As coberturas culturais praticadas pelo jornalismo impresso baiano não fogem à regra daquelas realizadas pela imprensa brasileira e, em muitos momentos, identificam- se aos jornais estrangeiros, notadamente os modelos europeus e norte-americanos, que serviram de exemplos à imprensa de massa contemporânea.
José Geraldo Couto (1996: 129) enfatiza, entretanto, o maior espaço concedido pela imprensa brasileira à temática cultural que, diferentemente da maioria dos jornais estrangeiros, publica cadernos diários de artes e espetáculos. Os jornais europeus e norte-americanos veiculam a maioria das notícias culturais em páginas diárias, que são ampliadas apenas uma vez por semana, em edições especificamente culturais —cader- nos e/ou suplementos próprios 99.
Nesta diferenciação está implícita a condição cotidiana dos cadernos que, neces- sariamente, subordinam-se às condições gerais de produção da notícia. Assim, podemos melhor apreender o contexto e os mecanismos de cobertura utilizados por eles. Integrar o corpo do jornal diário significa submeter-se às mesmas regras que norteiam a sua pro- dução industrial e à própria produção dos noticiários do dia a dia.
Vimos aqui até que ponto estas rotinas determinam algumas características dos cadernos e como estes se situam enquanto veículos híbridos quanto à apresentação, es-
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tratégias e linha editorial, aspectos que efetivamente não podem estar desvinculados das metas do jornal em relação ao acompanhamento dos acontecimentos pautados, aos pú- blicos e à publicidade.
A Predominância das Notas
Em toda a imprensa baiana, as estratégias de cobertura dos assuntos culturais, especificamente em relação ao espetáculo teatral são, na maioria dos casos, planejadas a partir da iniciativa das fontes interessadas na visibilidade dos acontecimentos — sejam assessorias de imprensa, organismos públicos e privados, casas de espetáculo, o próprio produtor cultural, os criadores envolvidos entre outras. A contribuição das informações produzidas por essas fontes — independente de possuírem ou não a forma do press-re-
lease — torna-se a cada dia um componente mais forte — dir-se-ia mesmo indispensá-
vel — das estratégias utilizadas para a cobertura cultural.
No caso específico da cobertura teatral, esta circunstância é evidente nos depoi- mentos dos editores.
Correio da Bahia
A maior parte do nosso trabalho é calçada nas informações de assessorias e dos próprios artistas. Outras vezes, ficamos sabendo pelas ruas, com boca-a- boca, rádios, tevês, outdoors, mas é bem mais raro. Todos já aprenderam a mandar seus e-mails e faxes para a redação. Outros ligam perguntando como fazem, e nós explicamos o procedimento. Chegam a perguntar se é pago, o que, confesso, me deixa irritada, talvez por excesso de zelo. (Larangeira, 2001).
A Tarde
Há orientação de busca, de não-limitação ao que chega às redações, via as- sessorias ou não. Mas a realidade é que o volume que chega via assessorias é tão grande, que a gente mal tem tempo de gerenciá-lo. O contingente de pro- fissionais formados pelas instituições de ensino, principalmente, pela UFBA, é tão superior ao das redações, que está provocando uma (absolutamente maléfica) acomodação dos repórteres. (Varjão, 2001).
Em média, 80 releases chegam diariamente às redações e o aproveitamento deste material é quase total, segundo as editoras dos cadernos de A Tarde e Correio da Bahia. Os telefonemas são tantos que, na redação do Folha da Bahia, “há uma produtora en- carregada de filtrá-los, caso contrário não conseguiríamos trabalhar” (Larangeira, 2001).
Além dos press-releases, que trazem informações sobre os eventos e sugerem pautas para a cobertura jornalística, há ainda telefonemas, faxes, e-mails que abordam as redações, praticamente dão conta, num primeiro momento, da cobertura dos aconteci-
mentos culturais, sem que o repórter saia a campo e, em certos casos, a cobertura pode até ser feita na própria redação. O envio de material informativo aos jornais cresce com o aumento e a diversificação dos produtos culturais no mercado e a sua necessária visi- bilidade para o consumo.
Por outro lado, verifica-se um acentuado crescimento das assessorias como cam- po de trabalho dos jornalistas e a urgência da profissionalização da atividade de divul- gação jornalística. O crescimento das assessorias vem acontecendo em todo o país e no mercado baiano, segundo pesquisa de Rubim e Mariano (2001:109), “é o vínculo em- pregatício mais recorrente, além do trabalho no jornal ou na televisão”, seguido pelos trabalhos ocasionais em comunicação, como free-lancer, muitos dos quais eventual- mente ligados à prática de divulgação cultural.
Nos dois modelos de cobertura pesquisados verifica-se a grande participação e a assimilação destas informações nas estratégias de cobertura, que terminam por deter- minar as suas características. Trata-se de um procedimento geral adotado, independente da estrutura e do funcionamento das editorias e de suas condições materiais.
Assim, podemos afirmar, como resultante desta sistemática, que no jornalismo cultural diário baiano, as notas constituem sua principal característica, mesmo havendo o aproveitamento dos press-releases como sugestão de pautas para matérias posteriores, traduzidas nas reportagens, notícias e entrevistas utilizadas em menor escala, nesta ordem. São responsáveis pela incidência de notas: as informações estarem disponíveis nas redações; a seleção e o aproveitamento imediato de muitas destas informações para diversos usos, antes mesmo de se transformarem em sugestão de pautas; o interesse em atender à maioria das demandas, expresso pelas própria editoras dos dois cadernos, e finalmente, o fato de se tratar de um caderno também voltado para as informações do dia a dia, para a possibilidade do furo, da concorrência.
A utilização de resenhas também se destaca nos dois jornais baianos que publi- cam cadernos culturais diários, superando, em A Tarde, o número de reportagens. Se- gundo Suzana Varjão (2001) “...se fosse possível, mandaria que [os jornalistas] assis- tissem a todos [os espetáculos]. Não o é. Assim, ficam os critérios subjetivos, tipo di- retor consagrado, atriz conhecida etc.”. No Correio da Bahia, em relação às resenhas sobre shows, levam-se em conta “...os números envolvidos (quantidade de gente ou sucesso em vendas de discos, etc.). Em teatro e dança, os mesmos critérios que nos le- vam a ampliar ou dar mais destaque a uma matéria” (Larangeira, 2001).