3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.4 COLETA DOS DADOS
A pesquisa narrativa experimentou crescimento entre os pesquisadores, especialmente entre os qualitativos, sobretudo porque é capaz de expor uma estória organizada e sequenciada em eventos e ações reunidos por um enredo (Polkinghorne, 1995). Desta forma, justifica-se a escolha da pesquisa narrativa, dado o interesse na análise das narrativas midiáticas sobre a Operação Lava Jato.
Finalmente, com o intuito de resumir e visualizar as escolhas para a execução desta pesquisa, apresenta-se a seguir o quadro 3 com as principais características relacionadas à classificação e ao delineamento da pesquisa.
QUADRO 3 – RESUMO DAS ESCOLHAS METODOLÓGICAS Características Classificação Razões para escolha
Abordagem Qualitativa
Análise de fenômeno inserido em uma realidade social, objetivando a sua interpretação, compreensão e explicação.
Delineamento Causalidade
Explicação causal do fenômeno, provendo meios de entendimento dos processos que levam à compreensão das situações e eventos que influenciam e encadeiam os fenômenos estudados.
Temporalidade
Transversal com aproximação longitudinal
A justificativa está associada ao conhecer como a mídia noticiou a Operação Lava Jato, e os aspectos concernentes, desde a sua deflagração até uma data específica, caracterizando um período de tempo.
Estratégia Pesquisa narrativa
As narrativas estão inseridas no cotidiano, onde tudo pode ser conceituado como tal.
Nesse sentido, a pesquisa narrativa analisa como estórias são disseminadas e expostas.
FONTE: O autor (2019).
Os procedimentos relativos à coleta de dados estão dispostos na sequência.
3.4 COLETA DOS DADOS
A coleta dos dados é a etapa dentro da pesquisa científica que busca se certificar que boas informações sejam angariadas para responder as questões de pesquisa (CRESWELL, 1998). Está também relacionada ao acesso aos dados, contando com a experiência do pesquisador em interpretar e verificar as fontes e a robustez das informações coletadas (STAKE, 1995). Salienta-se, contudo, que neste
processo há possibilidade de utilização de mais de uma fonte para obtenção e coleta de dados para posterior análise (COLLIS; HUSSEY, 2005).
Sendo assim, em consonância ao objetivo desta pesquisa, a coleta de dados baseou-se em dados secundários (COOPER; SCHINDLER, 2003). Antes, porém, da coleta propriamente dita aos veículos midiáticos, a partir de um levantamento inicial, averiguou-se várias mídias consultadas e constatou-se que os canais on-line são considerados os meios de maior acesso para a busca de informações, quando, por exemplo, há necessidade de consulta acerca de escândalos corporativos. Devido a esse conhecimento, foram escolhidos três veículos midiáticos – dentre os indicados no levantamento realizado: Revista Carta Capital, Revista Veja e Revista Exame.
A escolhas destes três agentes deu-se por um conjunto de fatores.
Primeiramente, com a finalidade posterior de analisar as narrativas emergentes de cada canal, ansiava-se por veículos que apresentassem diferentes focos de política editorial – esse foco será melhor delineado em seção própria no capítulo 4. Nesse contexto, as três revistas selecionadas apresentam focos bastante específicos quanto aos temas de seu interesse de veiculação, o que corrobora para os fins desta pesquisa. Por conseguinte, outro fator determinante estava ancorado em selecionar revistas de grupos editoriais diferentes, sendo a Carta Capital, deste modo, pertencente à Editora Confiança enquanto as outras duas, Veja e Exame, ao grupo Abril. Esperava-se com isso encontrar visões para um mesmo evento, neste caso a Operação Lava Jato, em busca dos sentidos e significados atribuídos por cada revista à operação. Além disso, optou-se por revistas que dispusessem de conteúdo em formato on-line, em consonância com o indicado no levantamento realizado. O acesso a esses veículos deu-se por meio do site Go Read, disponível no endereço www.goread.com.br, por meio do qual foi possível acessar todo o conteúdo on-line das revistas supracitadas. O site dispõe de um acervo de revistas on-line, dentre as quais encontram-se as escolhidas para este trabalho.
Tratando-se aqui da Operação Lava Jato como caso de wrongdoing organizacional, selecionaram-se todas as matérias de capa a partir da deflagração da Operação em 17 de março de 2014 até 30 de novembro de 2018 para as revistas acima citadas. A razão para a escolha das capas é que as mesmas evidenciam a importância dada pelas revistas à Operação Lava Jato, podendo-se com isso avaliar a visibilidade do assunto perante os outros veículos midiáticos aqui selecionados (ROCHA; BOROSKI; CARVALHO, 2017).
Não obstante, uma seleção inicial de todas as menções feitas à Operação Lava Jato pelos veículos selecionados, resultou em um volume de dados altíssimo; uma primeira pré-análise demonstrou que havia muitas repetições e, dado que o objetivo da análise não se referia a trabalhar com volume, frequência e repetição de palavras/ideias, e sim narrativas e significados traduzidos, optou-se por selecionar as reportagens de capa. As reportagens de capa geralmente têm por objetivo em um veículo de mídia destacar um conteúdo e chamar a atenção da audiência, dando a tônica do que será veiculado. Assim, entendeu-se que esse era um critério relevante para a pesquisa em tela.
Face ao exposto, os dados passaram por três etapas de apreensão. Para a primeira etapa, consideraram-se todas as reportagens que tivessem alguma menção à Operação Lava Jato e aos seus possíveis envolvidos a julgar pela aparição destes termos nas manchetes de capa e nas pequenas chamadas expostas na capa das revistas. Diante dessa primeira aproximação e leitura foram coletadas 94 edições da Revista Carta Capital, totalizando 1636 páginas de conteúdo, 158 edições da Revista Veja com 2495 páginas e, por fim, 25 edições da Revista Exame, que correspondeu a 378 páginas. Nesta etapa, o montante coletado foi de 277 edições compondo 4509 páginas de conteúdo.
Na segunda etapa, os dados foram organizados por revista em uma planilha de dados. Fez-se novamente uma leitura de todas as reportagens coletadas para analisar se a reportagem era considerada adequada para compor a base de dados. Utilizou-se como diretrizes para o julgamento da adequação das reportagens coletadas os seguintes critérios: (1) se a notícia era de fato uma reportagem de capa e (2) se os registros continham informações acerca da Operação Lava Jato e/ou seus envolvidos.
Após este procedimento, definiu-se o montante de reportagens coletadas a saber: 76 edições da Revista Carta Capital totalizando 1297 páginas de conteúdo, 129 edições da Revista Veja com o equivalente a 2081 páginas e, finalmente, 13 edições da Revista Exame, com 178 páginas. Ao final desta etapa restaram no total 218 edições correspondendo a 3556 páginas de conteúdo. O quadro 4 resume a quantidade encontrada em cada etapa de apreensão dos dados referentes aos dois primeiros momentos.
QUADRO 4 – RESUMO DAS ETAPAS DE APREENSÃO
Veículos de mídia Primeira etapa Segunda etapa
Revista Carta Capital 94 edições - 1636 páginas 76 edições – 1297 páginas Revista Veja 158 edições - 2495 páginas 129 edições - 2081 páginas Revista Exame 25 edições - 378 páginas 13 edições - 178 páginas TOTAL 277 edições - 4509 páginas 218 edições - 3556 páginas
FONTE: O autor (2019).
De conhecimento do total de edições a serem analisadas – oriundo da segunda etapa – procedeu-se assim a terceira etapa de apreensão – e leitura, realizada com o auxílio do software atlas.ti, usualmente utilizado em análises de conteúdo (SALDAÑA, 2013). Ressalta-se, contudo, que a partir dos princípios da análise de conteúdo, os dados foram codificados e organizados para posterior análise. Saldaña (2013, p. 9) destaca que “codificar é organizar coisas em ordem sistemática, para fazer algo parte de um sistema ou classificação, para categorizar”. Frente a esse conhecimento os dados foram categorizados e organizados para posterior análise, levando-se em conta quatro categorias (1) como a Operação Lava Jato era descrita e os envolvidos mencionados; (2) como os papeis eram caracterizados; (3) o foco ou interesse de cada revista e, por fim, (4) quais informações que pudessem externar as narrativas emergentes em cada uma das revistas.
Faz-se necessário salientar que neste trabalho a técnica de análise de conteúdo, propriamente dita, não foi utilizada no sentido de sua aplicação estrita.
Ademais, apoderou-se de seus princípios para a operacionalização da pesquisa, conforme explanado. Por meio disso, e dos procedimentos acima mencionados, foi possível criar um arcabouço de informações que permitiram análise dos dados, a ser apresentada na próxima seção.