6. ENCAMINHAMENTOS METODOLÓGICOS
6.4. Aproximação com as colaboradoras da pesquisa
6.4.3. Apresentando as colaboradoras da pesquisa
6.4.3.3. Colaboradora E.C
No dia 26 de fevereiro do ano de 1983, às 5 horas e 20 minutos nasce, na cidade de Santa Maria, uma menina que se chama E.C. Seu nome foi escolhido porque iniciava com a mesma letra do nome da mãe Édila. Sendo a primeira criança nascida na família materna era o centro das atenções, pois desde quando nasci até minha mãe casar-se com o pai de minha irmã moramos na casa de minha avó materna. No ano seguinte nasceu meu primo com quem cresci e brinquei muito durante toda minha infância. Quando tinha quase cinco anos de idade minha irmã nasceu, somos companheiras e ela sempre me acompanhava em minhas atividades. Durante nossas infâncias brincávamos, brigávamos, mas de qualquer forma sempre estávamos juntas; hoje algumas coisas já estão diferentes, pois somos duas pessoas muito distintas, mas mesmo assim continuamos bastante ligadas e sempre uma apoiando a outra. Antes de ir para a escola sempre brincava com meu primo, minha irmã e com uma amiga que morava em frente a minha casa; após iniciar a escola meu grupo de amigos sempre eram colegas de aula com algumas exceções de minhas vizinhas e algumas primas.Quando fiz 6 anos de idade iniciei a pré escola na Escola Estadual de Ensino Fundamental Edson Figueiredo, no turno da manhã, com a professora S. lembro-me de alguns colegas como a Marcela, o Rodrigo, a Fernanda, o Francisco, que foram meus colegas durante todo o ensino fundamental. A professora da pré-escola era uma pessoa maravilhosa, existiam muitos momentos lúdicos naquela sala, mas também lembro da dificuldade que era para ela fazer com que nós largássemos os jogos e brinquedos para poder trabalhar outras atividades; ela fazia atividades para desenvolver diversas habilidades motricidade fina, tato, motricidade ampla, percepção, nos contava histórias e fazia outras atividades que nem lembro. Durante este período eu não tinha nenhum problema quanto freqüentar a escola. No ano seguinte fui transferida para a escola da Cohab Tancredo Neves, pois havíamos nos mudado para lá, não gostava muito da escola, pois tudo era diferente desde a professora, que si quer lembro-me de seu nome ou de sal imagem, os colegas aos quais eu não estava habituada e até mesmo a organização da escola. Na metade do mesmo ano voltamos a residir
no centro e voltei à primeira escola. Senti muitas dificuldades, pois quando voltei a diferença de conteúdos era assustadora, na escola que iniciei a alfabetização, apenas algumas letras do alfabeto haviam sido apresentadas, já na outra turma que eu havia chegado a maioria dos alunos já estavam avançados nos conteúdos e em suas hipóteses de leitura e escrita, trabalhando textos e outras atividades mais complexas que simplesmente a cópia das letras. Eu tinha dificuldades em acompanhar as atividades propostas à turma, mas a professora tentava me auxiliar. Mesmo assim o que mais lembro dela, a professora J., é que as vezes perdia a paciência com a turma, como eu havia entrado posteriormente assustava-me com ela. Com isso, comecei a não querer mais freqüentar as aulas. Minha mãe insistia comigo, mesmo assim precisava levar-me e, as vezes, até mesmo ficar ao lado de fora da sala de aula. Apesar de tudo consegui vencer a primeira série. Durante o resto dos anos iniciais consegui superar as dificuldades que haviam permanecido após a turbulência da primeira série. A professora da 2ª série chamava-se Z., tratava bem seus alunos e era uma pessoa tranqüila, não recordo muitas coisa dela e de suas aulas. Já a professora M da 3ª série era a mãe de um colega, mas isso era uma coisa que nem mesmo fazia alguma diferença para a turma, pois hoje refletindo percebo que ela tratava a todos igualmente. Ela foi a professora mais amorosa que tive durante os anos iniciais, e acredito que aprendi muito com ela, não só conteúdos conceituais e procedimentais, mas os que nunca esquecemos os atitudinais, isso tudo de uma forma diferenciada e com muito carinho. Na minha caminhada do restante do ensino fundamental não lembro de muitos fatos marcantes, apenas que na 6ª série peguei recuperação na disciplina de língua estrangeira (em inglês). Tive professores bons, outros que não lembro nem mesmo sei se os reconheceria hoje, mas nenhum que marcasse este trecho de minha trajetória. Alguns de meus colegas ainda eram os mesmos, mas muita gente já havia passado pelas turmas que freqüentei. O primeiro contanto, que recordo, foi o auxílio que dei a alguém no processo de ensino-aprendizagem foram algumas aulas particulares a uma vizinha que tem necessidades especiais por pedido de seus pais. Eu estava na 6ª série e ela cursava a 2ª série do ensino fundamental. Revisava alguns conteúdos, tentava esclarecer as dúvidas e auxiliava na resolução das atividades de casa.Tive alguns outros contatos com crianças que moravam na redondeza de minha casa. Eu e uma amiga brincávamos de “dar aulas”. Tínhamos um espaço onde arrumávamos como uma sala de aula. Nós nos divertíamos muito e muitas vezes aprendíamos coisas diferentes.Após iniciar a 7ª série troquei de turma para ficar com uma amiga e deixei para traz alguns dos colegas que haviam entrado comigo na escola. Quando iniciei o ensino médio senti um abismo, tanto na questão escolar quanto na vida pessoal. Comecei mudando em meus pensamentos e preferências, pois surgiam novas situações e desliguei-me um pouco dos estudos, não dava tanta importância para alguns deveres e compromissos da nova fase da vida, a adolescência. Além disso, iniciei meu namoro na metade daquele ano. Quanto à organização escolar, atitude dos professores, relação professor-aluno e aluno-aluno eram diferente de tudo que havia vivido até ali. Os professores já não nos tratavam como crianças, mas sim como adolescentes quase adultos e isto era totalmente ao contrário do ensino fundamental. Nós deveríamos nos virar e estudava quem era interessado. Fui mal nos primeiros bimestres, quando me dei por conta tive de estudar muito para passar de ano. Tudo mudou até mesmo meus hábitos de estudo. Com tudo isso, comecei a interessar-me e gostar mais de estudar.Fiz o PEIES, mas não passei e encerrei a escola fazendo vestibular para administração habilitação em cooperativismo, como eram apenas 8 vagas a relação de candidatos por vaga ficou muito alta e não passei. Na verdade fiz as provas para estes cursos por não saber o que queria. No ano seguinte iniciei o curso pré-vestibular e então minha opção para o vestibular já havia mudado descobri que a Psicologia me encantava. Na hora da inscrição optei pela Pedagogia por saber ser um curso próximo do que queria e sua relação de candidato-vaga ser muito mais baixa. Meu pensamento era de apenas aproveitar algumas disciplinas quando passasse para Psicologia. Entrei na Pedagogia. Comecei o curso no 1º semestre do ano de 2002. Tudo era novo para mim. Até então meu sentimento quanto a Pedagogia ainda era o mesmo. O tempo foi passando e conforme se dava minha caminhava o interesse aumentava. Com isso, vi que tinha razão da proximidade entre a pedagogia e a psicologia, mas passei por cima disto e encontrei outros motivos para gostar do curso. Acredito neste curso e nesta profissão. Apesar disso também penso que algumas coisas aqui poderiam mudar, como a questão da aproximação do aluno com a sua prática. Aqui desenvolvemos muitos de nossos conhecimentos teóricos, no entanto, é preciso testá-los. Esta sempre foi uma das maiores preocupações que tive durante a graduação. Por isso, fui atrás de algo que pudesse me dar o suporte de que necessitava.Passei para Psicologia no segundo semestre de 2003 na ULBRA
e cursei algumas disciplinas, terminei o semestre e, por questão financeira, tranquei o curso. Então continuei o curso de Pedagogia e no 5º semestre inicie, juntamente com algumas colegas, um projeto ao qual intitulamos de “A Aprendizagem através do Lúdico”. Começamos a trabalhar com crianças com dificuldades de aprendizagem e trazíamos atividades que iriam desenvolver sua aprendizagem através da brincadeira. Com este projeto podemos estudar vários assuntos e ainda ter algumas experiências; tentamos ter a prática aliada a teoria, pois o que levávamos a eles era pensado conforme suas condições e a cada problema surgido procurávamos estudar sobre tal assunto. Além destes conhecimentos conseguimos desenvolver mais nosso exercício de professor. Quanto mais se aproxima o fim da graduação fico feliz por tudo que construi como futura profissional, no entanto, um novo sentimento surge, o medo. A partir de agora começo a ver-me de forma diferente porque falta muito pouco para entrar no mercado de trabalho e não sei como isto irá se configurar. Espero continuar estudando, pois gosto e necessito e, mesmo assim, espero que não demore muito tempo para trabalhar e continuar construindo mesmos sonhos quanto à educação. Além disso, espero poder algum dia contribuir para mudar a educação e fazê-la cada vez melhor.
Partindo das considerações acima nota-se a importância dos relatos autobiográficos mencionados no sentido de contribuir para o desenvolvimento desta investigação.
O que está em jogo neste conhecimento de si mesmo não é apenas compreender como nos formamos por meio de um conjunto de experiências, ao longo de nossa vida, mas sim tomar consciência de que este reconhecimento de si mesmo como sujeito, mais ou menos ativo ou passivo segundo as circunstâncias, permite à pessoa, daí em diante, encarar o seu itinerário de vida, os seus investimentos e os seus objetivos na base de uma auto-orientação possível, que articule de uma forma mais consciente as sua heranças, as suas experiências formadoras, os seus grupos de convívio, as suas valorizações, os seus desejos e o seu imaginário nas oportunidades socioculturais que soube aproveitar, criar e explorar, para que surja um ser que aprende a identificar e a combinar constrangimentos e margens de liberdade (JOSSO, 2004, p. 58).
Nesta direção, as autobiografias constituem-se em uma forma de aproximação com as colaboradoras. Através desses relatos entende-se ser possível avançar na compreensão de aspectos relevantes aos processos formativos e da construção da identidade profissional das acadêmicas, contribuindo para fundamentar e enriquecer essa pesquisa.