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1 SOBRE A PARTIDA

2.3 A Coleta De Dados

Foram realizadas as primeiras entrevistas em novembro de 1999. Desde o início deste estudo, busca-se saber quais as significações relativas à dança na escola construídas pelos meninos e meninas adolescentes, que fazem parte do

grupo de dança Che Piá e tentar saber o que dizem as outras vozes (as famílias e os professores) sobre a dança na escola, tentando analisar se elas incidem na (re) significação do espaço escolar. Com todos foram realizadas entrevistas semi-estruturadas que possibilitavam, concomitantemente, um diálogo e, por isso, são chamadas “entrevista diálogo”. Essas entrevistas foram gravadas e transcritas. Encontram-se no arquivo particular e podem ser disponibilizadas ao leitor, caso tenha interesse.

Muitos momentos possuem registros fotográficos. As fotos34 dos alunos

aparecerão entre os capítulos como uma forma de torná-los imagens para que possam, quem sabe, sentir-se “atores de contrato” e, em outro momento, serão parte da análise na reflexão relativa ao gênero e dança, tentando mostrar, através das fotos, quais as danças que podem ser dançadas por meninos, segundo sua própria escolha. Outras fotos ainda farão parte da dissertação na tentativa de situar o leitor em relação à configuração física do espaço escolar e para que tenham a imagem das duas meninas e dos quatro meninos mais presentes nesse trabalho.

Em março de 2002, a coleta de dados seguiu uma dinâmica diferente35. Os

meninos e meninas receberam um questionário, o qual deveria ser respondido pelo grupo e o grupo de dança foi dividido em três sub-grupos. Cada sub-grupo deveria ler suas questões, responder e discutir se desejassem. Nesse momento, o papel do pesquisador seria de observador. Essa discussão foi registrada em vídeo. Foi, ainda,

34

As fotos foram devidamente autorizadas pelos pais dos alunos para a publicação.

35 Em um momento da pesquisa empírica, na tentativa de organizar grupos de discussão, sem a interferência direta do pesquisador, cabendo a este o papel de observador, foram elaboradas as questões da pesquisa e distribuídas para cada sub-grupo, os quais deveriam responder e discutir. Foram formados três sub-grupos. Em outro momento, esses grupos deveriam dramatizar como deve ser uma escola que se goste de ficar. Eles incorporam personagens de diretor, professores e alunos dessa escola imaginária e expressaram como, na sua opinião, ela deveria ser.

proposta ao grupo a tentativa de resolver uma situação limite de um aluno com histórico de infreqüência. Eles deveriam dramatizar essa situação, interpretando personagens da escola, alunos, direção, funcionários, pais. Esse momento teve como objetivo tentar perceber de que forma seria construída a escola pela ótica dos meninos e meninas e, também, tentar compreender como ela está sendo percebida pelos alunos, a escola que está se fazendo hoje, o que falta neste espaço ou, talvez, o que existe em demasia e quais as preocupações que os meninos e meninas possuem em relação ao espaço escolar.

As “entrevistas diálogos” foram feitas com vinte e sete alunos. Entretanto serão suporte para as análises as entrevistas realizadas com os alunos já mencionados, aqueles que permaneceram no grupo mais tempo. As mães entrevistadas são duas, aquelas que mais acompanharam o grupo, aqui chamadas de Silvia e Marta. As duas professoras e a orientadora educacional são aquelas que tiveram os meninos e meninas como alunos no ano de 2002 e são chamadas aqui de Carol e Regina e a orientadora é Gisela. As entrevistas com os professores foram incluídas por sugestão da orientadora e reforçadas pela banca de qualificação do projeto com o intuito de tentar perceber quais significações sobre a dança na escola são construídas pelos demais envolvidos como expressa o professor Nilton Bueno Fischer:

Pois bem, ao longo do texto encontramos essa preocupação em não tornar a arte da dança como um ‘remédio curativo’ aos maus comportamentos da escola. Entretanto caberia aqui problematizar essa perspectiva a partir do que pensam os diversos envolvidos com a inovação proposta neste trabalho36.

Quero ressaltar, ainda, que, no primeiro momento do trabalho, em 1999, eu também desejava que a dança funcionasse como um remédio. Mas a partir do momento em que eu passei a observar os meninos e meninas, percebi que eles demonstravam coisas diferentes daquelas que eu havia pensado, parecia ser ‘algo mais’ e que poderia ter uma conexão com as relações entre os alunos e os professores e dos alunos entre si. Esse ‘algo mais’ me levou à busca das significações no intuito de tentar compreender o que expressavam. Por exemplo: eu não havia planejado que, após a primeira apresentação do grupo, houvessem troca de abraços entre alunos e professores, as lágrimas de uma menina emocionada com a presença da mãe, o gesto delicado de quem ajudava a arrumar o figurino do colega, as correntes de solidariedade diante do desafio, o coração pulsando, o nervosismo, a alegria e a fala de um menino dizendo que estava sendo mais respeitado em sala de aula porque os colegas não mais o “chamavam do apelido”, do qual ele não gostava, a expressão do menino falando do medo de ser chamado de “bicha”. É isso que eu chamo de imprevisibilidade. Dessa forma, foi se constituindo outro modo de ver esses meninos e meninas adolescentes. A dança deixou de ter como objetivo transformar o espaço escolar, ela passou a ser uma atividade que faz parte do contexto escolar e que pode ou não trazer indícios de (re)significação desse espaço. Foi uma visão ingênua da minha parte, mas que fez parte do processo de busca e reflexão em relação ao espaço escolar. Aquele que descreverei a partir de agora.

“É que a minha mãe não quer me ver na rua”. (Artur)

O espaço é a síntese, sempre provisório, entre o conteúdo social e

as formas espaciais. Mas a contradição principal é entre sociedade e

espaços, entre um presente invasor e ubíquo que nunca se realiza

completamente, um presente localizado, que também é passado

objetivado nas formas sociais e nas formas geográficas encontradas”.

(SANTOS, 1999, p. 88).

3 MINHA ALDEIA – A EM ILDO MENEGHETTI