta apresenta alturas entre 6 a 8m e copa achatada, curta, casca com cor vermelho-pardacenta, folhas compostas alternas, floração irregular, hermafroditismo e polinização efetuada principalmente por abelhas (CARVALHO 1994, MAIA 2004). Essa espécie está distribuída principalmente na Caatinga e em uma região que engloba a Argentina, os Estados Plurinacionais da Bolívia, o Brasil, o Paraguai e o Peru. Está presente na lista da IUCN desde 1998 como espécie em perigo de extinção classificada por causa da redução de seu território natural em pelo menos 50% nos últimos 10 anos (IUCN, 2017). Além do valor intrínseco, A. cearensis tem ampla utilidade, pois possui características aromáticas em sua casca, madeira e frutos, o que causa sua valorização econômica na construção de barris para envelhecimento de cachaça e produtos de beleza, também é usada para fabricação de móveis, uso ornamental e medicinal, fato que reforça a perda ecológica e econômica que está ocorrendo no semiárido (GATÃO et al. 2011, DRUMOND et al. 2016).

24 Figura 9. Amburana cearenses. Fonte: http://tyba.com.br/br/registro/cd242_067.JPG/-Assunto-Arvore- Umburana-Amburana-cearensis-no-sertao-de-pernambuco--Local-Petrolina---Pernambuco-PE---Brasil--Data-062012-

3.2.6 Aspidosperma pyrifolium Mart. & Zucc. (pereiro).

A Aspidosperma pyrifolium é uma espécie da família Apocynaceae. É uma espécie lactescente, de altura bastante instável, conforme a região de ocorrência, podendo aparecer tanto na forma arbustiva em algumas regiões da caatinga mais secas, até uma árvore de 7-8 m em regiões mais úmidas da caatinga. Em algumas áreas mais secas, aparece com a copa larga de ramos baixos, próximo ao solo. Sua distribuição ocorre nos Estados do Nordeste até a Bahia; no norte de Minas Gerais, na caatinga; e no Pantanal Matogrossense, nas áreas de chaco (LORENZI 1998).

Madeira moderadamente pesada, macia e fácil de trabalhar, textura fina e uniforme, resistente e muito durável.

A madeira é usada na confecção de móveis. É também utilizada na fabricação de tacos e lambris. A pequena dimensão, tanto em altura quanto em diâmetro limita seu uso na construção civil. A espécie, pelo pequeno porte e pela beleza de sua copa piramidal, pode ser empregada no paisagismo em geral, inclusive na arborização urbana (LORENZI 1998).

25 Figura 10. Aspidosperma pyrifolium Mart. & Zucc. Fonte:

https://appverde.wordpress.com/2015/09/29/pereiro-aspidosperma-pyrifolium/

3.3 Produção de mudas florestais

3.3.1 Recipiente

A tecnologia usada pra produzir os primeiros recipientes para mudas no Brasil foram os recipientes laminados de madeira e o torrão paulista, sendo estes gradativamente substituídos pelos sacos de polietileno (JOSÉ 2003). O mesmo autor citando Tinus & Owston (1984) e Faria (1987), descreve que a produção em sacos plásticos apresenta inúmeros inconvenientes, como enovelamento das raízes, o que afeta diretamente na qualidade das mudas.

Mudas que se desenvolvem em recipientes adequados, impedindo a deformação do sistema radicular tais como estrangulamento e enovelamento, conseguem exibir bom desenvolvimento, quando plantadas em sítios adversos (BRISSET et al. 1991).

A utilização de tubetes retrata uma evolução nos viveiros florestais no mundo, pois admitiu a produção de mudas em ambientes mais controlados e menores custos totais para produção das mudas, o que garantiu o fornecimento de mudas para o

26 plantio durante todo o ano, em locais onde o inverno é mais rigoroso (OWSTON 1990).

Os tubetes habitualmente usados para a produção de mudas de espécies florestais, segundo Tinus & Owston (1984), variam de 65 a 165 cm3 de volume. Já no Brasil, o de volume mais utilizado está entre 50-55 cm3, usados para produzir Eucalyptus e Pinus.

27 4 MATERIAIS E MÉTODOS

O experimento foi realizado em uma área degradada localizada no assentamento Trangola, no município de Currais Novos (Figura 12), região Seridó do Rio Grande do Norte, coordenadas 6° 9’12.17”S e 36°33’0.98”O. Segundo a classificação de Köppen o clima da região é BSh, clima quente de baixa latitude e altitude, com temperatura média anual de 25.9°C e média anual de pluviosidade do primeiro ano após o plantio das mudas em campo pode ser visto na figura 11, a qual mostra a precipitação mensal do primeiro ano de instalação coletadas por estação meteorológica Vantage Pro2.

Figura 11. Dados de pluviosidade de abril de 2017 a abril de 2018 obtidos por estação meteorológica Vantage Pro2 instalada no local do experimento.

Figura 12 Mapa do Rio Grande do Norte com destaque da localização do município de Currais Novos

28 As mudas foram produzidas no viveiro florestal da Escola Agrícola de Jundiaí-EAJ, onde permaneceram por 60 dias, sendo 45 dias sob sombrite e irrigação diária e nos 15 dias finais foi realizado o processo de rustificação, em que as mudas foram expostas a pleno sol, além de receber irrigação em dias alternados. O substrato utilizado foi areia peneirada e esterco bovino, na proporção 2:1.

Foram utilizados dois tipos de recipientes para produção das mudas, saco de polietileno para mudas, com volume de 2300 cm³ e cilindros de bambu, com volume aproximado de 630 cm³, os quais apresentavam dimensões de 50 cm de comprimento e diâmetro da parte oca do bambu com cerca de 4 cm, além disso foram feitos furos laterais com auxílio de uma furadeira, com intuito de auxiliar o desenvolvimento das raízes pós-plantio (Figura 13).

Figura 13. Produção das mudas nos recipientes de bambu no viveiro florestal da Escola Agrícola de Jundiai – EAJ.

Foram utilizadas seis espécies nativas sendo três pioneiras (P), Erythrina velutina Wilid. (mulungu), Enterolobium contortisiliquum (Vell.) (tamboril), e Cnidoscolus quercifolius Pohl. (favela), e três não pioneiras (NP) Caesalpinia Ferrea Mart (pau ferro, jucá), Amburana cearensis (Allemao) A.C.Sm (cumarú) e Aspidosperma pyrifolium Mart. & Zucc. (pereiro). Num total de 20 indivíduos por espécie, sendo 10 para o tratamento em saco e 10 para o tratamento em bambu, totalizando 120 indivíduos no projeto (Figura 14).

29 Figura 14 Mudas produzidas em saco e bambu antes da implantação no campo.

As mudas foram distribuídas de em campo de forma que as espécies do grupo das NP ficassem rodeadas pelas P com espaçamento entre as covas de 3 x 2m. as covas tiveram tamanho de 10 cm de diâmetro e a profundidade variou conforme o tipo de recipiente, sendo 30 cm para o saco e 50 cm para o bambu e não houve nenhum tipo de adubação pós-plantio. Entretanto foi utilizado hidrogel hidratado na cova de plantio em todos os indivíduos (Figura 15).

Figura 15. Marcação do espaçamento entre os indivíduos e produção do hidrogel, respectivamente.

Após irem para campo, as mudas não foram irrigadas. Todos os indivíduos foram identificadas (Figura 16) e mensurados nas variáveis altura (H) com fita métrica e diâmetro na base (DNB) com paquímetro e taxa de sobrevivência. A primeira mensuração ocorreu logo após a implantação do projeto, abril/2017, a segunda:

abril/2018 e a terceira: agosto/2018. Os dados foram tabulados e processados no programa Excel.

30 Figura 16. Identificação das mudas após o plantio em campo.

31 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

De abril de 2017 a agosto de 2018, observou-se 93% de sobrevivência para as espécies P produzidas em sacos, 20% para as P produzidas em bambu, 67% para as NP produzidas em sacos e 30% para as NP produzidas em bambu (Figura 17).

Esses resultados demonstraram que o recipiente de bambu foi ineficiente em relação a taxa de sobrevivência das mudas tanto para o grupo das P, quanto para as NP, quando comparados ao tratamento com saco. Esses resultados estão relacionados a restrição ao desenvolvimento radicular que o recipiente de bambu proporcionou, essa restrição foi observada mesmo durante a fase de produção das mudas em viveiro florestal, visto que no primeiro mês de implantação, abril de 2017, as espécies que foram produzidas em bambu já apresentavam tanto H quanto DNB menores do que as produzidas em sacos.

Em relação ao grupo produzidas em sacos, a taxa de sobrevivência foi semelhante as observadas por K.D.R Lima et al. (2015), os quais observaram média na taxa de sobrevivência de 80% nas espécies em uma área degradada por mineração no bioma Catingaa após dois anos de implantação.

Vale ressaltar, que conforme frisaram Cromberg e Bovi (1992) a partir de seus estudos, a mortalidade em campo é sempre possível quando o reflorestamento ainda não passou pela fase crítica, ou seja, dois anos após o plantio, pois nessa fase o indivíduo necessita de maior quantidade de nutrientes e água. Dessa forma, o presente estudo ainda não passou por essa fase, o que pode provocar variações nas taxas de sobrevivência. Outras variáveis ambientais também podem influenciar de forma significativa o comportamento das mudas em campo, como a fertilidade do solo, a compactação e principalmente a disponibilidade hídrica (MOURA 2008), sendo essas duas últimas muito presentes na área de implantação do projeto.

32 Figura 17. Taxa de sobrevivência dos dois grupos sucessionais produzidos nos diferentes

recipientes.

Ao se analisar o desenvolvimento inicial das espécies P e NP, demonstrado nas Figuras 18 e 19, relacionadas as médias de H e DNB, durante o período analisado, pode-se observar que os melhores resultados foram das espécies pioneiras, tanto no tratamento de saco quanto de bambu. Lorenzi (2002) e Drumond e Carvalho Filho (2005) classificaram o Mulungu, Faveleira e Tamboril, grupo P, como espécies de rápido crescimento, este rápido crescimento deve-se principalmente a capacidade dessas espécies em armazenar água em seus tecidos (caule e raízes), investindo seus recursos em paredes celulares mais finas e consequentemente numa maior área celular para armazenar água (BORCHERT e RIVERA 2001), o que acaba proporcionando uma maior rusticidade as baixas precipitações presentes no bioma, o que as torna essenciais inicialmente em programas de recuperação florestal .

Gonçalves et al. (2005) e Couto (2014), também encontraram melhor desenvolvimento inicial para as P do que para as NP. Segundo Budowski (1965), esta diferença ocorre devido as espécies NP necessitarem de um ambiente mais estável para seu estabelecimento e crescimento, pois seu sistema fisiológico e anatômico, como tamanho de folhas e sistemas de reserva de água e nutrientes não são adaptados para ambientes antropizados.

Esses resultados iniciais favoráveis às espécies P demonstram sua importância ecológica nos programas de restauração florestal, pois seu rápido

0

Pioneiras (SACO) Pioneioras (BAMBU) Não Pioneiras (SACO) Não Pioneiras (BAMBU)

33 crescimento auxilia na formação de uma cobertura orgânica, no sombreamento da área e formação de banco de sementes no solo (Gonçalves et al. 2005).

Ainda em relação ao desenvolvimento em H (Figura 18), observa-se que as P e as NP do tratamento em saco apresentaram uma queda dos seus tamanhos de abril/2018 para agosto/2018, esses resultados ocorreram por causa de herbívora, constatada na época de mensuração dos dados. Situação constatada por Almeida Cortez (2005), o qual também relaciona essa diminuição na altura por quebras acidentais do sistema apical por ventos, chuvas ou animais.

Figura 18. Médias das alturas (H) das espécies pioneiras (P) e não pioneiras (NP) nos tratamentos em saco e bambu.

Na avalição do desenvolvimento de ambos os grupos produzidos no recipiente de bambu, contatou-se que esse recipiente foi determinante para que tanto a H, quanto o DNB ficassem bem abaixo da média do tratamento com sacos. Apesar do bambu não apresentar deformações em sua estrutura durante a fase de viveiro, problemática frequente nos recipientes biodegradáveis, conforme retratado por De Conti et al. (2012), em seu estudo, o qual confeccionou recipientes à base de fibra de coco e bagaço de cana, não obtiveram resultados favoráveis desses materiais para

0,0 H Não Pioneiras (SACO) H Não Pioneiras (BAMBU)

34 esse fim, tendo esse material perdido sua capacidade estrutural após 45 dias do semeio. Toda via, o tempo de permanecia no viveiro florestal, não foi capaz de diminuir da alta resistência mecânica do bambu, sendo determinante para que as espécies nele produzidas tivesse menor capacidade de desenvolvimento radicular e consequentemente acabasse refletindo nas variáveis H e DNB como apresentado nas figuras 18 e 19. Característica semelhante ao que ocorre com plantas submetidas a solos compactados, conforme exposto por Theodorou et al (1991), Rab (1996) e Gava (2005).

O diâmetro da base da planta é um indicativo de crescimento inicial muito relevante para estimar a qualidade da muda (VIEIRA et al. 2006). Pois a partir dessa variável, é possível relacionar H e DNB da muda o que reflete o seu vigor, parâmetro esse que ao superar o valor de 10, reflete-se em mudas de ótima qualidade, ou seja, refletirá em melhores desenvolvimentos e menor mortalidade das mudas em campo (Rossa et al. 2013)

Figura 19. Médias dos diâmetros na base (DNB) das espécies pioneiras (P) e não pioneiras (NP) nos tratamentos em saco e bambu. DNB Não Pioneiras (SACO) DNB Não Pioneiras (BAMBU)

35 6 CONCLUSÃO

Conclui-se que as espécies do grupo sucessional das pioneiras apresentaram maior taxa de crescimento tanto para a H quanto para DNB nos dois recipientes estudados. Entretanto as mudas produzidas no recipiente de saco apresentaram melhores resultados em comparação ao bambu, nos dois grupos funcionais.

Esses resultados favoráveis ao tratamento em saco também foram visíveis em relação a sobrevivência das mudas, as quais obtiveram maiores taxas para esses tratamentos.

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