Testemunho da espera e do silêncio
Fiigura 7. Coleivo Profanações, IPFMC (Jamille Ovadia Moraes, 2013)
Figuras 8 e 9. Coleivo Profanações, IPFMC (Jamille Ovadia Moraes, 2013)
Dizer o indizível
Após um ano de meio de paricipação no Coleivo Fila, muitas histó- rias pulsavam nos corpos dos estudantes que iam à FASE e escutavam os
familiares nas ilas. Questões sobre a função dessa escuta, sobre o quan- to e o como dessas narraivas nossos corpos eram capazes de sustentar, sobre possíveis capturas por maquinarias de silenciamento, e sobre as produções de memória e de devir dessas experiências eram sempre pre- sentes, tanto nas discussões e vivências próprias ao grupo, como nas re- lações estabelecidas dos integrantes com seus processos de formação e de implicação em suas práicas coidianas. Tentava-se dar conta disso por meio de leituras e seminários, de conversas informais e da escrita de rela- tos das idas às ilas. No entanto, a palavra se fazia sempre insuiciente para comunicar a experiência de ter comparilhado com essas mães, por pelo menos um momento, o cansaço pela espera de longas horas, a invasão de sua inimidade pela revista ínima, a angúsia de não saber o que é de seu direito e o que pode acontecer com sua família, o medo de denunciar abusos e ameaças, ou o sofrimento de ter um ilho torturado pelo Estado.
Nesse desassossego foram produzidas outras linguagens, na ten- taiva de fazer possível esse testemunhar. Poesias, fotograias, diários, desenhos... e teatro. No corpo de uma estudante, membro do Fila e do Profanações, tais afetações e a necessidade de narrar pôde encontrar a in- venção a que o Coleivo Profanações se propunha. De tantas linhas que se enredavam, fez-se teatro, na produção de um acontecimento-experiência em que se pôde produzir uma maneira de levar o experienciado a outros lugares, outros corpos, outras afetações, criando novos encontros com o que se fez possível de ser narrado justamente pela coleivização do corpo que experiencia e testemunha. Isso foi feito numa afetação e num pul- sar de todos os corpos juntos, possibilitando que a performance alorasse como acontecimento; senimos e tecemos outros discursos, produzindo diferenças a fazer com que nada cale, que tudo pulse.
Porém, em registro escrito desse encontro-arte dos dois coleivos, que es- crita permiiria manter os processos em processo? O que permiiria não congelá- -los em forma de narraiva linear, mantendo-os pulsando e produzindo o novo?
Apresenta-se como grande desaio trazer tais experiências, na sua intensidade, em palavras - essa forma de narrar palavreada que sempre mostrou-se insuiciente para tamanho povoamento com que os corpos eram acomeidos. Embora sejam também de encontro, as palavras muitas vezes fazem-se silenciosas demais para o que transborda da fala.
As afetações, como nos tomavam o corpo, eram da ordem do ine- narrável... Inesgotável experiência, para a qual se cria então outra estra-
tégia de produção de senidos. Era preciso que as histórias, em toda sua intensidade, fossem vividas em um tempo e em um corpo realmente cole- ivo, que se criasse por/com esse acontecer. Por isso airmamos: aconteci- mento é o que propomos na criação e airmação do (im)possível de narrar.
Espera, silêncio e testemunho
Figura 10. Apresentação na oicina “Nos caminhos da FASE: famílias violentadas, histórias caladas” . Coleivo Fila, V Semana de Direitos
Humanos do SAJU – UFRGS(Ariane Oliveira, 2013)
Mulidões de mães em um corpo. O corpo, comum, que emerge ao gestar a performance, o acontecimento que vem. E vem? Chocamos, cantamos... meu ilho. Nosso ilho que, na nossa frente, é arbitrariamen- te preso, espancado e levado... para onde? A mãe não sabe para onde. Não sabemos para onde. Um ilho agressivo, como o pai. Mas costumava ser tão atencioso... O que mudou? E a vizinha que teve também seu ilho torturado pelos policiais, decidiu ‘ir atrás dos seus direitos’ e denunciar a situação recorrente na comunidade onde (sobre)vive, dali a um mês a família inteira estava morta.
O que se ouve, o que se espera, o que se conta e testemunha e sente e senta e espera. Senta e espera. Senta... e espera. Espera... Em algumas horas eu vou ver o meu guri.
Que é um guri bom, o meu. Não digo porque sou mãe, não. É por- que ele é bom mesmo, eu conheço ele. É lindo. Olha aqui nessa foto como ele sorri... Mas essa foi antes de trazerem ele para cá. Agora tá todo inchado, com a surra que levou e mais aqueles bicarbonatos que colocam na comida... e ele nem gosta da comida daqui. Diz que não tem o meu tempero, esse de amor de mãe e temperinho verde! Aqui o tem- pero é de nojo e raiva.
Então trazemos as comidas que ele gosta, na verdade é tudo por- caria mesmo, esses salgadinhos. Comida mesmo nem deixam entrar. Aí trazemos essas porcarias, que assim ele vai saber que estamos esperan- do por ele. Que aqui fora tem alguém esperando por ele. Ele pode voltar pra casa.
Esperamos e esperamos e quando entramos, na primeira vez disse até ‘boa tarde’ e nos responderam ‘abre a bolsa ira a roupa agacha’ num mesmo tom ríspido seco sem diferenciar as palavras, sem diferen- ciar as pessoas. Eu tô velha. Somos mãe. Sou agora como qualquer... somos qualquer lixo.
Sentadas esperando aqui, já ouvimos muitas histórias. Como as que nós contamos agora. Como as que vão contar depois.
Aqui é um lugar horrível, mas o que mais eu posso...? Será que é melhor pra ele icar aqui? Não sei mais o que pensar, não consigo... Fiz tudo que pude... O que mais eu posso fazer como mãe?! O meu guri... o meu gurizinho.
Me olha.
A culpa é minha? Silêncio.
Figura 11. Cena-acontecimento Testemunho da Espera e do Silêncio (Ariane Oliveira, 2014)
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