Após a análise do contexto, do conteúdo e do processo da mudança estratégica da Eletrosul no período 1990-1992, pôde-se verificar que a principal mudança estratégica que ocorreu na empresa nesse período foi a redução drástica dos custos, evitando dessa forma, a sua extinção. As ações estratégicas que possibilitaram essa mudança na firma podem ser visualizadas na figura 13 a seguir.
Desempenho da economia:
instabilidade
Planos governamentais:
plano econômico recessivo
Ideologia e obj. políticos:
redução da presença do Estado na economia
Regime institucional:
busca por um novo arranjo
Novos entrantes:
inovações tecnológicas
Modelo de negócios:
modelo centralizado
Objetivos do setor:
buscar um novo modelo
Dinâmica competitiva:
sem competição (monopólios)
Desempenho do setor: crise financeira Desempenho da firma: negativo Objetivos organizacionais: redução de custos Desenvolvimento de capacidades: deficiente Estr. emergentes: sobrevivência Estr. deliberadas: Plano de gestão/ Market Share Estratégias realizadas: Programa de Qualidade; 95% Plano Gestão; cont. obras (parcerias) CONTEXTO PROCESSO CONTEÚDO MA CRO -A MB IE NT E AM BIEN T E SE T O R IA L FIRMA
Efeitos coevolucionistas Influências contextuais Influências processuais
Figura 13: Coevolução das mudanças estratégicas na Eletrosul no período de 1990-1992 [Fonte: Elaborado pela autora].
Nessa mesma figura 13, por meio das linhas tracejadas, é possível observar a influência que os contextos interno e externo tiveram sobre o processo da estratégia. As linhas cheias demonstram como o processo teve influência sobre o conteúdo da estratégia, ou seja,
sobre as estratégias realizadas (tendo sido elas provenientes de um processo deliberado e também emergente).
Em relação às ações estratégicas realizadas pela Eletrosul no período de 1990-1992, merece destaque a implementação do Programa Eletrosul de Qualidade e Produtividade, o que refletiu positivamente sobre o desempenho do setor. Essa ação estratégica também contribuiu positivamente para o governo, pois estava em consonância com as diretrizes do governo federal, o que caracterizou a macro-coevolução no período em análise. Além disso, a implementação de 95% do Plano de Gestão possibilitou à empresa tornar-se mais enxuta e eficiente em relação às demais empresas do setor, caracterizando a micro-coevolução, pois a coevolução ocorreu dentro da Eletrosul a partir do momento que a mesma conseguiu levar a cabo algumas estratégias. Essas propriedades mostram que os efeitos coevolucionistas podem ocorrer em múltiplos níveis, como pode ser observado na figura 13.
Dessa forma, o Plano de Gestão da Eletrosul refletiu positivamente no SEB, pois serviu de modelo para outras empresas. Também contribuiu para os objetivos do governo, pois o Plano possibilitou à empresa uma maior eficiência econômica, permitindo à empresa sair de um período recessivo. Esse feedback das estratégias realizadas sob os contextos externo e interno pode ser visualizado pelas linhas pontilhadas da figura 13, caracterizando, portanto, os efeitos coevolucionistas da Eletrosul e seu ambiente no período em análise.
Esse período foi bastante importante para a história da empresa, porque permitiu à Eletrosul sobreviver em um período de grande instabilidade econômica. Isso foi possível pelo fato do governo não adotar mais as empresas estatais como instrumentos de política macroeconômica, obrigando a estas se tornarem empresas eficientes. É claro que isso não possibilitou uma total mudança do setor em análise, mas trouxe reflexos positivos conforme destacado anteriormente.
Verificou-se que os aspectos institucionais impactaram sobre firma em análise. A teoria institucional possui natureza determinista, e, segundo Dimaggio e Powell (1983), o isomorfismo coercivo é representado justamente pelas forças do ambiente capazes de impor uniformidade às organizações. Quanto a esse aspecto, foi possível verificar no período de 1990-1992, uma grande preocupação do governo em reduzir as despesas, o que foi traduzido
pela empresa em ações estratégicas por meio da elaboração e implementação do Plano de Gestão.
O Governo Federal estava preocupado em buscar um novo arranjo institucional e, em virtude disso, diversos setores econômicos sentiram-se coagidos. Por exemplo, no setor elétrico brasileiro houve debates para discutir um novo arranjo institucional para o setor, embora não tivesse havido envolvimento do Congresso Nacional.
Devido às pressões institucionais no macro-ambiente, a Eletrosul se viu pressionada isomorficamente em relação às tentativas de mudança. Como as organizações estavam passando por um período de transição e preparação para privatização (que pode ser considerada como uma mudança institucional coerciva), estas tinham dificuldades de implantar novas estratégias ou de dar continuidade aos projetos já iniciados, principalmente devido à falta de recursos por parte do governo federal.
Um aspecto bastante relevante para explicar a péssima situação econômica e financeira das empresas do setor elétrico no período de 1990-1992, e conseqüentemente da Eletrosul, foi a contradição que existia entre os objetivos do governo e a manutenção das empresas estatais. O governo, desde meados dos anos setenta, tinha como objetivo a adoção das empresas públicas como instrumento de intervenção macroeconômica, o que contrariava, fundamentalmente, as condições de manutenção do equilíbrio econômico e desenvolvimento projetado para as estatais pertencentes ao setor elétrico. Como resultado teve-se a realização de investimentos a custos elevadíssimos e incompatíveis com as condições de poupança interna.
Também é relevante destacar nesse período, como os aspectos do ambiente setorial pressionaram as ações estratégicas realizadas pela Eletrosul, caracterizando o processo de mudança estratégica como determinista. A ecologia das populações é uma teoria essencialmente determinista, portanto, considera que as mudanças e as pressões do ambiente setorial interferem nas ações estratégicas das firmas, isto é, nas estratégias emergentes e conseqüentemente nas estratégias realizadas (ZAMMUTO, 1988). Como o desempenho do setor no período de 1990-1992 era bastante negativo, este exerceu bastante influência sobre as firmas, traduzido principalmente pela estratégia emergente de sobrevivência (figura 13).
Nesse caso, o ambiente setorial selecionou o melhor ajuste da Eletrosul, portanto, algumas ações estratégicas realizadas pela empresa foram determinadas pelo ambiente setorial.
No entanto, pode-se verificar que o grupo responsável pela tomada de decisão estratégica na empresa também exerceu influência sobre as ações estratégicas realizadas pela organização, principalmente por meio dos padrões de decisões que guiaram a organização nesse período a um alinhamento com o seu ambiente, moldando as políticas e procedimentos internos. Assim, o grupo da alta direção na empresa interferiu nos ambientes dentre os quais a organização estava inserida, principalmente por meio da implementação das ações estratégicas planejadas deliberadamente pela empresa, o que também caracterizou o processo de mudança estratégica da Eletrosul como voluntarista. A empresa interpretou corretamente a pressão exercida pelo ambiente, permitindo-a traduzir a intenção do governo em relação à organização.
É importante destacar que houveram algumas especificidades organizacionais que influenciaram na mudança estratégica da Eletrosul nos anos de 1990-1992. Ao verificar a pressão que o ambiente exerceu sobre as estratégias, pôde-se concluir, principalmente pelas afirmações do entrevistado 3, que ela só conseguiu levar a cabo as estratégias devido à forte intenção do grupo de primeiro escalão (escolha estratégica) em elaborar e implementar o Plano de Gestão.
Além disso, em função da existência de recursos intangíveis (pessoas capacitadas representadas pelo seu corpo técnico) a Eletrosul pôde traduzir a pressão exercida pelo contexto externo por meio da elaboração e implementação de estratégias que posteriormente concederam à empresa uma posição sustentável no SEB (ENTREVISTADO 5). É interessante destacar, de acordo com a teoria baseada nos recursos da firma, que esses recursos são essenciais para a definição da estratégia e da vantagem competitiva da empresa.
Sendo assim, pôde-se concluir que as mudanças estratégicas da Eletrosul no período de 1990-1992 ocorreram por meio de um processo coevolucionista. A figura 13 representa, por meio das linhas pontilhadas, os efeitos coevolucionistas das ações estratégicas realizadas pela Eletrosul em seu contexto externo e vice-versa, caracterizadas principalmente pela
micro-coevolução e pela macro-coevolução. A micro-coevolução ocorreu dentro da firma,
dentro dos ambientes em que a firma atuava, fazendo com que a mudança tivesse sido proveniente tanto de dentro da firma como de seu contexto externo, gerando as causalidades
multidirecionais, comum em processos coevolucionistas.
As mudanças que ocorreram na Eletrosul no período de 1990-1992 não foram
lineares, ou seja, a mudança ocorreu em função dos aspectos do contexto externo e interno,
assim como em função do feedback positivo desses contextos.
O processo de adaptação da Eletrosul em relação aos seus ambientes também ocorreu de maneira histórico-dependente, fazendo com que o processo de adaptação da Eletrosul em relação ao seu contexto acontecesse ao longo do tempo, pois, de acordo com a teoria das capacidades dinâmicas, a trajetória de dependência da organização tem influência sobre seu comportamento futuro. Além disso, o processo de adaptação da firma aconteceu ao longo do tempo devido à mesma estar inserida dentro de um ambiente altamente regulamentado.