ESTUDOS EMPÍRICOS
5.3. Cognição Social e resultados funcionais
2004). Assim, os determinantes cognitivos podem ser modificados ou moderados por determinantes ambientais.
5.2. Determinantes cognitivos das dimensões funcionais
Os défices cognitivos predizem o auto-‐cuidado, o funcionamento social, as competências para viver em comunidade e o emprego (Addington, Saeedi, &
Addington, 2005), transversal ou longitudinalmente (Brekke, Kay, Kee, & Green, 2005; Brekke, Hoe, Long & Green, 2007; McGurk & Mueser, 2004). Diversos estudos na Esquizofrenia, verificaram que défices em domínios cognitivos específicos encontram-‐se associados a distintos resultados funcionais: atenção e vigilância com o funcionamento social; memória e aprendizagem verbal com autonomia social e ocupacional; funcionamento executivo com autonomia;
velocidade de processamento com o emprego (Kurtz, Moberg, Gur & Gur, 2001;
Green et al., 2004).
Apesar da relação significativa entre neurocognição e resultados funcionais, a correlação entre os dois constructos é, geralmente, modesta, com as medidas neurocognitivas a explicar 20 a 60% da variância dos resultados funcionais (Green et al., 2000; Green et al., 2004). Este facto tem conduzido os investigadores a procurarem outros factores mediadores ou moderadores que influenciem e clarifiquem a relação entre neurocognição e funcionamento.
5.3. Cognição Social e resultados funcionais
A cognição social tem sido examinada, simultaneamente, como um preditor dos resultados funcionais e como um mediador da relação neurocognição/funcionamento (McGurk & Mueser, 2004; Vauth, Rusch, Wirtz, &
Corrigan, 2004; Brekke at al., 2005; Sergi, Rassovsky, Neuchterlein, & Green, 2006; Brekke et al., 2007). A cognição social engloba um conjunto de competências como a percepção de emoções, a percepção social, o conhecimento social, a teoria da mente e o estilo atribucional.
Os estudos têm encontrado uma associação entre neurocognição e cognição social, assim como uma relação entre cognição social e funcionamento (Vauth et al., 2004; Brekke at al., 2005; Couture, Penn, & Roberts, 2006; Sergi et al., 2006;
Penn, Sanna, & Roberts, 2008). Diferentes aspectos neurocognitivos
(processamento visual, reconhecimento de material verbal, vigilância, funcionamento executivo e capacidades sensoriomotoras) têm sido associados à percepção de emoções e à percepção social. As fundações neurais das capacidades neurocognitivas e de cognição social sugerem estruturas semi-‐
independentes para o processamento de estímulos sociais e não sociais (Pinkham, Hopfinger, Pelphrey, Pivenc, & Penn, 2008). Assim, a cognição social pode contribuir para os resultados funcionais de forma não redundante com a neurocognição (Couture et al., 2006). Algumas investigações têm demonstrado uma relação consistente entre a percepção social e diversos aspectos do funcionamento, especialmente resolução de problemas sociais, comportamento social durante o tratamento e funcionamento na comunidade (Hooker & Park, 2002; Kim, Doop, Blake, & Park, 2005). Os resultados dos estudos que se debruçaram sobre a relação entre percepção social e competências sociais têm sido inconsistentes. Apesar disso, alguns autores consideram que esta relação demonstra potencial (Couture et al., 2006). A percepção emocional apresenta uma relação consistente com o funcionamento comunitário (Brekke et al., 2007), o comportamento social (Hooker & Park, 2002; Kim et al., 2005) e o funcionamento vocacional (Kee, Green, Mintz, & Brekke, 2003). A percepção de emoções pode, igualmente, mediar a ligação entre neurocognição e resultados funcionais (Brekke et al., 2005). Tem existido menos investigação em torno da relação do funcionamento com a Teoria da Mente (Brüne, 2005) ou o estilo atribucional (Lysaker, Lancaster, Nees, & Davis, 2004), embora os estudos iniciais pareçam promissores.
5.4. Moderadores ambientais das dimensões do funcionamento
Brekke (2007) sugeriu três determinantes ambientais críticos:
oportunidade, suporte e facilitadores da recuperação. As oportunidades são as opções disponíveis para habitação, emprego e compromissos sociais.
Obviamente, alguém com capacidade funcional para trabalhar, mas que não encontre emprego, terá resultados pobres do ponto de vista ocupacional, o mesmo acontecendo a respeito do funcionamento social e da habitação. Em segundo lugar, o suporte da família, dos amigos, dos pares e/ou dos técnicos que encorajem comportamentos adaptativos e mudanças comportamentais pode ser
particularmente significativo para pessoas que lidam com uma doença mental grave, com recaídas e hospitalizações. Finalmente, facilitadores da recuperação, tais como tratamentos ou serviços disponíveis, que procurem incrementar os resultados funcionais dos doentes são, igualmente, factores ambientais relevantes.
Vários investigadores sugerem que os determinantes cognitivos têm um impacto directo nos indicadores de capacidade funcional. O desempenho funcional e os resultados funcionais são ambientalmente determinados. Assim, a influência dos determinantes cognitivos é modificada ou moderada por factores ambientais (Brekke, 2007; Green et al., 2004; Harvey et al., 2007). Existe evidência de que a neurocognição é um mais forte preditor da capacidade funcional do que o resultado funcional (Green et al., 2004; Bowie et al., 2006).
Vários estudos comprovaram que a incapacidade funcional em doentes bipolares é prevalente, particularmente no que diz respeito aos domínios residencial, ocupacional e social. Uma revisão de estudos que analisou resultados psicossociais em doentes com Perturbação Bipolar, revelou que 30 a 60% dos sujeitos não recupera o seu nível de funcionamento anterior, na área laboral e de relacionamento social (Macqueen et al., 2001). Estes achados têm sido confirmados em estudos longitudinais recentes (Keck & McElroy, 1998; Tohen, 2003), que sugerem que a recuperação funcional é posterior à remissão sintomática e que a incapacidade funcional se pode manter mesmo na ausência de sintomas.
Entre os vários factores considerados para explicar a existência de um compromisso funcional após a remissão sindromática dos episódios agudos, a influência do desempenho neurocognitivo constitui uma das áreas de interesse emergente. Os resultados dos estudos que têm investigado as relações entre a neurocognição e a funcionalidade na Perturbação Bipolar coincidem em demonstrar que o desempenho cognitivo se associa aos resultados funcionais, quer em termos globais, quer em domínios mais específicos, como o funcionamento ocupacional. Os poucos estudos longitudinais realizados até à data apontam para uma influência causal independente. No entanto, diferenças nos testes utilizados nas baterias neuropsicológicas e nos instrumentos
utilizados para medir a funcionalidade não permitem, ainda, tirar conclusões sobre quais os domínios cognitivos que melhor predizem o funcionamento nas suas diferentes dimensões. Por outro lado, embora as capacidades cognitivas e os sintomas possam ser, em parte, contribuintes independentes para o funcionamento, interacções dinâmicas entre os sintomas e os défices cognitivos podem contribuir para uma maior variação no resultado funcional (Bowie et al., 2010). Assim, os estudos longitudinais com administrações repetidas, quer das medidas cognitivas quer das medidas funcionais, podem proporcionar mais informação acerca da forma como estes aspectos da Perturbação Bipolar se influenciam mutuamente.
A magnitude do efeito das capacidades cognitivas no funcionamento é consistente com os resultados descritos numa meta-‐análise recente na Esquizofrenia acerca da relação entre a capacidade neurocognitiva global e o funcionamento na comunidade (Fett et al., 2011). Assim, embora os doentes bipolares apresentem menor compromisso cognitivo e funcional comparativamente com os doentes com Esquizofrenia (Krabbendam et al., 2005), o impacto dos défices cognitivos no funcionamento quotidiano parece ser semelhante (Bowie et al., 2010). A investigação na Esquizofrenia tem mostrado que a neurocognição e a cognição social são relevantes para os resultados funcionais nesta população clínica. Estes dois factores podem funcionar como preditores, mediadores ou moderadores do funcionamento. Assim, o conhecimento adquirido na investigação das relações entre neurocognição, cognição social e funcionalidade na Esquizofrenia pode ter um papel importante na condução da investigação em doentes com Perturbação Bipolar.
Em relação às metodologias de mensuração da funcionalidade, existe uma grande variabilidade entre as abordagens de medida do funcionamento na sua sensibilidade aos défices cognitivos. Num estudo meta-‐analítico recente (Depp et al., 2012b), os marcos funcionais apresentaram fortes associações com o desempenho cognitivo, assim como as medidas do funcionamento baseadas no desempenho funcional. Os instrumentos aplicados pelo clínico e as medidas de auto-‐resposta são as menos relacionadas com as capacidades cognitivas, com effect sizes pequenos. A utilização dos conceitos de funcionalidade usados na classificação da OMS permite um enquadramento conceptual que, se aplicado à
Perturbação Bipolar, conduzirá a um avanço no estudo das complexas relações entre factores clínicos, neurocognitivos, cognitivos sociais, ambientais e funcionais nesta perturbação psiquiátrica. Por outro lado, as metodologias de avaliação do funcionamento têm sofrido uma considerável evolução.
Inicialmente, a maioria dos estudos na Perturbação Bipolar utilizava apenas uma medida de funcionamento global. Mais recentemente, instrumentos baseados na classificação da OMS, e medidas de avaliação multidimensional, como a FAST, foram especificamente concebidas para esta população clínica.
Um tema escassamente analisado na Perturbação Bipolar é o da relação entre a cognição social e o funcionamento psicossocial. Apenas três estudos até à data investigaram esta associação (Lahera et al., 2012; Martino et al., 2011; Olley et al., 2005), utilizando somente medidas de funcionamento global. Do nosso conhecimento, não existe nenhum estudo publicado que analise as relações entre o desempenho em tarefas de processamento emocional e a funcionalidade em doentes bipolares, usando diferentes metodologias de avaliação do funcionamento (globais, multidimensionais de auto-‐resposta e administradas por clínico e marcos funcionais), em comparação com controlos saudáveis e pessoas com Esquizofrenia.
Parte Empírica
CAPÍTULO 4: Estudo Empírico
1. OBJECTIVOS
O objectivo do presente estudo consiste na caracterização do perfil de desempenho em tarefas neurocognitivas e de processamento emocional, e das suas relações com o funcionamento, numa amostra de doentes bipolares eutímicos (n=50), em comparação com uma amostra de doentes com Esquizofrenia (n=50) e uma amostra de controlos normais (n=50). Mais especificamente, pretende-‐se ainda dar resposta às seguintes questões:
Existem défices neuropsicológicos independentes do estado clínico, na Perturbação Bipolar, que se mantenham em doentes bipolares eutímicos?
Qual a natureza e magnitude dos défices neuropsicológicos nos doentes bipolares eutímicos? Quais os domínios cognitivos mais afectados?
Existem diferenças no perfil de desempenho neurocognitivo entre a Perturbação Bipolar e a Esquizofrenia? Essas diferenças são qualitativas ou quantitativas?
Qual é a variabilidade e heterogeneidade de desempenho nas tarefas neuropsicológicas dos doentes bipolares eutímicos? São os défices neuropsicológicos característicos da Doença Bipolar em geral, ou só característicos de subgrupos particulares, como doentes com história de psicose?
Existem diferenças no desempenho, em tarefas de processamento emocional, entre doentes bipolares eutímicos, doentes com Esquizofrenia e controlos saudáveis? Qual a natureza e a magnitude dessas diferenças?
Quais as relações entre as variáveis clínicas, as variáveis neurocognitivas e o processamento emocional com o funcionamento