2. ASPECTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
2.2 Pesquisa de campo
2.2.5 Coleta de dados: instrumentos e procedimentos
Segundo Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002), a coleta de dados em estudos de casos ocorre, predominantemente, por meio de entrevistas, as quais devem possuir um instrumento de apoio. Entrevistas (estruturadas, semi-estruturadas ou não estruturadas) consistem na obtenção de dados de um entrevistado, sobre determinado assunto ou problema. Para tanto, o roteiro de entrevista é considerado o instrumento mais apropriado (PATTON, 2002).
Esta pesquisa foi conduzida por entrevistas semi-estruturadas, com o apoio de um roteiro de entrevista. De acordo com Yin (2005), entrevistas semi-estruturadas são mais espontâneas e flexíveis, permitindo uma maior interação entre o pesquisador e o entrevistado,
mas sem que ocorra a fuga do tema. Esse tipo de entrevista torna-se adequada a esta pesquisa justamente pela flexibilidade em captar o maior volume de informações possíveis sobre a relação entre a integração interna para a Gestão da Cadeia de Suprimentos e o fator humano e, também, como o uso das práticas de RH podem contribuir na melhoria da integração interna.
Visando assegurar se os dados obtidos com as questões do roteiro de entrevista contribuiriam para o alcance dos objetivos da pesquisa e, caso contrário, pudessem ser realizadas correções (STRAUSS; CORBIN, 1998), as aplicações definitivas foram precedidas de testes pilotos. O teste piloto do Roteiro 3 (Gestão da Cadeia de Suprimentos) foi realizado com um dos profissionais responsáveis pela Gestão da Cadeia de Suprimentos da Empresa 3. De fato, observou-se que a primeira versão do referido roteiro continha demasiada linguagem teórica, questões repetitivas e, no geral, estava excessivamente longo, o que tornava a aplicação demorada e cansativa para o entrevistado. Mediante tal percepção, a pesquisadora realizou as adequações necessárias, corrigindo a linguagem e reduzindo a quantidade de questões. O mesmo profissional foi convidado a responder o novo roteiro, complementando apenas as informações que não estavam previstas no roteiro da primeira abordagem. Quanto ao Roteiro 2 (Recursos Humanos), o mesmo foi validado por uma profissional da área, com 20 anos de experiência empresarial e acadêmica. As sugestões referiram-se aos mesmos aspectos observados no teste piloto do Roteiro 3. Ademais, a pesquisadora concluiu que a caracterização da área de RH prevista na primeira versão do Roteiro 2 estava além dos propósitos centrais da pesquisa. Consequentemente, o referido roteiro foi também reformulado.
O roteiro final de entrevista (Apêndice B) foi subdivido em três roteiros, cada qual visando a um sujeito de pesquisa e a um propósito:
• Roteiro 1 – Caracterização geral da empresa: destinado à pessoa de contato inicial que gerou a abertura para a pesquisa na empresa. Objetivou a obtenção de informações sobre a caracterização geral da empresa, buscando levantar variáveis que pudessem ser relacionadas com os resultados obtidos nos demais roteiros;
• Roteiro 2 – Gestão de Recursos Humanos: destinado ao profissional de Recursos Humanos. Estruturado em três partes: (1) caracterização geral da área e nível de interação com as demais áreas, (2) caracterização das práticas de RH desenvolvidas pela área e (3) caracterização da interação da área com a Gestão da Cadeia de Suprimentos;
• Roteiro 3 – Gestão da Cadeia de Suprimentos: destinado ao gestor de cadeia de suprimentos ou função equivalente. Estruturado em três partes: (1) caracterização
geral da função, (2) caracterização da integração interna para a Gestão da Cadeia de Suprimentos e (3) caracterização da interação da função com a área de Recursos Humanos. A parte um objetivou aferir a formatação da função na empresa, e a parte 2, o cenário de integração interna para a Gestão da Cadeia de Suprimentos. Em ambos buscou-se relacionar as informações obtidas com o fator humano e, de maneira geral (incluindo a parte 3), a contribuição da área de Recursos Humanos. Previu-se também captar as decorrências reais ou a percepção dos entrevistados no caso da ausência dessa contribuição.
As questões foram formuladas com base na revisão da literatura realizada e também objetivando a interação entre os tópicos teóricos. A formulação buscou também privilegiar a narrativa livre da pessoa entrevistada, tentando reduzir a interferência da pesquisadora. O Quadro 13 apresenta a associação entre as questões presentes nos Roteiros 2 e 3 (Apêndice B) e nos Roteiros 4 e 5 (Apêndice C) e os tópicos teóricos desenvolvidos no capítulo da revisão da literatura (Capítulo 3).
Quadro 13 - Relação entre as questões dos roteiros de entrevista e o referencial teórico da tese
R ev is ão d a lit er at ur a (C ap ít ul o 3)
Pontos teóricos Roteiro de entrevista Questões
Integração da Cadeia de Suprimentos Roteiro 3 Roteiro 5 1, 3, 4, 5, 8, 11 1, 2 Integração interna na Gestão da Cadeia de
Suprimentos
Roteiro 3 1, 2, 4, 5, 6, 8, 9 Roteiro 4 3, 4, 5
Roteiro 5 3, 4, 6, 7 Fatores facilitadores da integração interna
Roteiro 3 3, 4, 6, 9, 10, 11, 12 Roteiro 4 6, 7
Roteiro 5 4 Barreiras à integração interna
Roteiro 2 18, 18a
Roteiro 3 6a, 7, 8, 9, 10, 11, 12a, 13a, 16 Roteiro 4 5, 6, 7
Roteiro 5 4, 5, 6
Influência do fator humano Roteiro 2 Roteiro 3 15, 20, 20a, 22, 4, 5, 6a , 7, 12, 14, 13, 13a,16 Interação entre a Gestão de Recursos Humanos
e a Gestão da Cadeia de Suprimentos
Roteiro 2 17, 18, 18a, 19, 20 Roteiro 3 14, 18, 19
Roteiro 5 8
Gestão de Recursos Humanos: práticas de RH Roteiro 2 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16 Práticas de RH na integração interna para a
Gestão da Cadeia de Suprimentos
Roteiro 2 19, 20, 20a, 20b, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 26a, 27 Roteiro 3 15, 16, 17, 19
Contribuições para a melhoria da integração
interna Roteiro 3 15, 16, 17, 18, 19
Fonte: elaborado pela autora
Seguindo as indicações de Flynn et al. (1990), Patton (2002) e Stuart et al. (2002) sobre a necessidade de interação pessoal entre o pesquisador e o entrevistado, as entrevistas
foram realizadas in loco e na forma presencial em todas as empresas da amostra. Como nenhuma das entrevistas com os diferentes profissionais foi realizada no mesmo dia, a pesquisadora esteve presente pelo menos duas vezes em cada uma das empresas. Essas idas tornaram-se momentos oportunos para a observação direta e captação de informações relevantes para a pesquisa além daquelas previstas nos roteiros de entrevista. Por exemplo, em cinco delas foi possível observar o layout e a dinâmica das áreas administrativas. Estas percepções foram importantes para a discussão dos fatores facilitadores e/ou barreiras para a integração interna.
A fim de possibilitar o diálogo livre entre a pesquisadora e os profissionais entrevistados, as entrevistas foram gravadas em áudio para posterior transcrição. A flexibilidade mantida nessa fase possibilitou que os entrevistados abordassem espontaneamente pontos previstos nos roteiros de entrevista, não necessariamente seguindo uma ordem linear de perguntas e respostas. De fato, privilegiou-se o diálogo, respeitando a linha de raciocínio do entrevistado. Ao final do encontro a pesquisadora solicitava permissão para confirmar no roteiro de entrevista se todos os pontos haviam sido contemplados e, caso contrário, eram retomados. Foram também realizadas anotações de campo ao final de cada ida às empresas, tornando-se material complementar de coleta de dados.
Quanto ao número de entrevistados, Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002) orientam que não há como indicar um número exato de entrevistas, pois esse depende da situação sendo investigada e do quanto o pesquisador considere necessário para entender a situação problema. No total, 15 profissionais foram entrevistados, somando 23 horas de gravações. Além daqueles diretamente envolvidos com a Gestão da Cadeia de Suprimentos e a área de Recursos Humanos, houve ainda a oportunidade de serem entrevistados um Diretor Geral (Empresa 6), um Diretor de Processos, Tecnologia da Informação e Compliance (Empresa 2) e um Diretor de Supply Chain (Empresa 3). Para os profissionais das Empresas 2 e 3 foram elaborados roteiros de entrevista complementares com questões considerando suas áreas de atuação e possíveis contribuições para a pesquisa (Apêndice C). Com o profissional da Empresa 6 foi aplicado o Roteiro 1 e algumas questões do Roteiro 3.
Somadas as visitas às fabricas, às áreas administrativas e às demais instalações, o tempo total de permanência nas empresas foi algo em torno de 30 horas. Após a transcrição das entrevistas, verificou-se que algumas respostas não estavam claras ou, até mesmo, algumas questões não tinham sido contempladas. A participação dos profissionais foi novamente requisitada e as informações complementares foram obtidas via telefonema e troca de e-mails, inclusive em alguns casos com envio de documentos internos da empresa.
A fim de conferir maior confiabilidade aos dados e conclusões dos estudos de casos, o uso de outras fontes de informação é recomendado. Segundo Yin (2005), os pontos fracos das diferentes fontes de evidência justificam a triangulação de dados. Os específicos da entrevista são: (i) vieses devido a questões mal-elaboradas, (ii) respostas viesadas, (iii) imprecisões devido à memória fraca do entrevistado e (iv) reflexibilidade – o entrevistado dá ao entrevistador o que ele quer ouvir. Patton (2002) propõe quatro tipos de triangulação: (1) triangulação de dados - uso de diferentes fontes de dados, (2) triangulação de pesquisadores - uso de diferentes pesquisadores ou avaliadores, (3) triangulação da teoria – uso de múltiplas perspectivas para a interpretação de um mesmo conjunto de dados e (4) triangulação metodológica – uso de diferentes métodos de pesquisa para o estudo de um mesmo problema. Esta pesquisa realizou a triangulação de dados, utilizando como fontes de dados complementares a análise documental e a observação direta, ambas consideradas ideais em pesquisas com o método de estudo de caso (BARRATT; CHOI; LI, 2011). O Quadro 14 sintetiza os procedimentos adotados para a coleta de dados em cada uma das empresas componentes da amostra de pesquisa.
Para a análise documental, os documentos foram obtidos de acordo com a disponibilidade das empresas em fornecê-los. Alguns puderam ser observados somente internamente, no momento das entrevistas ou das visitas às instalações. Porém, permitiu-se a anotação das informações neles contidas. Houve também a possibilidade de acesso a softwares da área de Gestão da Cadeia de Suprimentos. Já as observações diretas desta pesquisa foram tanto formais, por meio de visitas às áreas industriais e administrativas, quanto informais, por meio de conversas antes e após as entrevistas e visita às demais instalações da empresa (YIN, 2005).
Ao final, cada uma das 15 entrevistas foi transcrita de maneira literal, registradas no programa de edição de texto Word. Somadas às anotações de campo da observação direta mais a complementação de alguns pontos obtidos posteriormente às entrevistas presenciais, as transcrições resultaram em pouco mais de 300 páginas.
Casos Profissionais entrevistados Tempo total
das entrevistas Análise documental Observação direta
Empresa 1 - Gerente de Supply Chain
- Coordenadora de Gestão de Pessoas 3 horas
- Documentos digitais obtidos na Internet: histórico da empresa, informações setoriais, política de gestão de pessoas e demonstrações financeiras
- Duas visitas para a realização das entrevistas
- Observação da área administrativa
Empresa 2
- Gerente Executivo de Originação - Gerente Executiva de Recursos Humanos
- Diretor de Processos, TI e
Compliance
4 horas
- Documentos digitais obtidos na Internet: histórico da empresa, negócios do grupo, demonstrações financeiras e governança corporativa
- Acesso à intranet de documentos referentes às políticas de RH - Documentos sobre a Metodologia do Programa de Desenvolvimento de Lideranças
- Quatro visitas para a realização das entrevistas
- Observação da área administrativa
Empresa 3
- Gerente de Planejamento de Demanda, Vendas e Operações (PDVO)
- Gerente de Recursos Humanos - Diretor de Supply Chain
5 horas
- Documentos digitais obtidos na Internet: histórico da empresa, políticas de qualidade, portfólio de produtos
- Acesso interno a documentos referentes à área de PDVO: plano de vendas (semanal e mensal), planejamento do EBTIDA - Acesso interno ao documento referente ao Programa de Participação nos Resultados (PPR)
- Três visitas para a realização das entrevistas
- Observação da área administrativa - Visita à instalação destinada aos treinamentos internos e demais instalações
- Visita técnica à fábrica
Empresa 4 - Gerente de PPCP
- Supervisor de consultoria de RH
4 horas e 30 minutos
- Documentos digitais obtidos na Internet: histórico da empresa, portfólio de produtos, informações setoriais
- Acesso interno a documentos referentes à estruturação da
holding
- Documentos sobre a estruturação da área de Recursos Humanos
- Duas visitas para a realização das entrevistas
- Observação da área administrativa
Empresa 5 - Gerente de Supply Chain
- Analista de Recursos Humanos
2 horas e 30 minutos
- Documentos digitais obtidos na Internet: histórico da empresa, políticas de qualidade, portfólio de produtos
- Acesso a informativos internos: jornais editados pela empresa
- Duas visitas para a realização das entrevistas
- Visita à instalação destinada aos treinamentos internos
Empresa 6
- Gerente de Supply Chain - Gerente de Recursos Humanos - Diretor Geral
4 horas
- Documentos digitais obtidos na Internet: histórico da empresa, políticas de qualidade, portfólio de produtos, distribuidores - Acesso interno ao software da área de Supply Chain para controle de compras entre empresa e fornecedores
- Acesso interno a documentos referentes à área de RH: análise e descrição de cargos, política de remuneração
- Duas visitas para a realização das entrevistas
- Observação da área administrativa e demais instalações
- Visita ao Centro de Treinamentos - Visita técnica à fábrica