• Nenhum resultado encontrado

COLABORAÇÃO ONLINE: REFLEXÕES E PERSPECTIVAS

Neste capítulo final analisaremos a colaboração online a partir de seus princípios ideológicos: a cultura livre e o open source. Iremos discutir as possibilidades e limitações da colaboração na internet, tomando esses pontos de observação como uma ponte de contato com a análise teórica que desenvolvemos até este momento da pesquisa. Nosso objetivo é discutir a base de sustentação das ferramentas colaborativas online relacionando estes pilares (cultura livre e open source) com iniciativas reais que se utilizam destes princípios para a disseminação de projetos colaborativos através do uso massivo de tecnologias digitais. Apresentaremos a conexão entre o ideal de cultura livre e da criação de softwares por meio do open source como o meio central para a viabilização de projetos colaborativos online, considerando também possíveis contradições em seus princípios e aplicações (como no caso do Wikileaks, por exemplo). Dentre os diversos projetos colaborativos online que mencionaremos, dedicaremos um espaço maior para a análise da Wikipédia. Acreditamos que, apesar de muito já ter sido dito contra ou a favor desta enciclopédia online, ela ainda representa, melhor do que qualquer outro projeto, as possibilidades da colaboração na web. A nossa observação se dará, no caso da Wikipédia, principalmente em relação ao funcionamento da ferramenta. Assim, inseridos no ambiente online de colaboração promovido pela Wikipédia, nos colocaremos como usuários dessa ferramenta ao mesmo tempo em que nos situaremos de forma crítica em relação às diversas análises promovidas por autores que se mostram entusiastas ou não desse e de outros projetos colaborativos online. No caso dos outros projetos ou ferramentas que mencionaremos, nossa análise se dará mais pela percepção do reconhecimento de determinadas características da colaboração decorrentes dos ideais da cultura livre e do open source. Procuraremos também relacionar elementos das discussões que propomos nos capítulos anteriores, trazendo para este último capítulo uma conexão entre o debate teórico que produzimos até o presente momento. A proposta será avaliar como os conceitos discutidos nos diversos campos que investigamos (cultura, cibercultura, complexidade e colaboração) se refletem nas ações colaborativas online. Para tanto, iremos mesclar a pesquisa bibliográfica com nossa observação das discussões sobre cultura livre, open source e colaboração em diferentes contextos da web.

4.1 Mapeando a cultura livre

A ideia de uma “cultura livre” pode parecer, a princípio, redundante e paradoxal. Afinal, em que se sentido se poderia falar de uma cultura que não é livre? O que significa exatamente esse termo? A expressão “cultura livre” se popularizou a partir do livro Free Culture: how big media uses technology and the law to lock down culture

and control creativity, de Lawrence Lessing. Em seu livro, Lessing (2004) afirma que a

era da cultura digital nos proporciona a possibilidade de assumirmos o controle de grande parte dos produtos culturais, gerenciando nós mesmos seu uso, distribuição e reformulação. Para este autor, os produtos culturais (livros, arquivos de áudio e vídeo etc.) devem ter a menor restrição possível de acesso, o que tem gerado intensos debates sobre as consequências de uma mudança grande de comportamento por parte do público em relação ao gerenciamento de bens culturais feito por grandes empresas assim como para todos aqueles que produzem algum bem cultural. Questões como direito autoral e ganhos com a distribuição e apropriação de dados e informações são temas importantes neste contexto. Lawrence Lessing é um dos fundadores da Creative Commons102, uma organização não governamental sem fins lucrativos que busca facilitar o processo de apropriação e reapropriação de obras criativas disponíveis na internet. O livro de Lessing que mencionamos anteriormente, por exemplo, está disponível para download gratuito na internet, seguindo os princípios da licença Creative Commons. O movimento gerado por essa organização, em associação à ideia de cultura livre, almeja uma ampliação do chamado copyleft103, ou seja, a abdicação voluntária de alguns direitos inerentes ao produto que está sendo distribuído. Essas licenças seguem parâmetros distintos, propondo desde a possibilidade de se distribuir livremente o produto em questão até a permissão para a modificação do conteúdo, desde que mencionada a fonte da obra original. A ideia não é burlar o direito autoral em si, mas propor uma disseminação maior de bens culturais com um nível cada vez menor de restrições. De forma geral, no entanto, a decisão é sempre do produtor do conteúdo. Um vídeo postado no site Youtube assim como uma música disponibilizada no site Soundcloud podem

102 http://creativecommons.org.br

103 Como discutiremos no decorrer deste capítulo, o copyleft é uma alternativa ao copyright no sentido de se rever as questões ligadas ao direito autoral e à cessão de direitos de uso e apropriação de bens culturais. Enquanto o copyright procura garantir os direitos jurídicos de propriedades intelectuais o copyleft busca, através da ideologia da cultura livre, romper algumas das pressões envolvidas no campo jurídico, considerando que os bens culturais mas podem ser divulgados e compartilhados sem que isso envolva uma quebra de direito de propriedade intelectual.

seguir a licença Creative Commons e permitirem o download e remixagem do conteúdo daqueles produtos. Mas caso os autores entendam que não querem aderir à proposta, o

Youtube e o Soundcloud dão suporte à versão mais tradicional de copyright, impedindo

ou cobrando por downloads e responsabilizando usuários que façam apropriações não autorizadas do conteúdo violado. A ideia de copyleft não impede a venda de um produto (um livro, por exemplo) pelo próprio autor, mas também não se propõe contrária à ideia de que qualquer pessoa possa distribuir livremente cópias digitais desse livro, desde que não adquira lucro com esse ato. Isso pode parecer um retrocesso imenso em relação à valorização do trabalho envolvido em propriedade intelectual, mas trata-se de uma questão que ganhou força com a disseminação e popularização dos arquivos em formatos leves e baratos como mp3 e pdf.

Com a facilidade de se divulgar, redistribuir e alterar arquivos de áudio, texto e vídeo, muitas pessoas começaram a se questionar se não deveríamos rever nossa concepção de divulgação de produtos culturais. Isso não tem necessariamente uma relação com a eliminação do direito autoral. Apesar de algumas licenças permitirem que as obras sejam reapropriadas e ressignificadas sem menção à fonte original, o mais comum é que os autores queiram preservar seu direito em relação à autoria. No entanto, compreendendo a dificuldade de se manter determinados produtos em cópias privadas e pagas por meio de aquisição pessoal, alguns autores e produtores têm adotado a medida de não repreender as ações de disseminação livre de seus produtos. Os motivos podem ser os mais diversos, mas é bem provável que, para além de uma ideologia de defesa da liberdade pelo acesso à cultura, esteja envolvida também uma questão prática, por conta da dificuldade de se impedir a reprodução e cópia desses produtos em contextos diversos.

No tópico Olhares sobre a cultura de massa, no Capítulo 1 deste trabalho, quando mencionamos a questão da reprodutibilidade levantada por Benjamin, avaliamos que as considerações propostas por Benjamin no contexto da cultura da primeira metade do século XX, tinham reverberações importantes na cultura digital do século XXI, sendo essa questão do acesso aos arquivos e a possibilidade da reprodução massiva dos mesmos um fato importante. Podemos imaginar que uma pessoa interessada em copiar e distribuir livremente um disco de rock em 1954 não conseguiria realizar isso tão facilmente quanto fazemos hoje. Afinal, o processo de criação de um disco de vinil não envolvia procedimentos simples que poderiam ser reproduzidos dentro de casa a baixo custo. Com a popularização e barateamento das fitas cassete a

possibilidade da cópia e da distribuição se tornou uma realidade. O mesmo aconteceu com o cd e posteriormente com os arquivos mp3, mas com uma pequena e importante diferença envolvendo o mp3. Copiar um disco de vinil para uma fita cassete era um procedimento relativamente simples, mas nem sempre foi barato. Era necessário possuir um bom aparelho de som e comprar fitas de qualidade que possuíam uma limitação de tempo bem definida (em geral 30, 60 ou 90 minutos). Além disso, aquela pessoa que mantinha cópias de discos de vinil em fitas cassete precisava armazenar fisicamente aqueles objetos, o que envolvia também a possibilidade de se perder seu conteúdo por desgaste ou manuseamento inadequado dos mesmos. O processo com os cds seguiu os mesmos parâmetros. No início era uma tecnologia cara e poucas pessoas podiam comprar um gravador de cd para instalar em seus computadores pessoais. Mas mesmo com o barateamento do hardware e com a maior rapidez e qualidade da gravação em relação à fita cassete, uma questão ainda se mantinha: a necessidade de armazenamento físico e a possibilidade de se perder o conteúdo por problemas na leitura de cds gravados em computadores caseiros. Com o mp3 todos os processos se simplificaram. Se tornou mais fácil e rápido copiar e divulgar arquivos de música, e o problema do armazenamento se tornou cada vez mais simples. Enquanto um cd convencional podia comportar, em geral, 12 a 14 músicas, um cd com arquivos em mp3 poderia armazenar algo como 300 ou mais músicas. Além disso, reproduzir mais e mais cópias dos arquivos mp3 era também um processo simples e barato, o que de certa forma eliminava o risco de se perder aquele conteúdo.

Até o final do século XX muitos cds possuíam proteção para impedir que fosse possível converter o seu conteúdo para o formato mp3, mas rapidamente surgiram

softwares que tornavam possível romper essas travas digitais. A partir daí não foi mais

possível controlar completamente as consequências da disseminação dos arquivos em formato digital. Os artistas e gravadoras, depois de diversas tentativas de limitação de acesso aos arquivos e brigas judiciais, tiveram que aderir ao novo modelo e passaram a vender, ao lado dos cds, também arquivos em formato digital, arquivos que uma vez comprados por uma única pessoa, podem ser distribuídos livremente para muitas outras, de uma forma muito difícil de rastrear e impedir. Vendo a inevitabilidade da mudança e a dificuldade de combater esse sistema de disseminação de dados por meio da internet é natural que a cultura do copyleft cresça em detrimento do padrão mais tradicional do