1. CORPO E MODA: SUPERFÍCIES TÊXTIS
1.3. COLAGENS
As relações possíveis sobre as articulações do corpo e da moda no universo contemporâneo abrem caminhos para diferentes formas de experimentações sociais e estéticas. Compreender que a plástica que circunda esses dois corpos se atravessa com a dicotomia das relações dialógicas que ambos produzem é de extrema importância para se chegar à conclusão de que esses dois sistemas produzem e funcionam como linguagem. Segundo Castilho (2009),
Dentro das possibilidades humanas criadas para o fenômeno da comunicação, a moda pode ser compreendida como expressão de um conteúdo e, assim, ela pode ser lida como um texto, que, por sua vez, vincula um discurso. E o corpo, da mesma maneira, também é a expressão de um conteúdo, isto é, um texto que vincula um discurso. Juntos moda e corpo forma uma unicidade textual que sustenta um conteúdo ou, como se disse, um determinado discurso (CASTILHO, 2009, p. 34).
Estamos aqui trabalhando com diferentes formas, cores, texturas e que, em contato umas com as outras, produzem elos discursivos capazes de (re)animar, transformar ou construir mensagens. Embora cada um deles mantenha suas especificidades, em conjunção, são determinantes para a construção de uma comunicação sincrética, de um determinado tempo e de quaisquer variantes social.
Essas mensagens, as do corpo e as da moda, desdobram-se cada vez mais diante do universo da hipermodernidade e são de grande interesse para a análise do corpus dessa dissertação, já que compõem a plasticidade das manifestações da sociedade contemporânea.
A moda repleta de repertório, ora com objeto de deslocamento social, cultural e político, ora como elemento de adorno e decoração, sempre produziu significados e permitiu estabelecer elos de significações, rearticulações e manifestações com outras plataformas de comunicação.
Ao assumir esse posicionamento, entendo que a moda passa a receber, de fato, o estatuto de linguagem, caracterizando-se pelas particularidades que ela assume em determinados contextos nos quais são presentificados ritos e técnicas, costumes e significados que se diferenciam de uma civilização à outra, de grupos sociais a outros, ou ainda de indivíduo a indivíduo, independente da temporalidade pela qual se configura. (CASTILHO, 2009, p. 37).
Nessa perspectiva, o sistema de moda e seu poder simbólico formam um ethos narrativo, capaz de compor ou acompanhar diferentes plasticidades estéticas e, com isso, incorporar a si o poder de ver em suas linhas, texturas e tecidos o descrever da história. Isso tudo porque a liberdade de se reinventar do sistema de moda faz imprimir em cada peça de roupa subjetividades socioculturais de determinada época.
O corpo, por sua vez, ao longo dos séculos, manifestou-se como uma estrutura semiótica a qual está atrelada ao indivíduo, e que a partir dele constrói e instaura significados. Seus diferentes códigos gestuais o normatizam em uma gramática própria capaz de elucidar uma linguagem verbal, desenvolvendo e assimilando referência de diferentes culturas.
Quanto a isso, o corpo pode ser visto como um condutor de hierarquias fundamentadas pelas diferentes situações que experimenta. Essas hierarquias intermediam seus valores culturais, seu comportamento e estipulam um conjunto de regras de sociabilidade e etiquetas históricas.
Capacitado pela ação do gesto, o corpo produz significações e exprime o ser e o estar do sujeito. Desta forma, o corpo é um modo de presença no mundo, protagonizando vários papéis nas diferentes interações humanas, o que implica o fato de requer, nesse processo, a presença do “outro”, um suposto receptor que processa as atividades do corpo: a da recepção e de leitura daquele que se apresenta diante do seu campo de visão. O corpo passa, desse modo, a ser entendido como meio de expressão de um conteúdo articulado, por meio do qual é possível “dizer” ou “significar”, inclusive, o que a palavra, muitas vezes, omite ou não consegue expressar por seus recursos inerentemente característicos. (CASTILHO, 2007, p.79).
Nesse contexto, o corpo, como estrutura primordial do indivíduo e representação dos anseios da sociedade, encontra na moda a possibilidade de amplitude no seu processo
significação. São nas possibilidades tecidas pelo universo da moda, linhas, formas, cores, proporções e volumes que o sujeito personifica discursos, ideias, crenças e saberes.
A associação entre esses dois suportes têxtis, corpo e moda, se estabelece em interações diversas e múltiplas formas de posicionamento e estruturação social que permitem ao indivíduo expressar suas manifestações discursivas no seu circundante. Além disso, tais constatações podem levar o corpo e a moda a meios e sistemas muito poucos explorados, adquiridos por esse processo dialógico, como é o caso da literatura.
A proposta que se enfatiza nessa dissertação quer relacionar a moda como revestimento do corpo e transfiguração da linguagem, a um processo semiótico e sincrético na tradução da obra literária Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, para suportes comunicacionais, no caso aqui, as peças de roupas.
Muito já foi estudado sobre a vestimenta e suas imbricações com outras linguagens, no entanto, a literatura como parte integrante do sistema de moda e suas relações ainda carece de estudos. Diferentes autores de textos literários construíram suas narrativas ancoradas na construção indumentária de seus personagens, isso lhes atribuía certo grau de comparação com a realidade. Como exemplo, podemos citar Marcelo Martins, no prefácio do livro de Kathia Castilho, Moda e linguagem (2007), a qual recupera personagens marcantes das obras de José de Alencar para delimitar um paralelo entre costumes, moda, identidade e tempo.
[...] reportamo-nos as ainda a J. de Alencar, que, sabe-se, escreveu um conjunto de obras que retratam a vida brasileira desde os primórdios até a contemporaneidade do autor. Em relação ao seu momento presente, encontram-se chamados “romances urbanos”. Desses destacam-se os denominados “perfis de mulher”: Lucíola (1862),
Diva (1864) e Senhora (1875). Essas obras presentificam épocas e costumes, mas
vale notar que assim o fazem também pelas modas que nelas circundam nos grupos sociais. Além disso, o colorido da indumentária feminina e o tom sombrio da indumentária masculina constituem verdadeiros percursos de significação: constroem personagens, situam-na num dado ambiente, trazem noções de bom senso e de bom gosto com ares de um tempo e espaço precisos, e por fim, mas não menos importante, descortinam novidades e embasbacam os olhos de quem vê determinados imbricamentos, certas rupturas promovidas no sistema e no processo de inter-relação corpo e moda. (MARTINS, apud, CASTILHO, 2004, p. 24).
A partir dessas considerações, vê-se a possibilidade de conjunção entre os estudos do corpo e da moda com a literatura. Nas obras literárias, observa-se o desnudar da construção social por meio da queda das máscaras que envolvem, não apenas sistemas, mas diversos processos que o universo da moda e a biologia dos corpos são capazes de elucidar através de seus significantes.
Nesses estágios de conjunção, observam-se os diferentes procedimentos que o texto verbal constrói sobre e para seus personagens e que dão visibilidade aos sistemas de moda. O
que nos leva a crer que, em cada fragmento literário, podem ser construídas relações com os estudos da moda e do corpo. Essas conjunções entre expressões, espaços e tempos que figurativam sujeitos, com o seu caráter comunicacional, podem ser consideradas significantes, logo portadoras de sentido.
Para relacionar esses movimentos de significações entre ambos os discursos, da moda, do corpo e da literatura, e de suas manifestações e interações textuais, é preciso recorrer às possibilidades de articulação plástica que garantam a apreensão de seus sentidos e de sua construção. Nesse contexto, o corpo torna-se suporte ideal de discursos, enquanto a moda estrutura e personifica o discurso literário.
Tais considerações nos levam a observar, reconhecer e percorrer um processo que se constitui e edifica acerca do intermédio de efeitos de sentido. Para melhor compreender e consequentemente expandir essa pesquisa recorremos aos estudos ligados à intersemiótica e aos sincretismos culturais.
2 LINHAS: INTERSEMIÓTICA E SINCRETIKA: A MODA E A PALAVRA