I. CONCEITOS
II.1. Aspectos Metodológicos
II.1.3. Coleta e Análise/Processamento da Matéria-Prima
A pesquisa foi apresentada inicialmente ao responsável pelo dispositivo de saúde pela pesquisadora. Após seu consentimento, para a inserção no serviço, e aprovação do projeto no comitê de ética, deu-se a entrada no campo para o desenvolvimento do estudo.
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a narrativa que, de acordo com Dutra (2002), tem sido bastante utilizada nos meios acadêmicos como forma de pesquisa, sendo definida como uma experiência contada pelo narrador e ouvida pelo outro, o ouvinte, que por sua vez conta o que ouviu, transformando-se em narrador. É um método que permite ao pesquisador se aproximar da experiência tal como ela é vivida pelo narrador (os interlocutores da pesquisa), mantendo os valores, impressões e percepções presentes na experiência narrada, presentes na história do sujeito e transmitida naquele momento para o pesquisador.
Para Brockmeier e Harré (2003), o interesse pelo estudo das narrativas nas ciências humana teve impulso na década de 1980, se caracterizando como critério (linguístico, psicológico, cultural e filosófico) fundamental para a explicação da natureza e das condições da existência humana. E, com isso, crescendo em importância, abrindo possibilidades para a criação de novos paradigmas no campo das ciências.
Os autores citam que é, sobretudo, por meio da narrativa que se tem a oportunidade de entender os mais diversificados e diferenciados contextos da complexa existência humana, por se constituir como uma estrutura aberta e flexível, que permite ao pesquisador analisar com precisão aspectos básicos dessa complexa existência, que, geralmente, não são levados em conta pela ciência.
Onocko-Campos et al. (2013b, p.2848) ressaltam que muitos estudos têm destacado a narrativa como “uma ferramenta essencial na construção de significados para a existência humana e demonstram a importância do seu uso como forma de descrever experiências vividas, especialmente em relação ao adoecimento”.
Diante disso, Onocko-Campos e Furtado (2008) trazem algumas concepções de teóricos a respeito da narrativa: para Ricouer a narrativa se constitui como um processo mediador entre a experiência viva e o discurso; Burke atribui a narrativa como mediação entre estrutura (as instituições, os modos de pensar, que podem retardar ou acelerar os acontecimentos) e acontecimento; Guimarães e Leal colocam que a narrativa é mediação entre indivíduo e sociedade, se constituindo como “um dispositivo poroso da interlocução” (p.1093); e por fim, Kristeva destaca que a narrativa é um processo fundamentado na ação e na palavra, na qual uma nunca pode aparecer sem a outra.
Desse modo, Dutra (2002) aponta que a narrativa não se limita a uma lembrança acabada de uma experiência, ela se constitui como uma reconstrução da experiência na medida em que a mesma é narrada.
Outra técnica adotada para a colheita de dados foi a elaboração de diários de campo que, como citam Barros e Kastrup (2009), é uma prática de grande valor para a pesquisa, pois essas anotações contribuirão para a produção de dados, e têm a função de transformar o que é vivido e frases colhidas na experiência de campo em conhecimento e modos de fazer, havendo, assim, uma transformação da experiência em conhecimento e conhecimento em experiência.
Como afirmam Barros e Kastrup (2009), os diários de campo aparentemente se caracterizam como um processo individual, no entanto, aos poucos, vão revelando claramente sua dimensão coletiva, quando no texto se faz menção às cenas, falas e diálogos que emergem da imersão do pesquisador no campo. Assim, o diário de campo foi uma estratégia fundamental para a circunscrição dos resultados da pesquisa, pois contou com uma escrita firmada na experiência.
Com isso, foram feitas anotações, a partir da entrada em campo, nos diários de campo, gravações das narrativas e narrativas escritas dos participantes da pesquisa, uma vez que, a pedido dos interlocutores, algumas narrativas não foram gravadas.
Ao final da coleta de dados, que aconteceu no período de outubro/2016 a janeiro/2017, foi feita a transcrição do material gravado (pela pesquisadora) e a sistematização dos diários de campo, destacando os registros pertinentes à questão de pesquisa durante a imersão em campo. Nesse sentido, a coleta de dados foi acontecendo no contexto dos encontros da pesquisadora com os interlocutores da pesquisa.
No que tange às narrativas, antes de iniciar a gravação, foi solicitado aos interlocutores, quando estes eram os usuários, que falassem sobre a sua concepção a respeito do uso do medicamento psicotrópico no seu processo de cuidado, procurando narrar a sua experiência com a medicação. Quando os interlocutores eram os familiares, foi solicitado que contassem sobre a sua visão a respeito do medicamento psicotrópico no processo de cuidado do seu parente. E aos profissionais de saúde, foi solicitado que falassem um pouco sobre a sua concepção a respeito desse tipo de medicamento.
Nesse processo, a pesquisadora procurou ter o cuidado de escutar, interferindo o mínimo possível, sobre o que se estava ouvindo, pois não era objetivo da pesquisa estabelecer algum tipo de interrogatório, nem tampouco atribuir juízo de valor à utilização e prescrição dos medicamentos psicotrópicos.
Dessa maneira, a análise dos dados foi realizada a partir da interlocução das narrativas e dos diários de campo da pesquisadora (construídos no período de imersão).
Foi feita a leitura/releitura da matéria-prima produzida nesse período, destacando os dados e pontos fundamentais que parecem responder à questão de pesquisa, e que foram ganhando forma a partir desses encontros e produções. Desse modo, o víeis analítico pode ser entendido como uma hermenêutica baseada na “teoria da medicalização” e em preceitos do SUS para a Atenção Básica.
Vale ressaltar que no encontro da pesquisadora com o cenário da pesquisa e, consequentemente, com os interlocutores não foi atribuído juízo de valor a respeito do uso de medicamento psicotrópico, tampouco tomada alguma atitude que tenha acarretado mudança ou até mesmo uma interrupção do uso do medicamento pelo sujeito.
A pesquisadora, ao se inserir no campo da pesquisa, buscou ser cautelosa, para que o desenvolvimento da pesquisa não influenciasse na relação que os sujeitos possuem com o medicamento, uma vez que o objetivo do estudo está em conhecer a concepção que esses sujeitos possuem a respeito da medicação, e não em influenciá-los sobre a adoção ou abandono dos tipos de recursos terapêuticos existentes.
Faz-se pertinente destacar que tais medidas de cuidado foram necessárias para que os sujeitos não se sentissem questionados a respeito do uso da medicação ou compreendessem de forma distorcida o objetivo da pesquisa.
Contudo, nessas circunstâncias é preciso que a pesquisadora esteja consciente do seu papel e visão, pois ambos atravessam o desenvolvimento da pesquisa, uma vez que, por mais precaução que se tenha em relação à escolha do método como instrumento que viabiliza a aplicação da pesquisa, o pesquisador sempre fará parte do que está sendo investigado, já que o olhar que se tem sobre o mundo é constituído por determinadas estruturas e dimensões humanas, as quais geralmente são negligenciadas pela ciência (ONOCKO-CAMPOS et al., 2013b).