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COLETA DE DADOS: O LABIRINTO DA TRANSPARÊNCIA NA

3. ANÁLISE DO PARADIGMA DO RACISMO INSTITUCIONAL

3.4. DESAFIOS PARA UMA SEGURANÇA PÚBLICA PAUTADA NOS DIREITOS

3.4.1. COLETA DE DADOS: O LABIRINTO DA TRANSPARÊNCIA NA

Enquanto na Inglaterra um pesquisador pode ter acesso a dados sobre a criminalidade desde 1829, no Brasil um pesquisador deve percorrer um longo caminho burocrático com preenchimento de formulários, assinatura de termos de compromissos e cartas de apoio institucional para acessar bancos de dados incompletos, muitas vezes sem coesão de dados entre um ano e outro. Para, no final, ainda constatar que os bancos de dados da Saúde e de Jornais são bem mais relevantes para a Segurança Pública, do que os próprios dados das Secretarias de Segurança Pública.

E este não é apenas um problema local, ou regional, e sim nacional. Historicamente no Brasil, a Segurança Pública vem sendo trabalhada em segredo. Há diversos casos, nos quais antigos Secretários de Segurança quando deixavam o cargo, levavam os documentos das bases de dados consigo para casa, sobretudo durante a Ditadura Militar em vários estados brasileiro.

Durante muito tempo no Brasil não se trabalhou uma sistematização de dados quantitativos e qualitativos referentes a diversas variáveis importantes para se

pensar hoje em uma “segurança cidadã”, possivelmente por nunca querer que a segurança seja um instrumento democrático. Até hoje não constam em muitas Unidades Federativas relatórios de patrulhamentos, com número de pessoas abordadas, muitas delegacias não informam a cor/raça das vítimas nas ocorrências, só constando o do agressor quando é necessário para sua identificação. Mais recentemente a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), vem unificando os dados para a consolidação de um banco de dados único.

Nas Centrais de Inquéritos dos Ministérios Públicos chegam muitos inquéritos com informações insuficientes para se prestar denúncias, e muitas vezes quando se pedem novas diligências estes não retornam mais. Apesar do controle externo não ser bem-vindo pelas polícias, os promotores precisam manter cobrança para proceder com seus encaminhamentos. Um fator facilitador na obtenção de dados junto ao Ministério Público da Paraíba é que sua base de dados é informatizada, capaz de produzir relatórios quantitativos com a escolha das variáveis, porém esta base não dispõe de dados referentes à cor/raça dos infratores, pois este é um dado muito pouco catalogado nos Inquéritos Policiais.

Para se obter informações sobre quantos jovens negros de 15 a 24 anos morreram em 2009 vítimas de arma de fogo temos que recorrer ao SIM/DATASUS, que muitas vezes apresentam o lugar do óbito referente ao hospital no qual foi atendido, desta forma o local da violência permanece sendo uma lacuna. As Secretarias de Segurança Pública e a SENASP apresentam alguns dados fragmentados ou já analisados, não permitindo a elaboração de testes mais especificas para trabalhar as hipóteses desta pesquisa. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e a Central de Informações Sociais também costumam disponibilizar dados de outras pesquisas.

O Estatuto da Igualdade Racial vem propor que os dados referentes à cor/raça dos indivíduos façam parte dos bancos de dados dos Sistemas de Saúde, de Educação e da Segurança Pública, o que possibilitará trabalhar de forma mais adequada estes dados no futuro.

Quanto ao levantamento de dados qualitativos, foram feitos resgates de relatórios de vistoria de entidades internacionais de direitos humanos e da sociedade

civil organizada, tais como Anistia Internacional, ONU e Human Right Watch e pesquisas acadêmicas. Relatórios estes que os governos estaduais se empenham apenas em refutar, dando descrédito às metodologias e às legitimidades dos fatos, mas não ousam apresentar contraprovas.

O fato dos altos oficiais da Polícia Militar da Paraíba ser bem instruídos, além de muitos deles buscarem uma integração com o espaço acadêmico, sobretudo com a Universidade Federal da Paraíba, foi um elemento facilitador para ter acesso à formação dos soldados e aspirantes a oficiais, acesso às instalações do Centro de Treinamento de Oficiais da PMPB, e na realização de reuniões sobre temas pertinentes ao estudo, bem como os desafios e progressos da instituição. Elementos que compõem o corpus da presente pesquisa. Todavia os oficiais representam apenas 6,83% do efetivo da Polícia Militar da Paraíba. É inegável, e impressionante, como estes agentes recebem uma formação exemplar, com aulas de direitos humanos, ciências jurídicas, planejamento estratégico, mediação e resolução de conflito, entre outras, representando uma elite diante de um contingente de 15.965 policiais59.

Fosse este o preparo de toda a corporação, possivelmente teríamos um paradigma bem distinto do descrito pela literatura, apesar do preparo não representar um elemento eficaz de suprir outras deficiências. Pois mesmo assim não poderíamos constatar nossa hipótese inicial como nula, pois quando objeto de estudo são pessoas deve-se manter a atenção para as projeções idealizadas, pois relatos paralelos apresentam violações aos direitos humanos mesmo entre estes policiais graduados.

O cotidiano constantemente relatado nos periódicos brasileiros em geral é o do envolvimento de policiais com o crime e, conseqüentemente, a generalização de um triste perfil do policial: violento, corrupto, ignorante, hostil […] a violência policial é praticada em todo o planeta. Mesmo países desenvolvidos como a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão são acusados de práticas criminosas por parte de suas polícias contra os indivíduos (BACILA, 2004:66-67).

É evidente que não pode ser generalizado o envolvimento da polícia com atividades ilícitas. Tampouco, podemos imaginar esta corporação como imaculada,

59 Conforme a Lei Estadual de Nº 7.165/02 o efetivo da PMPB foi fixado em 1.090 oficiais e 14.875 praças devendo atingir esta meta até o ano de 2005.

mesmo em seus mais elevados escalonamentos. A Polícia Militar também sofre influência da política, pois certas posições são ocupadas por pessoas mais próximas a determinados grupos e, por vezes, determinadas concessões dependem de posturas específicas que favoreça a quem o cargo lhe foi confiado.

A polícia cidadã teria um banco unificado ou bancos inter-relacionados. Também sobre essa questão dos bancos de dados e a produção das estatísticas, na polícia de controle o uso das informações segue a regra do segredo, de não repassar informações, de deixar escondido, de não ter a transparência. Já a polícia cidadã colocaria a base de dados disponível, socializada, permitindo o acesso de estudiosos e pesquisadores. Essa cultura do segredo precisa ser redefinida e instalada nas organizações a fim de não representar uma dimensão de poder (BENGOCHEA, 2004:125)

Os praças, por estarem mais próximos da violência, também estão mais propensos a adotarem posturas autoritárias. Os soldados, cabos e sargentos são submetidos mais ao confronto direto, além de sofrer cobrança direta; estes profissionais, muitas vezes, devem se submeter a situações constrangedoras quando cometem alguns erros e, muitas vezes após isso, vão para as ruas cumprir seu oficio com os ânimos alterados.

A realização de entrevistas com soldados, cabos ou sargentos foi inviabilizada por alguns elementos. Entre os principais problemas, encontramos a dificuldade de conseguir uma lacuna na dinâmica da atividade destes profissionais, que comumente se constituiu na jornada de atividades de rua e folga, onde os raros momentos entre trabalho e descanso, buscassem dedicar ao treinamento ou a atividades internas. Para conseguir realizar entrevistas ou aplicação de questionários seria necessário pedir ao comandante do batalhão selecionar praças e agendar em sua rotina um tempo para esta atividade.

Portanto, nestas condições, provavelmente o entrevistado iria responder aos questionamentos de uma forma que não o comprometesse, e muito menos apresentasse falhas em sua corporação. Aferir o comportamento racista é, de fato, um desafio, pois as pessoas até admitem que existe racismo, no entanto poucas pessoas se reconhecem racistas.

Constatar que a Polícia Militar da Paraíba não realiza uma seletividade preconceituosa em suas abordagens e respeita a dignidade humana iria configurar a hipótese da pesquisa como nula, no entanto representaria um grande avanço para

os direitos humanos. Um policial pode achar que criminosos não tem cor nem raça, mas pode acreditar que policiais negros não um rendimento tão bom para a atividade policial. Apesar desta hipótese não aparentar coerência, pois ao que indica, o espírito de união acaba prevalecendo, somado ao valor “bravura” que é muito estimado entre os policiais. Todavia é duvidoso pensar que a manifestação do racismo se manifesta apenas de fora para dentro, mas nunca de dentro para fora.