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CAPÍTULO 2: METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO

2.4 A coleta de dados e os procedimentos de análise

Nosso objetivo nesta pesquisa foi estudar as concepções de cultura dos professores brasileiros, assim como suas crenças em relação à cultura do ‘outro’ (neste caso, uruguaios e argentinos), e ainda verificar as contribuições do curso de extensão para as percepções dos professores brasileiros sobre o componente cultural no ensino e aprendizagem de língua estrangeira. Para o estudo de tal realidade, fez-se necessário o uso de instrumentos de investigação que permitiriam um maior alcance da visão dos participantes sobre a situação vivenciada. Com embasamento nos teóricos anteriormente citados nesta seção de metodologia, decidimos pelos seguintes instrumentos de pesquisa:

INSTRUMENTO DE PESQUISA FINALIDADE autobiografia dos participantes (escrita

em forma de perfil dentro do TelEduc)

obtenção de informações sobre os professores no que concerne às suas relações com o ensino e a aprendizagem de línguas e para uma visão acerca do desenvolvimento de seus processos de estudo e formação

questionário aberto com os professores brasileiros (por meio de atividade postada no TelEduc)

obtenção de informação a respeito de crenças sobre cultura, comunicação intercultural, assim como relatos de situações interculturais já vivenciadas

portfólios, fóruns e bate-papos no

TelEduc obtenção de informações a respeito das reflexões dos professores durante o curso de extensão em relação às discussões da temática cultura e aos aspectos culturais vivenciados na prática de teletandem

gravações das interações por meio de programas de áudio ou chat

obtenção de informações acerca da interação oral/escrita entre os pares interagentes e observação das questões culturais presentes nas interações e nas reflexões dos participantes

gravações em áudio das aulas presenciais

obtenção de informações acerca das reflexões sobre aspectos culturais nas discussões das aulas presenciais juntamente com os formadores

relatórios finais de avaliação e auto- avaliação dos professores

obtenção de informações referentes às sessões de Teletandem, às autoavaliações dos professores; às avaliações do processo de Teletandem escritas pelo parceiro uruguaio ou argentino; avaliação dos encontros presenciais.

entrevista final esclarecimento de informações após análise preliminar dos dados Quadro 10: instrumentos de pesquisa

A coleta de dados foi realizada durante o curso de extensão e alguns dos instrumentos estavam inseridos nas atividades da própria plataforma TelEduc, exceto a entrevista final, como pode ser observado no quadro 10. Os portfólios se configuravam como espaço para reflexão dos professores acerca das interações e das atividades do curso. Tanto formadores quando os próprios professores poderiam ler os portfólios36 e dialogar uns com os outros, por meio da ferramenta comentários. Foram realizadas quatro sessões de bate-papo: “A tecnologia e a formação em serviço” (em 22/07/2009), “Comunicação intercultural” (em 30/07/2009), “A formação em serviço e as novas tecnologias” (em 05/08/2009), e “Competência intercultural do professor de ELE” (em 12/08/2009). Foram propostos 10 fóruns de discussão, que contemplavam temáticas voltadas aos assuntos tratados nas aulas presenciais, como mostrado no quadro a seguir:

FÓRUNS DE DISCUSSÃO PROPOSTOS NO TELEDUC ÚLTIMA POSTAGEM

Autonomia (16)37 29/09/2009

A tecnologia e a formação em serviço I (21) 29/09/2009 E-mails e "quebra de gelo" (13) 15/09/2009 Experiência intercultural (21) 09/09/2009 A tecnologia e a formação em serviço II (32) 08/08/2009 Por que algumas parcerias dão certo e outras não? (13) 05/08/2009 Um teletandem para meus alunos? (41) 04/08/2009 Minhas experiências de Teletandem (45) 04/08/2009

36 O portfólio era geralmente público, mas o professor poderia optar por fazer com que suas entradas fossem

vistas somente pelos formadores. Nenhum dos professores fez essa opção durante o curso.

37 Os números entre parênteses indicam o número de postagens feitas pelos professores e formadores no fórum e

Refletir e Compartilhar (33) 30/07/2009

Acordos (20) 30/07/2009

Quadro 11: Temáticas dos fóruns de discussão

Alguns dos dados não foram gerados pelos participantes, por não haverem feito ou completado as atividades propostas, como mostramos na tabela a seguir:



3$57,&,3$17(6 ,167580(1726



%(7+ (/,6$ )$%,$1$ .(,/$ /8&,$1$ 3$%/2 526$1$ 6$1'52 621,$

SHUILO OK OK OK OK OK não fez OK OK OK

DWLYLGDGHV   3 3 3 3 1 1 3 não fez 3

SRUWIyOLRV OK OK OK OK OK não fez OK OK OK

IyUXQV   8 5 10 10 8 10 10 2 10

EDWHSDSRV   4 1 2 1 2 3 3 0 3

JUDYDomRGDV

LQWHUDo}HV (áudio) 8 (não 0 fez) 1 (chat) (não 0 gravou) 7 (áudio) (não 0 gravou) 1 (áudio - gravação com problemas) 0 (não gravou) 8 (1 em áudio e 7 em chats) DXODVSUHVHQFLDLV OK OK OK OK OK OK OK OK OK

UHODWyULRILQDO OK OK OK OK OK não fez OK OK OK

HQWUHYLVWD OK OK OK OK OK não fez OK OK OK

Tabela 1: Instrumentos de coleta de dados e participantes de pesquisa

Em relação ao exposto no quadro, podemos observar que Pablo não completou seu perfil, e por isso não sabemos exatamente o ano de sua graduação e nem temos informações sobre sua experiência profissional. Também não escreveu portfólios, não fez o relatório final e não participou da entrevista, entretanto, sua participação nos fóruns e bate-papos foi bastante expressiva, e, por isso, ele foi mantido como participante de pesquisa. Luciana, Pablo e Sandro não fizeram a atividade sobre cultura, e, portanto, não temos suas concepções de cultura expressas. Entretanto, essa lacuna foi preenchida por meio de suas participações em outras atividades do curso. Elisa não conseguiu fazer interações, pois nunca conseguiu se encontrar com a parceira em um comunicador instantâneo, somente trocou e-mails com ela, mas realizou as outras atividades do curso até o final.

Além disso, a maior parte dos participantes não conseguiu gravar as interações de teletandem, mas relatou sobre elas em seus portfólios. Alguns dos principais motivos que parecem ter afetado a consecução das gravações foram: o desconhecimento de muitos dos professores sobre o funcionamento de tais programas, o que na medida do possível buscou ser sanado pelos monitores do laboratório de teletandem. Alguns dos professores preferiram fazer as interações em suas casas, nos seus computadores pessoais, o que foi permitido, mas posteriormente alegavam que não conseguiam gravar ou que os arquivos gravados apresentavam algum tipo de erro e não poderiam ser reproduzidos. Os próprios programas de

gravação ainda representam uma problemática difícil de transpor porque exigem muito da capacidade de processamento do computador e muitas vezes atrapalham a realização da interação, deixando a comunicação com eco ou cortando a conexão. O programa que se mostrou mais eficaz para gravação foi o Call graph, que grava o áudio da conversação feita pelo Skype automaticamente uma vez instalado ao computador.

A entrevista foi feita em duas partes: uma com os professores conjuntamente, na forma de grupo de discussão, na qual participaram Beth, Keila, Fabiana, Luciana, Sandro e Sonia, e depois, individualmente, para esclarecimentos extras. Rosana e Elisa não puderam participar da entrevista no dia que em que estava agendada, e, portanto, responderam às questões separadamente e nos enviaram por e-mail. Somente Pablo não fez a entrevista.

Por meio do uso de variados instrumentos de coleta de dados, buscamos captar um espectro maior da realidade que se pretendia estudar. Conduzimos a análise dos dados levantando informações relevantes, no que tange aos valores e usos da língua(gem), buscando por meio da visão dos participantes a reconstrução do sentido dado por eles para a interação social vivida no curso de extensão. A abordagem analítica foi de cunho interpretativista, feita, primeiramente, de modo separado, tomando por foco registros coletados por cada instrumento, buscando-se indícios nas falas dos professores que demonstrassem sua concepção de cultura, suas crenças e as contribuições do curso. Ou seja, foram estudadas separadamente todas as atividades, fóruns, portfólios, bate-papos, especialmente aqueles voltados à temática de investigação aqui proposta, assim como as aulas presenciais e as interações que os professores nos forneceram. A partir daí, separamos os excertos coletados em cada instrumento por professor, buscando recorrências em suas falas que nos permitissem a triangulação dos dados e o levantamento de categorias e asserções para cada uma das três temáticas estudadas nas perguntas de pesquisa (concepção de cultura, crenças e contribuições do curso). Utilizamos as tabelas mostradas a seguir para fazer o levantamento dos dados gerados por cada um dos instrumentos de pesquisa para cada um dos nove professores participantes da pesquisa, contendo o excerto que remetia à pergunta de pesquisa, a fonte, ou seja, o instrumento de coleta de dados de onde foi retirado, a concepção de cultura, a crença ou a contribuição trazida e nossa explicação ou teoria de suporte para discussão de tal dado.

Nome do professor

Excerto Fonte (instrumento) Concepção(ões) de cultura

Explicação ou teoria

Nome do professor

Excerto Fonte (instrumento) Crença(s) Explicação

ou teoria

Tabela 3: Levantamento de dados para responder à questão de pesquisa 2

Nome do professor

Excerto Fonte (instrumento) Contribuição(ões) Explicação ou teoria

Tabela 4: Levantamento de dados para responder à questão de pesquisa 3

Posteriormente, buscamos recorrências entre as falas dos professores para estabelecermos as categorias de análise e fazermos as asserções para responder a cada uma das perguntas de pesquisa. Deste modo, a fim de se equacionar com critérios de confiabilidade e validade (MCDONOUGH; MCDONOUGH, 1997), a triangulação das informações provenientes dos vários instrumentos de pesquisa analisados, a fim de responder as três perguntas de pesquisa, foi feita da seguinte maneira:

OBJETIVO DE

PESQUISA PERGUNTA DE PESQUISA TRIANGULAÇÃO DE INSTRUMENTOS APORTE TEÓRICO

Estudar as concepções de cultura dos professores brasileiros 1 – Qual é a concepção de cultura dos professores brasileiros participantes do curso de extensão?

• portfólios dos professores no TelEduc

• fóruns e bate-papos no TelEduc • perfil dos participantes

• gravações das aulas presenciais do curso de extensão

• gravações das interações de Teletandem em áudio ou chat • entrevista

Arcabouço teórico sobre cultura e aprendizagem de línguas construído a partir do levantamento bibliográfico Levantar as crenças, pressupostos e conhecimentos dos professores brasileiros sobre a cultura-língua (língua-cultura) ‘do outro’ (neste caso, Uruguaios e Argentinos) 2 – Quais são as crenças, pressupostos e conhecimentos (Woods, 1996) que esses professores têm sobre a cultura-língua (ou língua-cultura) do outro?

• perfil dos participantes • atividade no TelEduc (cultura) • portfólios dos professores no

TelEduc

• fóruns e bate-papos no TelEduc • entrevista

Arcabouço teórico sobre crenças e ensino de línguas e sobre cultura e aprendizagem de línguas construído a partir do levantamento bibliográfico Verificar as contribuições do curso de extensão para as percepções dos professores brasileiros sobre a relação entre língua e cultura na educação linguística 3 – Quais foram as contribuições do curso de extensão para as percepções dos professores sobre cultura no ensino e aprendizagem de língua estrangeira?

• relatórios finais dos professores • portfólios dos professores no

TelEduc

• fóruns e bate-papos no TelEduc • gravações das aulas presenciais do

curso de extensão • gravações das interações de

Teletandem em áudio ou chat • entrevista

Arcabouço teórico sobre formação de professores, cultura e aprendizagem de línguas e tecnologia e ensino, construído a partir do levantamento bibliográfico

Para a apresentação da análise na tese, optamos por agrupar as concepções e crenças dos professores sobre cultura, assim como as contribuições do curso de acordo com as categorias mais recorrentes, ao invés de apresentá-las para cada um dos professores38. Entendemos que as concepções e crenças são dinâmicas e nosso estudo enfocou um contexto específico de formação continuada que reflete um dado momento profissional destes professores. Acreditamos que se optássemos por atribuir a cada professor uma caracterização de suas concepções e crenças sobre cultura, estaríamos tratando-as como estáticas e plenas e fixando atributos e esquemas de cognição que estão em constante reconstrução na prática cotidiana (que também não se constituía como um dado de pesquisa).

Dessa forma, podemos dizer que a intenção da pesquisa não foi provar hipóteses construídas previamente, mas sim retratar as concepções e crenças sobre cultura expressas pelos professores nas interações com os parceiros, colegas e formadores em diferentes momentos no decorrer do curso, assim como as contribuições deste para o desenvolvimento de sua cognição docente, mostrando o curso de extensão como um todo, ou seja, como um organismo formado por estes participantes específicos. Assim, não buscamos caracterizar as concepções e crenças como antes e depois do curso, uma vez que acreditamos que o próprio fato de fazer parte do curso já poderia estar influenciando, ressignificando ou mesmo alterando suas concepções e crenças. Ao analisarmos as contribuições, buscamos enfocar o potencial de reflexão das atividades providas em uma perspectiva êmica, ou seja, levando em conta a própria visão dos participantes, assim como levantar possíveis lacunas que possam ser preenchidas em próximos cursos.

No próximo capítulo, trazemos a análise e discussão dos dados buscando responder às perguntas de pesquisa.

38 As falas dos professores apresentadas nos excertos foram somente corrigidas em relação à ortografia, para

CAPÍTULO 3: