3. PROCEDIMEN TO METODO LÓGICO
3.2 COLETA DE DADOS
3.2.1 Grupo focal
Foi a partir do coletivo “ESCUTA – O Som do Compositor” que se considerou a realização do grupo focal para a coleta de dados. Em um primeiro momento, devido a possibilidade de reunir músicos da cena autoral e independente que já haviam tido vivência em comum, sendo o ponto de partida, o próprio grupo. Desta forma, buscou-se ampliar as informações do campo levando em consideração o conjunto de suas falas no que diz respeito a possíveis concordâncias e divergências diante do tema discutido em coletividade.
O grupo focal seguiu as orientações de Bauer e Gaskell (2002, p. 79) tomando por modo de condução:
Estimular os participantes a falar e reagir àquilo que outras pessoas do grupo dize m. (...). É um debate aberto e acessível a todos: os assuntos em questão são de interesse comum; as diferenças de status entre os participantes não são levadas em consideração; o debate se fundamenta em uma discussão racional (...) e em uma troca de pontos de vista, ideias e experiências, embora expressas emocionalmente e sem lógica, mas sem privilegiar indivíduos particulares ou posições.
O grupo focal contemplou seis participantes, contou com uma moderadora, que teve como função conduzir a discussão por meio de tópicos guia como disparadores de falas e comentários dos participantes, e uma facilitadora. Conforme Gondim (2003), contar com um facilitador durante o grupo focal é essencial, haja vista sua disponibilidade, enquanto observador e não condutor da discussão, de validar a investigação por meio de intervenções pertinentes.
Ele foi realizado no mês de novembro de 2017, na cidade de Porto Alegre/RS, em uma sala privada e reservada e teve a duração de duas horas e dez minutos. Os tópicos guia contemplaram questões relativas a como se constitui o trabalho de músico da cena autoral e independente, a experiência de trabalho no coletivo em questão – “ESCUTA – O Som do Compositor” – e aos processos de produção, distribuição e consumo da música.
O primeiro acesso aos músicos se deu a partir de um dos fundadores do coletivo, o qual repassou os contatos de telefone e redes sociais dos músicos que se encontravam ativos na cena. Para a formação do grupo focal considerou-se a disponibilidade dos participantes. A dinâmica de agendamento apresentou-se como um desafio, visto a dificuldade de compatibilidade de agenda dos participantes. Por este motivo foram convidados músicos um número expressivamente maior do que aquele que constituiu o grupo focal.
A configuração e a condução do grupo focal possibilitaram a ampliação de informaçõ es sobre trabalho dos participantes na cena autoral e independente; o conhecimento da lingua ge m específica deste meio e a expansão da discussão para tópicos não previamente estabelecidos que, conforme o andamento do grupo, também foram vistos como relevantes para a reformulação de perguntas das entrevistas semiestruturadas, etapa subsequente da coleta.
Uma possível aceitação/rejeição por parte dos demais participantes, pareceu causar, ora certa hesitação, ora certa exacerbação na abordagem de assuntos delicados a fim de salientar e m seus posicionamentos, convencerem os demais a respeito do mesmo ou até desconstruírem seus pontos de vista para si e para os outros. Tal fato enriqueceu a coleta, haja vista que, na entrevista individual, a relação com o participante, em geral, se restringe a um(a) pesquisador(a) que não faz parte da sua rede de trabalho.
Notou-se que o grupo focal não se limitou a reflexões e conclusões relativas ao conteúdo produzido, alcançando, também e principalmente, uma potência no sentido de propiciar aos participantes, inclusive, contribuições imediatas como a manutenção de redes de contato para além do trabalho, ação de reavivar projetos passados, reflexão de sua trajetória individual e emancipação enquanto coletivo.
Gomes e Galego (2006) compreendem que é possível, como resultado das interações ocorridas no grupo focal, que os participantes vivenciem, além de um momento de fala, escuta, debate e troca de opiniões, um certo tipo de autodescobrimento e emancipação. O grupo focal não se limita tão somente a um espaço de debate acerca de um determinado tema, permitindo, também, que “os participantes construam e reconstruam os seus posicionamentos em termos de representação e de atuação futura” (GOMES; GALEGO, 2006, p. 179).
Destaca-se que os participantes mencionaram outros coletivos da cidade e do estado dos quais fazem parte músicos com características similares. Foi a partir desta informação que se ampliou a possibilidade de escolha do coletivo “Autoral Social Clube”, até então não levado em consideração, como fonte de informação para as entrevistas semiestruturadas.
3.2.2 Entrevista semiestruturada
A escolha pela entrevista semiestruturada se deu em virtude de a técnica possibilitar a obtenção de dados tanto objetivos, quanto subjetivos, sendo estes últimos, relacionados a valores, atitudes e opiniões dos participantes do estudo. Um dos instrumentos mais usuais no trabalho de campo, a entrevista foi, também nesta pesquisa, compreendida e realizada “como uma conversa a dois” (MINAYO, 2001, p. 57).
Para além dos participantes do grupo focal, contatou-se outros músicos da cena autoral e independente para a realização das entrevistas semiestruturadas. Tais músicos fizeram parte tanto do “ESCUTA – O Som do Compositor” quanto do “Autoral Social Clube”. Os participantes foram acessados pela técnica denominada bola de neve, tendo como ponto de partida indicações provenientes do grupo focal. Tal técnica possibilitou que os participantes já entrevistados indicassem possíveis outros participantes tendo como base sua rede de relacionamentos, conforme as recomendações de Freitas et al. (2000).
Foram oito os participantes entrevistados. Esse número seguiu a lógica de saturação, e cessou quando os dados obtidos na coleta passaram a se apresentar redundantes ou repetitivos. Um roteiro básico para a entrevista semiestruturada foi elaborado com base nos objetivos propostos e no referencial adotado e encontra-se no apêndice A do presente estudo. As entrevistas semiestruturadas possibilitaram compreender como se dá o trabalho do músico da cena autoral e independente e a cadeia produtiva da música nesta cena pela via do trabalho imaterial diante da sociedade do hiperespetáculo, bem como a estratégia de viver a vida decorrente deste contexto. As entrevistas duraram aproximadamente uma hora e vinte minutos,
variando entre cinquenta minutos e uma hora e quarenta minutos. Todas foram realizadas pessoalmente, a maioria na residência dos músicos, outras em cafés da cidade. Data e horário das entrevistas foram escolhidos preferencialmente pelos participantes e aconteceram entre março e abril de 2018.
As entrevistas foram conduzidas conforme orientações de Minayo (2001) e ao início de cada uma solicitou-se que fosse preenchido o termo de consentimento, salientou-se que a entrevista seria gravada e que o sigilo seria mantido. Não houve impedimentos para a gravação. Durante a entrevista os participantes mostraram-se colaborativos e solícitos para a conversa. A maioria interessou-se em receber os resultados estudo.