2. ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO 8
5.2. COLAPSO LATERAL DO FLANCO NORTE DA ILHA DA MADEIRA 32
Na ilha da Madeira encontram-se várias evidências de deslizamentos e outros movimentos de massa de dimensão variada (RODRIGUES, 2005). Alguns envolvem volumes da ordem dos quilómetros cúbicos de material rochoso. Entre estes, destaca-se o Deslizamento de Porto da Cruz, postulado por GELDMACHER et al. (2000).
No decurso dos trabalhos efectuados no âmbito da Carta Geológica da ilha da Madeira recon-heceram-se evidências de outros dois mega-deslizamentos, de que se dá notícia no presente trabalho e que serão objecto de um artigo científico a publicar futuramente. Foram designa-dos por Deslizamento do Funchal" (referido anteriormente neste texto) e por "Mega-Deslizamento de S. Vicente". Este último terá originado o colapso lateral da ilha, no sector entre Porto Moniz e Ponta de S. Jorge (Fig. 5). De uma forma sucinta, são várias as evidências geomorfológicas que, em nosso entender, apoiam este evento: a forma côncava do litoral e a configuração "em ferradura" da batimetria neste sector; a ocorrência de numerosos vales sus-pensos e ausência de uma plataforma de abrasão marinha que materialize o rápido recuo da costa por erosão litoral; o perfil transversal na foz do vale de S. Vicente, evidenciando uma forma jovem (em "V"); a assimetria na bacia hidrográfica da Ribeira de S. Vicente, com um canal principal de drenagem anormalmente curto; a presença de vários deslizamentos ao longo deste sector de costa (Seixal, Ponta Delgada, Boaventura, Arco de S. Jorge), os quais poderão constituir "replicações" do evento principal. O colapso lateral do flanco norte da ilha da Madeira será mais antigo do que as erupções de Porto Moniz e Seixal (0,39 Ma; FERREIRA et al., 1988) e posterior a outras sequências da CVS2.
Fig. 5 -Esboço morfo-estrutural sintético da ilha da Madeira.
6. HIDROGEOLOGIA
O clima na Madeira é condicionado, principalmente, pela intensidade e localização do antici-clone subtropical dos Açores, desempenhando o relevo, a configuração e a orientação da ilha papéis importantes. O relevo, além do efeito da altitude, induz diferenciação climática local, consequência da configuração alongada da ilha e da sua orientação segundo a direcção E-W,
perpendicular à direcção dominante do vento. Estes condicionamentos produzem tempera-turas do ar e precipitações distintas à mesma cota em encostas com diferente exposição aos ventos dominantes.
Os valores anuais médios da precipitação aumentam com a altitude, sendo, em regra, superi-ores na encosta norte do que na encosta sul, para a mesma altitude. As maisuperi-ores precipitações médias anuais ocorrem na Bica da Cana (1560 m) e no Areeiro (1510 m) com um máximo próximo de 3000 mm/ano; a precipitação anual média para ilha da Madeira é de 1636 mm (PRADA et al., 2003).
Os valores médios da nebulosidade sobre a ilha da Madeira são superiores aos da área marí-tima envolvente, fruto da formação de nuvens e nevoeiros orográficos. O ar húmido maríti-mo, ao encontrar a ilha, barreira montanhosa perpendicular à direcção predominante do vento, sofre uma subida forçada, arrefece adiabaticamente e condensa em pequenas partícu-las suspensas na atmosfera, originando nuvens ou nevoeiros, consoante a condensação se der em altitude ou junto da superfície.
Os nevoeiros orográficos, formados a barlavento da elevação, têm tendência para se dissipar a sotavento. Com uma frequência média de 235 dias/ano, na Bica da Cana, esta persistente cobertura nebulosa desenvolve-se, normalmente, entre os 800 e os 1600 m, podendo atingir altitudes superiores (PRADA & SILVA, 2001).
Para além da precipitação directa sob a forma de chuva, principal fonte de recarga dos aquíferos, existe na Madeira, uma outra fonte de recarga proveniente da intercepção do nevoeiro pela vegetação, designada por precipitação oculta - a vegetação funciona como um obstáculo à passagem dos nevoeiros arrastados pelo vento, proporcionando a retenção das gotículas de água que, por coalescência, adquirem peso suficiente para precipitar no solo. Estudos isotópicos demonstram que a composição das águas subterrâneas resulta da mistura entre água da chuva e água do nevoeiro (PRADA & SILVA, 2001; PRADA et al., 2008, 2009, 2010).
Não obstante a ocorrência, a circulação e o armazenamento da água subterrânea na Madeira apresentarem especificidades decorrentes do carácter heterogéneo e anisótropo, caracterís-tico dos meios insulares vulcânicos, as águas subterrâneas garantem, quase exclusivamente, o abastecimento de água à população. Com uma elevada densidade populacional (245 000 habitantes, e visitada, anualmente, por 865 000 turistas), o volume anual de recursos hídricos subterrâneos, consumido no abastecimento público, indústria, rega e produção de energia é de 185 000 000 m3.
As principais zonas de recarga situam-se nas zonas mais altas da ilha, principalmente nas de menor declive, onde a precipitação atinge valores mais elevados e as formações vulcânicas são mais recentes e, em geral, mais permeáveis, como é o caso do planalto do Paul da Serra, do Chão da Lagoa, da Meia Serra e do Santo da Serra. Nestas zonas, o fluxo é descendente, não saturado, originando aquíferos suspensos sempre que é impedido, pela presença de níveis predominantemente horizontais de permeabilidade reduzida, de prosseguir o seu per-curso.
A partir de uma certa profundidade surge a zona saturada limitada, superiormente, por uma superfície freática e, inferiormente, por uma interface água doce/água salgada, cuja posição
depende da configuração da superfície freática. A localização dos acidentes tectónicos assume grande importância uma vez que se verifica que a circulação subterrânea se faz, preferencialmente, ao longo da rede de fracturas existente, como se observa na galeria da Fajã da Ama, no túnel 4 dos Tornos, no túnel do Norte, no túnel da Levada do Seixal, etc. (PRADA, 2000).
O modelo hidrogeológico conceptual (Fig. 6) considera a existência de dois tipos de aquíferos principais: os aquíferos suspensos, associados a níveis impermeáveis como tufos, tufitos, escoadas muito alteradas, níveis de cozimento em paleossolos, depósitos freato-magmáticos e depósitos sedimentares do tipo lahar. Em certas condições morfológicas e estruturais favoráveis dão origem a nascentes cujos caudais variam ao longo do ano hidrológico, con-soante a recarga; o aquífero de base corresponde a uma extensa lentícula de água doce que flutua sobre a água salgada mais densa. As suas características hidrodinâmicas dependem do complexo vulcânico em que está instalado. Assim, nas unidades mais recentes, o aquífero car-acteriza-se por elevadas transmissividades (1 000 a 25 000 m2/dia) e gradientes piezométri-cos baixos (0,0003 a 0,006). Por outro lado, nas formações mais antigas, na maioria, com pro-dutos vulcânicos mais alterados, o aquífero caracteriza-se por transmissividades mais baixas (10 a 200 m2/dia) e gradientes piezométricos superiores (0,02 a 0,05).
Fig. 6 -Modelo hidrogeológico conceptual para a Ilha da Madeira (PRADA et al., 2005)
Em virtude do vulcanismo na Madeira ser, predominantemente, do tipo fissural, o edifício vul-cânico encontra-se profusamente atravessado por filões subverticais. Daí resulta que o nível de saturação geral da ilha não seja contínuo, mas sim, compartimentado pelos filões, com variações bruscas de potencial entre compartimentos contíguos (PRADA, 2000).
A ligação entre a zona saturada do litoral e a zona saturada do domínio de altitude, que define o aquífero de base, faz-se através de um aumento rápido do gradiente, da periferia para o centro do maciço, devido às seguintes circunstâncias: ocorrência de formações progressiva-mente menos permeáveis para o interior da ilha onde predominam os complexos vulcânicos mais antigos e mais alterados; existência de espessas e extensas formações sedimentares impermeáveis; aumento da quantidade de filões para o interior do edifício vulcânico,
con-tribuindo para a diminuição da sua permeabilidade horizontal; localização das áreas preferen-ciais de recarga, nas zonas altas e planas do interior da ilha (PRADA, 2000).
A captação da água subterrânea processa-se através de perfurações horizontais de grande diâmetro - galerias e túneis - e verticais de pequeno diâmetro - furos - bem como, do aproveitamento do caudal das inúmeras nascentes, através de um sistema de mais de 200 levadas - canais estreitos, escavados na rocha, revestidos a alvenaria - que contornam a ilha, recolhendo e transportando a água numa extensão total superior a 2000 km.
Do ponto de vista químico, as águas subterrâneas da Madeira caracterizam-se, em geral, por
baixas mineralizações, com condutividades eléctricas que vão desde os 30 µS/cm nas
nascentes de altitude, até aos 500 µS/cm nos furos mais próximos do mar. A distribuição espa-cial da condutividade revela um aumento da mineralização das águas com a profundidade e proximidade do mar, reflectindo, a crescente influência dos principais mecanismos mineral-izadores das águas, a hidrólise dos minerais silicatados das rochas e a contaminação por sais de origem marinha (PRADA, 2000).
A maior parte das águas são frias existindo, no entanto, um pequeno grupo de águas termais emergentes em falhas, com caudais muito reduzidos e características hidroquímicas distintas das restantes (PRADA, 2000).
O pH das águas do aquífero de base é superior a 7, indicando carácter alcalino. As águas dos aquíferos suspensos, principalmente as de nascentes de maior altitude, são agressivas, com pH entre 5,5 e 7. Os valores de alcalinidade das águas são, em geral, baixos, variando entre 6 mg/l CaCO3, nas nascentes e 200 mg/l CaCO3, nos furos. As águas das nascentes são brandas (durezas totais inferiores a 50 mg/l CaCO3) e as águas dos furos são pouco duras.
O bicarbonato é, na generalidade das águas amostradas, o anião mais importante, seguido do cloreto. O sódio é o catião mais importante, seguido do cálcio e por fim do magnésio. As concentrações de sílica da ordem dos 5 a 50 mg/l, enquadram-se dentro dos valores nor-mais para regiões vulcânicas. Os mínimos dizem respeito a nascentes suspensas de altitude, onde a extensão da hidrólise é pequena, enquanto os valores mais elevados correspondem a águas captadas em galerias e furos, no aquífero de base.
Nas nascentes de altitude as águas bicarbonatadas cálcicas são as mais abundantes, sendo que as cloretadas também são frequentes. As águas das galerias, dos túneis e das nascentes mais baixas, são do tipo bicarbonatada cálcica e bicarbonatada sódica. Nos furos, situados nos leitos das ribeiras, as águas além da fácies bicarbonatada, apresentam fácies cloretada sódi-ca, tanto mais pronunciada quanto mais próximo do litoral se localizem (PRADA et al., 2005).
7. PERIGOSIDADE GEOLÓGICA
Tecem-se, em seguida, algumas considerações sobre os perigos naturais de natureza geológ-ica que podem afectar a ilha da Madeira, que decorrem das observações efectuadas no decur-so dos trabalhos para a cartografia geológica.
Dos grandes grupos de perigos geológicos, os que se relacionam com a instabilidade de ver-tentes e movimentos de massa ou com inundações relâmpago são aqueles que previsivel-mente poderão induzir maior risco.