O colúvio, comumentemente é considerado como depósito constituído por material heterométrico sem estratificação, de origem gravitacional. Não é à toa que o termo envolve inúmeras discussões cientificas sobre sua origem.
Mousinho e Bigarella (1965) consideram o colúvio como revestimento superficial generalizado da paisagem. No entanto, colúvio também pode ser considerado como revestimento subsuperficial generalizado da paisagem, uma vez que, “o colúvio seria encontrado recobrindo as seções médias e inferiores das vertentes, aumentando a
sua espessura quando diminuem os declives, entrando em contato com o alúvio depositado pelo curso d’água no fundo do vale” (MOUSINHO; BIGARELLA, 1965). Assim, na parte superior da vertente passa a predominar o elúvio, a rocha alterada in
situ, o qual não aparece apenas em locais onde aflora a rocha sã.
Segundo Suguio (2003, p.19) colúvio, coluvião ou mesmo depósito coluvial é constituído por material incoerente de “aspecto terroso, em geral localizado em vertentes e sopés de relevo mais ou menos acentuado, normalmente resultante da movimentação e declive abaixo de um elúvio”. Essa definição considera o transporte do colúvio como prioritariamente gravitacional.
O material coluvial tem, frequentemente, aspecto maciço, composto por sedimentos areno-argilosos, podendo conter fragmentos de rocha de múltiplas dimensões e formas, frequentemente pouco intemperizados. Para Bloom (1978) apud Suguio (2003) em função da constituição do material pode-se ter rastejo do solo e da rocha, o que segundo os autores é uma variável dependente da gravidade.
Por esse motivo, não raro, o colúvio é associado a formação de Linhas de Pedra, devido a sua composição heterométrica que se alonga na encosta, podendo, inclusive formar depósitos com a formação de Linhas de Pedra. Sob esse ponto de vista Suguio (2003) relata que:
“um exame mais acurado pode até revelar várias gerações de colúvios, ou diferentes fases de coluviação separadas por horizontes de paleossolos ou com ‘linhas de pedras’ ou ‘linhas de seixos’, compostas em geral por fragmentos minerais ou rochosos angulosos ou subangulosos, representando muitas vezes, paleopavimentos detríticos dispostos mais ou menos paralelamente às vertentes”. (SUGUIO, 2003, p.19)
Segundo Queiroz Neto (2001, p.12) ao se conceituar o termo colúvio deve-se considerar que os mesmos correspondem “a fases de deposição de materiais por movimentos de massa, seguidas por momentos de estabilidade com pedogênese e formação de paleohorizontes A”.
A abordagem do conceito de colúvio tem sido tema de inúmeras discussões em razão da importância desses depósitos sedimentares para a interpretação dos mecanismos de erosão/deposição que atuam e/ou aturam na superfície do relevo, seja na atualidade ou no passado geológico. Assim, em função das inúmeras intepretações do
termo colúvio tem-se no quadro 1, extraído de Cruz (2006, p.12) as principais características descritivas e genéticas do termo colúvio.
QUADRO 1: O Termo colúvio segundo alguns autores Fonte: (BIGARELLA et. al., 1994 apud CRUZ, 2006, p. 12). CARACTERÍSTICAS NA COMPOSIÇÃO
DO TERMO
AUTORES
Características físicas do material
Stamp (1966); Fairbridge (1968); Bates e Jackson (1980); Campy e Macaire (1989); Butt e Zeegers (1992); Daniels e Hammer (1992); Bigarella et. al. (1994); Suguio (1998); Taylor e Enggleton (2001); Guerra e Guerra (2001); Suertegaray et. al. (2003); SSSA (2005).
Posicionamento na vertente
Stamp (1966); Fairbridge (1968); Strahler e Strahler (1978); Bates e Jackson (1980); Campy e Macaire (1989); Daniels e Hammer (1992); Thomas (1994); Bigarella et al. (1994); Suguio (1998); Taylor e Enggleton (2001); Guerra e Guerra (2001); Suertegaray et. al. (2003); SSSA (2005).
Transporte por ação gravitacional/ movimentos de massa
Suguio (1998); Taylor e Enggleton (2001); Guerra e Guerra (2001); Suertegaray et. al. (2003).
Transporte por escoamento superficial Baulig (1956)*; Plaisance e Cailleux (1958)*. Strahler e Strahler (1978);
Transporte por movimentos de massa e/ou escoamento superficial
Stamp (1966); Fairbridge (1968); Bates e Jackson (1980); Campy e Macaire (1989); Butt e Zeegers (1992); Daniels & Hammer (1992); Bigarella et. al. (1994); Thomas (1994); SSSA (2005).
Para Bigarella e Mousinho (1965, p. 164) “os colúvios caracterizam-se pela ausência de estrutura e baixo coeficiente de seleção. Texturalmente contêm seixos esparsos e frequentemente grânulos de quartzo, algumas vezes verifica-se presença de feldspatos” que segundo os autores, esse mineral (feldspato) seria destruído nos processos de movimentação de massa. Num contexto mais amplo, os autores consideram que as rampas de colúvio se originariam essencialmente por processos de solifuxão e/ou escoamento superficial e, sua natureza clástica, siltico-areno-argilosa seria uma variável dependente da área fonte desses sedimentos. Para Bigarella e Mousinho (1965), a superfície topográfica com suave inclinação se constituiria numa rampa de colúvio, a qual modificaria o aspecto original da forma dos baixos terraços, podendo, por esse motivo, ser identificada como uma estrutura.
Estudos realizados por Moura e Silva (1998) no Sudeste brasileiro, reconheceram na topografia segmentos côncavos (hollows) e encostas convexas (noses), sendo que os primeiros teriam recuado mais rapidamente que que as encostas, as quais se constituiriam em áreas de fornecimento de material para a formação de depósitos coluvias encosta abaixo. Segundo os autores essa dinâmica erosão/deposição (cut and
fill) “permitiria a construção ou desenvolvimento de feições deposicionais
características nas reentrâncias das cabeceiras de drenagem em anfiteatro; complexos de rampa de colúvio” (MOURA e SILVA, 1998, p. 150).
Bigarella (2003, p. 1077) reafirma que “as rampas coluvio-aluvionares foram originadas essencialmente por processos de solifluxão (ou equivalentes) e de escoamento superficial difuso ou torrencial” Na mesma publicação o autor citado defende que rampas colúvio-aluvionares não seriam feições do clima úmido atual:
“O clima úmido atualmente vigorando nas regiões florestais não seria favorável à formação das rampas. Dessa forma, as rampas de coluvio- aluvionares, constituem feições herdadas de condições climáticas pretéritas, relacionadas a fases ou flutuações para o clima mais seco” (BIGARELLA, 2003, p. 1077).
Sob a ótica do autor citado as rampas de colúvio que revestem a topografia atual, são feições herdadas cuja origem está condicionada a um paleoambiente cujas condições climáticas são divergentes da atual. Em outras palavras, rampas de colúvio indicariam a existência de um clima pretérito mais seco que o atual.
Cabe ressaltar que Bigarella e Mousinho (1965) diferenciaram rampas de colúvio de terraços fluviais. Para os autores rampas de colúvio são originadas por processos não fluviais o que as distinguem dos terraços fluviais de origem essencialmente fluvial. O terraço fluvial é constituído, principalmente por uma cascalheira que foi depositada na calha de drenagem pelo transporte em lençol, o que lhe fornece uma estratificação. Já o colúvio, que pode estar sotoposto ao terraço fluvial, não apresenta estratificação. Portanto, a forma morfológica originada pela coluviação é independente da estrutura formada pelo terraço fluvial.
Assim sendo, é de extrema importância o entendimento da formação do colúvio e rampa de colúvio em função que, não raro, eles podem estar associados a origem das Linhas de Pedra, as quais podem separar um depósito coluvial de outro.