3 METODOLOGIA
3.4 Coleta de dados na pesquisa de campo e seu tratamento
Face às limitações decorrentes da acessibilidade e da disponibilidade dos sujeitos da pesquisa, em contraste com o grande número de profissionais (ver Tabela 7), aliado ao fator tempo, necessário à coleta e tratamento de dados em uma pesquisa qualitativa, principalmente quando se faz uso de entrevistas, optou-se, no presente estudo, por enfatizar a aplicação de questionários mistos, ou seja, com questões fechadas e/ou abertas. Esta opção teve o propósito de restringir essas limitações, permitindo que os sujeitos respondessem os questionários de forma individualizada, de acordo com a sua disponibilidade de tempo, além de permiti-lhes inserir comentários que julgassem convenientes ao esclarecimento de sua visão sobre aquilo que lhe era perguntado.
Entretanto, a opção pelo emprego somente de questionários foi realizada com a consciência plena do que ALVES-MAZZOTTI (1999, p. 168) esclarece sobre a possibilidade do emprego de questionários e entrevistas nesse perfil de pesquisa, assim como dos possíveis
benefícios dessa prática, em especial, quando as “entrevistas bem pouco estruturadas [...]
porque o investigador está interessado em compreender os significados atribuídos pelos sujeitos”. Assim, foi possível proceder a uma abordagem quanti-qualitativa sobre os dados coletados no campo que o estudo requer, adotando, para esse fim, a metodologia da análise de conteúdo (Bardin, 1977) no tratamento dos dados.
A abordagem complementar quantitativa foi realizada com base na análise descritiva dos resultados das respostas às questões objetivas do questionário aplicado, buscando sempre subsidiar, de forma inter-complementar, a análise qualitativa dos mesmos resultados. A análise qualitativa, por sua vez, teve como foco principal o conteúdo dos comentários apresentados pelos respondentes, nas questões abertas.
Antes de chegar à sua versão final, reproduzida no APÊNDICE D, o questionário aplicado na pesquisa de campo foi submetido à análise de seis juízes46, todos com formação
46 Destaca-se que este termo não corresponde, neste momento, ao cargo de juiz, mas aos profissionais que colaboraram que dominam o tema e a metodologia adotada.
acadêmica reconhecida. Visando a facilitar a etapa de exploração e tratamento dos dados coletados, o questionário foi dividido em sete partes (ver Tabela 8 a seguir), de acordo com temas previamente definidos, conforme a metodologia da análise de conteúdo (Bardin, 1977). Além disso, considerando que a pesquisa de campo envolve diferentes atores que atuam no Sistema de Justiça Criminal, as questões foram padronizadas de forma a favorecer o confronto e a análise das respostas dos sujeitos da pesquisa.
Do total de 25 questões, as cinco primeiras destinaram-se à identificação dos respondentes; as Questões nº 6, 10, 21, 24 e 25 foram do tipo exclusivamente fechado; as questões de nº 22 e 23 foram do tipo exclusivamente aberto; e as demais foram do tipo misto (fechadas e abertas), sendo elaboradas em escala de classificação do tipo Likert, de cinco posições, quais sejam: a) concordo totalmente, b) concordo parcialmente, c) não concordo nem discordo, d) discordo parcialmente e d) discordo totalmente.
Para Oliveira (2005), as questões elaboradas em escala Likert são utilizadas como um mecanismo de medida capaz de aferir o grau de concordância e de importância atribuído pelos respondentes em suas respostas, razão pela qual esse mecanismo foi utilizado para mensurar a percepção dos sujeitos da pesquisa sobre os diversos aspectos que envolvem o objeto deste estudo. Conforme já abordado, a adoção desse procedimento não foi realizada com o intuito de obter dados quantitativos, mas de fortalecer o qualitativo com técnicas complementares, da mesma forma como se optou pelo emprego de gráficos visando a facilitar a leitura qualitativa, a partir de comparações ilustrativas.
Finalizada a fase da coleta de dados, esses foram submetidos a tratamento e à interpretação quanti-qualitativa de seus conteúdos, utilizando-se, para esse fim, do método de análise de conteúdo, tendo em vista sua possibilidade de admitir, segundo Bardin (1977), ambas as abordagens. Na aplicação deste método, buscou-se seguir as etapas propostas pela referida autora, quais sejam: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados obtidos e interpretação.
3.4.1 Pré-análise
Segundo BARDIN (1997, p. 95), esta “é a fase de organização propriamente dita”, na qual o pesquisador, baseado em suas intuições, busca operacionalizar e sistematizar as ideias iniciais com o objetivo de criar um esquema preciso para o desenvolvimento das operações sucessivas, num plano flexível de análise. Dentre as atividades propostas por esta autora para se proceder à pré-análise, o pesquisador realizou as seguintes:
a) Leitura flutuante: leitura geral e exploratória do referencial teórico, quando o pesquisador deixa-se invadir por impressões e orientação obtidas em seus textos; b) Escolha dos documentos: seleção dos documentos que serão submetidos ao
processo de análise. Face à natureza exploratória e descritiva do presente estudo, após a leitura flutuante foram selecionados os materiais, segundo a regra de pertinência, que permitiram descrever, de forma ampla, a estrutura do Sistema de Justiça Criminal brasileiro, apresentando os termos e conceitos necessários à compreensão desse processo de autonomia no país;
c) Formulação das suposições e dos objetivos: no presente caso, as suposições foram construídas ao longo da construção do referencial teórico;
d) Preparação do material: trata-se da preparação do material antes de sua análise propriamente dita. Para esse fim, os comentários apresentados pelos respondentes nas questões abertas foram tabulados e segregados no Excel de acordo com o grupo de respondente e com os respectivos temas e questões.
3.4.2 Exploração e tratamento dos dados obtidos
De acordo com BARDIN (1997, p. 101), a exploração do material “consiste essencialmente de operações de codificação, desconto ou enumeração, em função de regras previamente formuladas”. Esta fase é vista por Dellagnelo e Da Silva (2007, p. 107) como um momento fundamental na pesquisa, pois é por meio dela que o pesquisador deixa claros os procedimentos que serão utilizados para sustentar suas interpretações e conclusões.
Para HOLSTI apud BARDIN (1977, p. 103), “a codificação é o processo pelo qual os dados são transformados sistematicamente e agregados em unidades, as quais permitem uma descrição exacta das características pertinentes do conteúdo”. Dellagnello e Da Silva (2007, p. 107) consideram-na como o primeiro momento da etapa de exploração e análise do material, quando são, então, definidas as unidades de registro ou de contexto, as regras de quantificação ou de enumeração e a classificação ou a escolha de categorias (categorização). Trata-se, portanto, de um processo de desagregação da mensagem em seus elementos constitutivos, os quais correspondem ao segmento do conteúdo considerado unidade base de análise, visando algum tratamento posterior, principalmente para facilitar a interpretação dos resultados.
No presente caso, foram utilizados o ator e o tema como unidades de registro. Como ator foram considerados os próprios sujeitos da pesquisa, principalmente em razão do papel e das constantes interações que têm com a atividade pericial. Quanto ao tema, esta unidade de
registro corresponde aos aspectos escolhidos pelo pesquisador como essenciais para identificar a percepção dos sujeitos da pesquisa em relação ao objeto da pesquisa. Nesse contexto, BARDIN (1977, p. 105) diz que o tema “enquanto unidade de registro, corresponde a uma regra de recorte (do sentido e não da forma) que não é fornecida uma vez por todas, visto que o recorte depende do nível de análise e não de manifestações formais reguladas”. Ainda sobre o tema, esta autora diz que ele é geralmente utilizado para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências, dentre outras, além de ser frequentemente utilizado como base de análise das respostas em questões abertas. A Tabela 8 abaixo relaciona os temas selecionados para serem submetidos à apreciação dos sujeitos da pesquisa, bem como os objetivos e questões a eles correspondentes.
Tabela 8 - Objetivos das análise temáticas e questões correspondentes
TEMA OBJETIVO QUESTÕES
Tema 1: Perfil dos sujeitos da pesquisa
Identificar as principais características do perfil dos sujeitos da pesquisa, tais como: nome (facultativo), cidade e órgão de lotação, tempo de serviço no atual cargo e se já exerceu, além da atual, outra função no Sistema de Justiça Criminal
1 a 5
Tema 2: Relevância da prova pericial para a efetividade do Sistema de Justiça Criminal
Identificar o grau de relevância da prova pericial em relação às demais provas, comumente utilizadas nos processos penais
6 a 9
Tema 3: Principais usuários da
prova pericial Identificar os principais usuários da prova pericial 10 Tema 4: Análise das dimensões
conceituais do termo “autono- mia” e suas inter-relações
Identificar as inter-relações que existem entre as dimensões conceituais do termo “autonomia” aplicado à Perícia Oficial.
11 a 15 Tema 5: Inserção da Perícia
Criminal Oficial na estrutura da PF e seus reflexos sobre a imparcialidade da função pericial
Identificar se o fato de a Perícia Criminal Oficial estar inserida na estrutura da Polícia Federal compromete de alguma forma o requisito da imparcialidade do Perito Criminal Federal
16 a 18
Tema 6: Reflexos da autonomia da Perícia Oficial s/ a efetividade do Sistema de Justiça Criminal
Identificar se os respondentes vislumbram alguma relação entre a autonomia da Perícia Oficial e a efetividade do Sistema de Justiça Criminal, quanto à resolução dos crimes e à redução da impunidade.
19 a 23
Tema 7: Posição da Perícia Criminal Oficial na estrutura do Sistema de Justiça Criminal e seu processo de autonomia
Verificar se os respondentes são favoráveis à desvinculação da Perícia Oficial da estrutura da Polícia Federal e, caso positivo, que posição o novo órgão pericial deve ocupar no Sistema de Justiça Criminal
24 e 25
Fonte: Questionário aplicado.
Levando-se em conta o objetivo desta pesquisa e, principalmente, o fato de a tabulação de frequência ser insuficiente numa análise qualitativa, optou-se pelo uso das seguintes regras de quantificação ou enumeração: (i) presença (ou ausência) de elementos ou termos; (ii) intensidade, por meio da análise dos tempos verbais, dos advérbios e dos
adjetivos; e (iii) direção, principalmente, nas respostas às questões que pretendem verificar se os respondentes são favoráveis ou desfavoráveis a determinados pontos relacionados ao objeto da pesquisa. Vale salientar que essas regras serão aplicadas na análise das respostas, de acordo com o tipo de questão apresentada aos sujeitos da pesquisa.
Finalizando o processo de codificação, a categorização foi realizada de forma progressiva, após o trabalho de campo, quando os elementos com características comuns, identificados nos comentários apresentados nas questões abertas, foram reagrupados à medida que as análises temáticas foram sendo realizadas. Dentre os critérios de categorização apresentados por Bardin (1977, p. 118), no presente caso predominará o semântico, ou seja, de acordo com o significado dos termos, por ser mais adequado aos objetivos deste estudo.
3.4.3 Interpretação
De acordo com os pólos de análise propostos por Bardin (2002), o presente estudo, em razão de seus objetivos, focou a metodologia da análise de conteúdo sobre os grupos de emissores (peritos, delegados, procuradores e juízes) e, principalmente, sobre o conteúdo da mensagem por eles apresentadas nas respostas aos questionários.
Em razão da forma intercomplementar que a abordagem quanti-qualitativa é aplicada neste estudo, adotou-se a orientação apresentada por Pagés (1987) apud Dellagnello e Da Silva (2007) no sentido de recusar-se a separar o objeto de estudo em objetivo ou subjetivo, assim como a considerar o discurso como unicamente individual ou coletivo. Ou seja, em vez de optar de maneira exclusiva por uma ou outra direção de análise, pretende-se, na verdade, identificar como se processa suas interações. Mas, para esse fim, conforme já abordado nas palavras de Alvez-Mazzotti, será necessário buscar na aplicação desta metodologia o
equilíbrio entre “rigor e relevância”.