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2 Final dos Anos

Anúncio 13 Cobra_012 Junho de 1979 /

Página Simples/ Produto/ Texto (parte de baixo) + Imagem / Colorido: Azul / Descrição: Gaúcho, Pasto, (Boleadeira,

Bombacha)/

Título: Alto da página / Logotipo: ID.

Anúncio 13 - Cobra_012 Junho de 1979 / Página Simples /

Produto / Texto (parte de baixo) + Imagem / Colorido: Amarelo, Laranja/ Descrição:

Sanfoneiro, Sanfona,Violeiro, Árvores Típicas, (Sanfona, Zabumba) Título: Alto da

página / Logotipo: ID Anúncio 14 - Cobra_010

Maio de 1979 /

Página Simples/ Produto/ Texto (parte de baixo) + Imagem / Colorido: Verde / Descrição: Violeiros, viola, jatobá, Cigarro

de Palha (Tutu, Torresmo)/ Título: Alto da página / Logotipo: ID.

Os textos que acompanhavam cada um dos anúncios sofreram poucas mudanças em relação ao texto base da campanha (COBRA_008): a premissa continuava a mesma, apenas foram incluídos mais detalhes linguísticos e visuais para reforçar as diferenças e a diversidade regional do país.

Como é possível notar, além de elementos e objetos comuns a cada uma das regiões, os anúncios são ainda diferenciados quanto às cores que os emolduram. As cores nacionais são representadas em tons cítricos e luminosos, característica comum às tonalidades chamadas fluorescentes que simulavam as cores das telas de computador, luzes de neon, raios laser, radiação e que fizeram parte do imaginário pictórico nos anos 1980.144 Além disso, as diferenças entre as regiões do Brasil são valorizadas e ressaltadas pelo uso de estereótipos imagéticos e enunciativos das identidades regionais do país.

Cabe ressaltar que as noções mesmas de região e identidade regional são construções discursivas e culturais criadas a partir disputas históricas e de processos de legitimação, representação de forças e negociações locais e que se relacionam com a ideia de nação. No livro A Invenção do Nordeste e outras artes, o historiador das identidades regionais e da cultura Durval Muniz de Albuquerque Júnior descreve a região como algo que remete a uma visão estratégica do espaço,

ao seu esquadrinhamento, ao seu recorte e à sua análise, que produz saber. Ela [a região] é uma noção que nos envia a um espaço sob domínio, comandado. Ela remete, em última instância, a regio (rei). Ela nos põe diante de uma política de saber, de um recorte espacial das relações de poder. (...) Historicamente, as regiões podem ser pensadas como a emergência de diferenças internas à nação, no tocante ao exercício do poder, como recortes espaciais que surgem dos enfrentamentos que se dão entre os diferentes grupos sociais, no interior da nação. A regionalização das relações de poder pode vir acompanhada de outros processos de regionalização, como o de produção, o das relações de trabalho e o das práticas culturais, mas estas

144 Amarelo fluorescente, verde-limão, pink e o laranja florescente foram algumas das tonalidades sintéticas que se tornaram parte da cultura visual do final dos anos 1970 e no decorrer dos anos 1980. Esse tema será trabalhado no próximo capítulo.

não determinam sua emergência. A região é produto de uma batalha, é uma segmentação surgida no espaço dos litigantes. As regiões são aproveitamentos estratégicos diferenciados do espaço. Na luta pela posse do espaço ele se fraciona, se divide em quinhões diferentes para os diversos vencedores e vencidos; assim, a região é o botim de uma guerra. (1999, pp. 25-26)

Convém ainda relembrar que, durante a ditadura, o regionalismo foi adotado enquanto base norteadora de políticas culturais, de desenvolvimento e de integração nacional, sendo essa uma das principais bandeiras daquele regime. O Programa de Integração Nacional foi lançado em 16 de junho de 1970 como Decreto-Lei 1.106 e previa

dotação de recursos no valor de Cr$ 2.000.000.000,00 (dois bilhões de cruzeiros), a serem constituídos nos exercícios financeiros de 1971 a 1974, inclusive com a finalidade específica de financiar o plano de obras de infraestrutura, nas regiões compreendidas nas áreas de atuação da SUDENE e da SUDAM e promover sua mais rápida integração à economia nacional. (Decreto-Lei 1.106)145

Assim, nos anúncios COBRA_008, COBRA_009, COBRA_010, COBRA_011 e COBRA_012, as regiões e suas diferenças são mostradas como elementos aglutinantes da própria identidade nacional. Nas peças publicitárias, o computador aparece como o elemento constitutivo da paisagem local e da cultura de cada uma das regiões, ao mesmo tempo em que seria capaz de integrar o norte ao sul do país independentemente da distância e da cultura local.

Por fim, é possível notar uma mudança no ponto de vista da própria Cobra, pois, ao contrário do primeiro anúncio da empresa (COBRA_001), de 1977, que mostrava os computadores como algo que não era genuinamente brasileiro, mas que estavam sendo adaptados às nossas necessidades, na campanha de 1979 a empresa apresentou os computadores incorporados aos costumes e gostos locais. Em menos de dois anos, o computador

145 Cf. Site do Governo Federal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-

brasileiro deixava de ser mostrado como um equipamento estranho ao Brasil e passava a ser representado como um componente das culturas tradicionais e das paisagens regionais brasileiras e, mais do que isso, como um objeto de integração nacional.

Essa integração do país por meio da tecnologia foi captada com muita sensibilidade pelo cineasta Cacá Diegues no filme Bye Bye Brasil, lançado em 1979. Em linhas gerais, Bye Bye Brasil é um road movie146 que conta a

história da Caravana Rolidei,uma trupe mambembe que realiza shows pelas cidades do sertão nordestino. Com a chegada da televisão nessa região, a Caravana começa a perder seu público e parte em busca de novos espectadores e melhores condições de trabalho cruzando a recém-construída Transamazônica, um dos símbolos do programa de Integração Nacional do governo Militar.

Nesse percurso, enfrentam uma série de dificuldades que culmina com a chegada da Caravana em Altamira (PA) e a separação da trupe. Trata-se, portanto, de uma alegoria da condição da população da região nordeste que, por conta da seca, é forçada a migrar para as diversas regiões do país em busca de melhores condições de vida. Infelizmente, muitas vezes o resultado dessa busca era (e continua sendo até hoje) uma condição igual ou pior do que aquela de que haviam fugido.

A última cena do filme se passa algum tempo depois da dissolução da trupe e mostra o reencontro dos três personagens principais, Lorde Cigano, Salomé e Ciço. A cena começa com Ciço, que se tornou uma celebridade, se apresentando sob a alcunha de Sanfoneiro do Planalto. Ele usa em trajes futuristas e está rodeado por aparelhos de televisão. Como se percebe, em certo sentido, a imagem dessa cena, reproduzida abaixo, remete aos anúncios da Cobra que trazem a figura do sanfoneiro acompanhado do monitor de computador.

146 Gênero cinematográfico no qual a história se desenvolve no decorrer de uma viagem dos personagens.

Em meio à apresentação, Ciço escuta um burburinho vindo da rua. Como na primeira cena do filme, trata-se da Caravana Rolidey, que reaparece com nova grafia e em nova roupagem. A velha caminhonete com desenhos pintados à mão foi substituída por um veículo novo com luzes de neon e moderno equipamento sonoro. Lorde Cigano veste uma roupa prateada de mágico e Salomé usa cabelo permanente com luzes pisca-pisca sobre a cabeça. Eles explicam que Salomé teve que se prostituir por um tempo e que Lorde Cigano ganhou muito dinheiro no contrabando de minérios. Eles foram buscar Ciço, pois pretendem ir para Rondônia: "Vamos fazer show para índios, eles nunca viram nada parecido", diz Salomé. Ao que Lorde Cigano completa: "Civilização”. Ciço se nega a seguir com a trupe e, antes da despedida final, Lorde Cigano aponta para a nova Caravana Rolidey e eles travam o seguinte diálogo:

Lorde Cigano: -Tu viu a novidade? Ciço:

Imagem 8 - Cena do Filme Bye BYe Brasil. O Sanfoneiro Ciço se apresenta rodeado de monitores de aparelhos de televisão.

-É! bonito as luzes. Lorde Cigano:

-Não rapaz, o ipisilone, no fim. Eu encontrei um gringo em Belém que me ensinou que Rolidei, tem ipisilone. Porra, como a gente era ignorante, heim, cara? [risadas]

Na época de lançamento, o filme foi entendido como uma crítica ao processo de "americanização"; no entanto, mais do que uma crítica à americanização, o filme surgiu de uma angústia por parte do diretor Cacá Diegues despertada enquanto ele grava um filme em 1972 no interior de Alagoas. Relata ele:

Vi na praça de União dos Palmares (AL) uma luz azul, parecia um disco voador ali parado, uma coisa realmente impressionante. E quando eu cheguei perto era uma televisão, porque naquela época os prefeitos em vez de fazerem ponte compravam televisão e botavam na praça pública [...] E vendo aquele programa estavam cortadores de cana, boiadeiros, tratador de gado, pequenos funcionários da cidade. E daí quando vi aquilo pensei: cara, tem alguma coisa importante acontecendo no Brasil. Uma espécie de modificação cultural muito profunda. (DIEGUES, 2010)

Tal modificação afetava, com efeito, os costumes, a materialidade da vida cotidiana e até mesmo a linguagem, questões que também estão presentes nos anúncios. Em entrevistas e depoimentos da época do lançamento, o diretor explicou qual era a sua visão sobre Bye Bye Brasil:

Um filme sobre esse momento especial em que vive o Brasil de hoje, convivendo o arcaico com o moderno, o passado com o futuro, a miséria com o progresso, alguma coisa que morre para dar lugar a alguma coisa que nasce. Coisas que nem sempre conhecemos deste país continental e estranho (MOTTA, 1979 apud BARBEDO, 2010).

De fato, era um momento especial, tratava-se da inserção compulsória do país em um processo de remodelação material e cultural propiciado pela rápida incorporação das tecnologias microeletrônicas. Como vimos nestes dois primeiros capítulos, os anos 1970 foram marcados pelo início da difusão dos frutos da revolução microeletrônica; produtos que até então eram apenas imagens "de editorial futurista ou de ficção científica" agora se tornavam parte da realidade cotidiana e começavam a promover uma remodelação material, cultural e econômica em várias partes do planeta. Com a revolução microeletrônica, alguns dos sonhos da ficção cientifica se materializam em produtos vendidos nas prateleiras dos supermercados, e, junto a eles, as promessas de democracia, riqueza, oportunidades, liberdade, entretenimento, além da expansão das capacidades do homem e de um mundo e um futuro melhor. Como pode ser visto nos anúncios, a publicidade captou o momento, explorando esses discursos ajudando a cristalizá-lo

***

Já no final da década, em 1979, o grupo britânico Human League lançou a música “Blind Youth”, que celebrava algumas benesses da modernidade. Logo no seu primeiro verso havia uma referência direta à música God Save the Queen, que não deixava dúvidas de qual era a juventude cega que dava título à música.

Nenhum futuro eles dizem Mas deve ser assim? O agora está chamando A cidade é humana Juventude cega tenha fé, você não é o João Bobão Seu tempo está chegando, teremos grande diversão em breve Tivemos isso fácil, devíamos estar contentes A vida em arranha céus não é tão ruim Desumanização É uma palavra tão grande Já está por ai desde

Ricardo III Desumanização É fácil dizer Mas se você não é um eremita Você saberá que a cidade é ok Tivemos isso fácil, devíamos estar contentes A vida em arranha céus não é tão ruim Juventude cega tenha fé, você não é o João Bobão Seu tempo está chegando, teremos grande diversão em breve147

O Human League foi formado na cidade britânica de Sheffield, uma das poucas cidades inglesas, por ser grande sede de indústria metalúrgica, a não sofrer com a crise e o desemprego, permanecendo relativamente

147 No original: No future they say / But must it be that way? / Now is calling /The city is human / Blind youth take hope, you're no Joe Soap /Your time is due, big fun come soon / We've had it easy, we should be glad / High-rise living's not so bad /Dehumanisation / Is such a big word / It's been around since / Richard The Third / Dehumanisation / It's easy to say /But if you're not a hermit / You'll know the city's okay / We've had it easy, we should be glad / High-rise living's not so bad /Blind youth take hope, you're no Joe Soap / Your time is due, big fun come soon/

próspera ao longo de toda a década de 1970 (REYNOLDS, 2006, p. 151). A banda surgiu na esteira do punk e da atitude faça-você-mesmo, a diferença sendo que os jovens de Sheffield produziam suas músicas não com guitarras, mas usando sintetizadores e outras traquitanas eletrônicas, tornados possíveis graças aos avanços da microeletrônica.

O grupo apostava em uma estética futurista e de ficção cientifica, que era percebida nas apresentações ao vivo, que envolviam projeções e raios laser, nas letras que celebravam o hedonismo e as benesses modernas e, claro, nas músicas que geralmente possuíam uma batida dançante e sons que só podíam ser feitos graças à utilização de modernos sintetizadores.

Ao contrário dos Sex Pistols, para os quais não havia futuro, para o Human League o futuro não só existia como estava próximo e prometia muita diversão. A música feita pelo grupo era perfeita para agitar as inúmeras casas noturnas que começavam a brotar por todos os cantos do planeta e se tornavam points das camadas jovens urbanas.

Se 1977 teve seus primeiros dias marcados por um sentimento de pessimismo, pela ameaça do desemprego e pela crise, as transformações que se processaram de maneira acelerada no decorrer do ano produziriam reverberações nas décadas seguintes. Alguns desses hábitos e práticas já existiam, mas foi nessa conjuntura do final dos anos 1970 que adquiriram um efeito sinérgico e possibilitaram a criação de uma rede interativa de experiências que se tornaram centrais no contexto cultural e fontes de novas identidades e novos estilos de vida. Não que o pessimismo tivesse acabado, pois ainda seria a tônica em boa parte dos anos seguintes. No entanto, as conquistas tecnológicas traziam promessas de um futuro melhor, colorido por raios laser, luzes de neon, entretenimento e diversão, como se buscará mostrar nos capítulos seguintes.

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