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VERTICALIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO ASSOCIATIVA NO DIREITO CIVIL

É particularmente difícil enfrentar o problema das associações não personificadas sem efetivar algum tipo de preâmbulo sobre as realidades sociais complexas que as instruem. Esse é provavelmente o ponto de maior dificuldade e disfunção na compreensão dos juristas. Acostumados com formas de investigação propositivas e sistemas lógico-normativos, os operadores do Direito têm historicamente instrumentalizado e hipostasiado a compreensão dos entes coletivos para servir a seus modelos legais prévios.

Tal fato levou à criação de um abismo entre as investigações da ciência social e do Direito sobre os fenômenos sociológicos dos entes coletivos. Na

202

FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes. A sociedade em comum. São Paulo: Malheiros, 2013. p. 175-176.

sociologia existem formas autônomas de apreensão e compreensão dos fenômenos que permeiam os entes coletivos. Mesmo no que tange à complexidade organizativa subsistem categorias próprias. Sociologicamente os elementos que categorizam as associações humanas contemporâneas serão as acessibilidade alta ou baixa e sua instrumentaridade, instrumentaridade expressiva e expressividade, contemplando desde o exemplo mais periférico,

os Alcólotras Anônimos, ao mais central do Young Repulbicans Club203.

A própria dimensão ontológica dos entes coletivos denota um perfil de complexização organizativa. Das corporações de ofício e ordens beneméritas medievais até as atuais sociedades anônimas e grupos de sociedades, tem-se uma tendência destes agrupamentos a adquirirem formatações e estruturas organizacionais cada vez mais complexas que a seu turno são posteriormente contempladas pelo direito. Este é o sentido tanto vital quanto jurídico da verticalização normativa, uma vez que é a complexidade da organização que toma o plano de frente da experiência concreta e jurídica dos entes coletivos e das associações.

Tal complexização encontra sua máxima expressão no fenômeno da

descentralização das organizações plurissubjetivas privadas 204 . Tal

descentralização contempla três formas diferentes de organização associativa: a associação primária, definida pela união de pessoas naturais; a associação secundária, ou associação de pessoas jurídicas; e as associações paralelas, que são figuras fronteiriças nas quais o direito administrativo reconhece a capacidade de representar grupos e setores especiais (sem necessidade de consentimento destes)205.

A postura dos juristas se justifica na medida em que as teorizações legais denotarão respostas institucionais pragmaticamente relevantes. A escolha, assim, de como, quando e por que proteger e valorar os vários tipos de agrupamentos sociais terá consequências práticas.

203

CAVALLARO, op. cit., p. 179.

204

PETTITI, Domenico. Associazioni primarie, secondarie e parallele. In: Annali della università di Macerata. Milano: Dott. A. Giufrrè Editore, 1964. v. XXVII. p. 76.

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Defende-se, entretanto, que tomar como início de uma investigação sobre entes não personificados a constatação da natureza, ou formatação dos agrupamentos sociais inevitavelmente reproduzirá as disfunções das investigações clássicas. Antes, a postura deste trabalho foi a de tentar desmistificar o discurso jurídico dos imanentismos e substancialismos que o revestiam para empreender uma análise estrutural fundada na consistência global dos enunciados teóricos e normativos que compõem a base do tema.

Escapando da forma de análise convencional do tema, entretanto, somos levados a repensar qual o liame sistemático conferiria consistência para a normativização dos entes não personificados na sociedade atual.

A história das associações, antes de uma história da natureza dos agrupamentos humanos, é a história da compreensão da dogmática jurídica e a redução dogmática206 dos institutos.

A progressiva complexidade organizativa em perfil vertical corresponde aos elementos que conjugam a realidade social dos agrupamentos com a forma que estes são compreendidos e estruturados normativamente é sua progressiva complexidade organizativa em perfil vertical.

A noção contemporânea de associativismo207 somente ganha sentido

dentro de um panorama de ampla organização e coesão social que possibilitam uma coexistência entre sociedade civil e Estado, bem como entre grupos de distintas identidades. A compreensão contemporânea de associações tem uma dimensão privada que pressupõe sua subordinação a um ordenamento estatal mais amplo.

Na tradução jurídica deste fenômeno encontramos a mesma pertinência verticalizante. O instituto das associações é confortavelmente situado dentro da parte geral do Direito Civil e alimenta-se da estrutura fundamental da autonomia privada e da garantia e direito fundamental de associação.

206

CORDEIRO, António Menezes. Da boa-fé no direito civil. Coimbra: Almedina, 2007. p. 31 e ss.

207

VERRUCOLI, Piero. Associazionismo econômico e cooperativismo: considerazioni generali. Revista de Direito Mercantil, Industrial, Econômico e Financeiro, São Paulo, n. 34, p. 11-20, jul./set., 2006. p. 11-13.

A tradução dogmática para o instituto foi exatamente a valoração do elemento do suporte fático organizativo como ponto central para a constituição associativa. O modelo atual das associações não só apresenta escopo mais amplo de contemplação de figuras associativas, como é o caso das associações não personificadas, mas também oferta uma estrutura aberta que pode surtir efeitos bastante amplos e relevantes para seus membros.

Isso é facilmente constatável nas distinções profundas entre formas de associação. O instituto contempla formas de organização de montante tão amplo quanto grandes clubes de futebol, que negociam contratos e valores maiores que muitas empresas, quanto singelas formas de associação de bairro que podem nem mesmo ter patrimônio.

O elemento unificante de formas tão distintas de associações dentro do tipo associação é operado pela verticalização organizativa do instituto. Todos os entes associativos adentram esta lógica sendo impulsionados para formas de complexização organizativa operada em identidade com a lei.

Isso basicamente significa que as normas sobre as associações denotam estruturas e sentidos jurídicos prévios que orientam a própria organização fática das associações. Aqui encontram-se as figuras das assembleias, administração e estatutos como formas de inserir complexidade mesmo nas associações mais informais.

O ponto central da análise dogmática deste trabalho recai, então, sobre a verticalização organizativa das associações como ponto central da tutela jurídica destas. No que tange às associações não personificadas, a verticalização organizativa é o elemento que instrui a compreensão destas como figuras jurídicas autônomas que representam tanto a pessoa jurídica em

formação 208, que ainda não alcançou as formalidades da personificação, como

o "grau zero" associativo, momento primeiro no qual os fatos da vida incidem na norma, compondo seu suporte fático suficiente de forma a adentrarem no direito como associação - sendo este o momento inicial da existência jurídica do instituto.

208

A vericalização organizativa, nesse aspecto, não é necessariamente uma escolha consciente do legislador, ou mesmo da sociedade. Antes, a complexidade crescente dos entes não personificados é um fenômeno material que exprime a tendência dos agrupamentos humanos de se tornarem organizacionalmente mais complexos em perspectiva histórica, bem como uma tendência paralela do ordenamento jurídico de reconhecer estes variados graus de complexidade e elencá-los como efeitos jurídicos estruturais diversos e progressivos.

CAPÍTULO 2 - DOGMÁTICA DAS ASSOCIAÇÕES NÃO PERSONIFICADAS

3. Dogmática das associações não personificadas

3.1 SISTEMA JURÍDICO, INTEGRAÇÃO SISTEMÁTICA DAS NORMAS E