4 PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS
4.1 COLETA DO CORPUS
O corpus a ser analisado neste trabalho foi coletado durante o XVIII Festival de Violeiros de Serrinha, realizado em 16 de dezembro de 2006. Esta edição conta com a participação de quatro duplas: Miguelzinho e Leandro Tranqüilino, representantes de Serrinha (BA); Paraíba da Viola e Davi Ferreira, de Ichu (BA); Nadinho e Antônio Maracujá, de Riachão do Jacuípe (BA); Antônio Queiroz e Lavandeira, representantes de Valente (BA). Essa era a configuração que se apresentava quando da realização desse festival, mas, atualmente, para 2007, algumas mudanças foram empreendidas: agora Serrinha é representada por Miguelzinho e Zé Pedreira, enquanto Ichu conta com Davi Ferreira e Flávio Ferreira, e Salvador volta a ter participação no Circuito, sendo Paraíba da Viola e Leandro Tranqüilino os responsáveis pelos eventos na capital. Dentre os cantadores, apenas Leandro não era associado ao circuito na época em que a coleta de dados aconteceu, mas sempre se fez presente, inclusive substituindo colegas que porventura não podiam comparecer.
A pesquisa aqui empreendida teve início em agosto de 2004, a partir do registro do XVI Festival de Serrinha, entretanto, o distanciamento entre a coleta dos dados iniciais e o desenvolvimento efetivo do projeto motivou a necessidade de apresentar dados atuais, de modo a retratar a situação vigente na cantoria baiana, justificando então o recorte dado ao festival supracitado. Entretanto, tanto o trabalho de campo desenvolvido em cada cidade onde ocorriam os festivais, quanto as cantorias de pé-de-parede presenciadas, contribuíram para
uma observação apurada, obtida a partir do contato direto com os cantadores, com a produção de cada evento e, mais que isso, com o universo onde estão inseridos os sujeitos sobre os quais se debruça esse trabalho. Foi a observação direta que evidenciou a necessidade de viabilizar registros das imagens, pois percebeu-se que a simples coleta de áudio não seria suficiente para retratar a cena enunciativa em que se desenvolvia cada discurso. Mais uma vez, foi a análise das imagens produzidas que evidenciou a impossibilidade de registro e recuperação de todos os elementos presentes em cada situação.
Os registros em áudio e vídeo foram produzidos pela autora com autorização dos responsáveis pelo evento. Para a gravação do áudio, utilizou-se um aparelho de MP3 com gravador digital, da marca Dynacon, com capacidade para 128 MB. O tipo de gravação usado foi WAV, com, aproximadamente, 5 minutos de duração cada um. Posteriormente, procedeu- se à conversão de WAV para MP3, utilizando o programa MUSICMACHT JUKEBOX, de modo a facilitar o envio das informações para CDs32. A gravação em vídeo foi feita em filmadora SAMSUNG SC-D352 através de miniDVs33 SONY — pequenas fitas —, com gravações do tipo SP,34 resultando em 180 minutos de vídeo. O material foi armazenado em um microcomputador através do programa Windoms Movie Maker, possibilitando o envio das imagens para DVDs35.
Zumthor (2000, p. 17-19) avalia o impacto dos meios eletrônicos, auditivos e audiovisuais sobre a vocalidade e os relaciona à escrita por três motivos: a) normalmente suprimem a presença do portador da voz; b) ultrapassam o presente cronológico ao transmitir uma voz reiterável, indefinidamente, de modo idêntico à produzida in loco; c) dispõem de recursos que permitem o apagamento de referências espaciais da voz viva, podendo compor um espaço artificial para o desenvolvimento da voz midiatizada. Conclui que a perda ocasionada pelos media refere-se à ―corporeidade, o peso, o calor, o volume real do corpo, do qual a voz é apenas expansão.‖
O registro dos dados foi realizado pela autora e se revelou fonte de aprendizagem contínua. Disposta a construir seu próprio corpus, embrenhou-se no mundo da cantoria e passou a acompanhar os cantadores, não apenas nos momentos em que se dispunha a desenvolver sua pesquisa, mas, também, quando era convidada para participar de eventos que
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Abreviatura utilizada para Compact Disc, que apresenta a capacidade padrão armazenar entre 700 ou 800 MB.
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Abreviatura utilizada para Mini Digital Vídeo, um formato de fita magnética usada para armazenar vídeos em formato digital. Cada fita mini DV armazena entre 60 e 90 minutos de vídeo (conforme o tipo de gravação), com 520 linhas horizontais de resolução, uma qualidade semelhante à do DVD.
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Modo de gravação que permite uma melhor qualidade da imagem, utilizando cada fita por até 60 minutos.
35 Abreviatura utilizada para Digital Versalite Disc, apresentando a capacidade padrão para armazenar 4,7 GB de
envolviam aspectos tanto profissionais quanto pessoais. Vista, a princípio, com reservas por aqueles que estão cansados de figurar apenas como material de pesquisa, sem serem observados como sujeitos, aos poucos conquistou a confiança de todos e sua presença passou a ser requisitada. A participação, inicialmente tímida, com um caderninho e uma caneta, foi ganhando espaço e dispondo dos meios possíveis para registrar os eventos, como gravador, câmera fotográfica e filmadora. A opção por responsabilizar-se inteiramente pelos registros demonstrou-se um aspecto dificultador. Como saber quando cabia gravar ou quando isso poderia significar desrespeito aos seus momentos de dor? Como munir-se de caderno, caneta, gravador, câmera fotográfica, filmadora e atenção para tudo que acontecia? Às vezes, a fita do gravador acabava, a caneta falhava, o botãozinho de gravar não era acionado, a foto saía ruim, o áudio era inaudível, a imagem ficava escura demais, o holofote queimava justamente no final do evento, não dava tempo anotar todas as participações, era chamada para controlar o tempo e se via às voltas com todas as funções, que se imaginava capaz de desempenhar. A aparição em cada novo evento era um misto de satisfação, diante de uma nova oportunidade, e de receio de repetir os erros cometidos anteriormente. Administrar todos os sentidos e tentar manter-se pesquisadora acima de tudo, sem perder seus objetivos, mostrou-se tarefa hercúlea, porém foram as dificuldades vividas que fortaleceram ainda mais a certeza de que o trabalho valia a pena, e que a confiança depositada em si pelos sujeitos ali presentes não poderia ser desperdiçada. O compromisso firmado precisava ser cumprido, e o medo de não conseguir caminhava lado a lado com a vontade de apresentar o complexo processo de produção dos repentes.
Embora o objetivo maior seja perceber a constituição dos ethè nos festivais, o que envolveria apenas o material produzido durante a realização destes, buscou-se, também, entrevistar os cantadores cujos repentes estão sendo analisados, assim como outros que também participaram dos eventos do circuito ou de outros que apresentavam uma configuração próxima. Algumas entrevistas foram realizadas em meio à organização dos eventos, mas, muitas vezes, devido ao envolvimento dos possíveis entrevistados com as questões práticas, foi preciso recorrer a outras situações. Estas, sempre acordadas conforme a disponibilidade dos entrevistados, simbolizam momentos de descontração, mas também de formalidade, pois, naquele momento, os papéis sociais ocupados pelos interlocutores os coloca em posições relativamente inversas: é o cantador quem tem a contribuir com o seu saber, enquanto o entrevistador faz perguntas que julga serem necessárias para obter as informações que considera importantes. Entretanto, por vezes, a conversa ganhava contornos que não haviam sido previstos, evidenciando um dos aspectos dos gêneros produzidos na
oralidade: o planejamento textual pode ser apenas parcialmente previsto e programado, pois cabe também à situação de interação a responsabilidade pelo resultado a ser obtido. Desse modo, também, nas entrevistas, buscou-se perceber como se dá a constituição dos ethè dos repentistas perante o entrevistador, tendo este como representante do auditório universal, visto que compreendem que o que disserem também será ouvido por outras pessoas, comprometendo-se a pesquisadora, inclusive mediante termos de autorização assinados pelos cantadores, a manter-se fiel ao conteúdo lingüístico coletado.