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TRABALHO DOCENTE: CONTRADIÇÕES PEDAGÓGICAS

4.3 COLONIALIDADE E RESISTÊNCIA NO USO DOS LIVROS DIDÁTICOS

O livro didático é um dos recursos didáticos de mais destaque nas escolas. Para o professor esse é um dos importantes instrumentos de escolarização, a ponto de servir de base para a elaboração da proposta curricular e/ou do programa de ensino das disciplinas. SILVA afirma que (1996, p. 25),

[...] para uma boa parcela dos professores brasileiros, o livro didático se apresenta como uma insubstituível muleta. Na sua falta ou ausência, não se caminha cognitivamente na medida em que não há substância para ensinar. Coxos por formação e/ou mutilados pelo ingrato dia-a-dia do magistério, resta a esses professores engolir e reproduzir a idéia de que sem a adoção do livro didático não há como orientar a aprendizagem [...].

Os livros didáticos devem não apenas facilitar o trabalho do professor, mas também, contribuir para uma boa formação dos seus alunos, proporcionando-lhes o acesso ao conhecimento historicamente produzido e também os conduzindo a reflexões sobre a realidade existencial, social e política da sociedade. Além disso, deve capacitá-los ao desenvolvimento intelectual eficaz, cujas capacidades argumentativas os tornem cidadãos de censo crítico.

A utilização pelo professor de um bom material didático faz com que as atividades não sejam tão somente da prática de se copiar e colar mecanicamente, de modo a ensiná-los, apenas, a ler, contar, e a conhecer a geografia, a história, e as ciências de forma técnica, sem levar os estudantes a contextualizar suas ações e sua função ante a sociedade.

A distribuição dos livros didáticos na escola Marechal Rondon, segundo a direção, acontece seguindo a programação do Estado através de programas de políticas públicas direcionadas pelo MEC, tais como:

O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD): voltado para o ensino fundamental público, incluindo as classes de alfabetização infantil, e atendendo também aos alunos portadores de deficiência visual que estão nas salas de aula do ensino regular das escolas públicas com livros didáticos em Braille.

O Programa Nacional do Livro Didático para o Ensino Médio (PNLEM): destinado aos alunos do ensino médio público de todo o país.

O Programa Nacional do Livro Didático para a Alfabetização de Jovens e Adultos (PNLA), que distribui livros com vistas à alfabetização e à escolarização de pessoas com idade de 15 anos ou mais. A proposta do programa é a erradicação do analfabetismo e o progressivo atendimento a jovens e adultos no primeiro segmento de Educação de Jovens e Adultos, até 2011, além de promover ações de inclusão social, ampliando as oportunidades educacionais para jovens e adultos com 15 anos ou mais que não tiveram acesso ou permanência na educação básica e estabelecer um programa nacional de fornecimento de livro didático adequado ao público da alfabetização de jovens e adultos como um recurso básico, no processo de ensino e aprendizagem.

Esse material didático que chega a escola é utilizado pelos professores e estudantes nas aulas como forma de “guia didático” do processo de ensino e aprendizagem. Utilizado pelos estudantes indígenas e não indígenas que estudam na escola pesquisada, o acesso a esse recurso didático limita o conhecimento dos grupos minoritários, como no caso os índios, negro, homossexuais, entre outros.

Preocupado com essa situação LAJOLO (1996, p. 33) afirma que: [...] um livro didático não pode construir seus significados a partir de valores indesejáveis. Não pode, por exemplo, endossar discriminação contra certos grupos sociais, nem propor a lei do mais forte como estratégia para solucionar diferenças.

Em hipótese alguma um livro didático pode endossar, nem mesmo de maneira indireta, comportamentos inspirados em tais valores ou aplaudir atitudes que os reforcem ou incentivem, porque tais comportamentos e valores não fazem (e nem devem fazer) parte do alicerce ético da sociedade brasileira.

Constatamos que apenas nas escolas indígenas é feita a distribuição de livros que retratam de modo extensivo os valores, os costumes e a cultura desses grupos. O não acesso a esses livros, para os estudantes e professores entrevistados, prejudica o desenvolvimento intelectual e cognitivo dos mesmos.

Já os materiais didáticos usados nas escolas indígenas são publicados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE/MEC) e distribuídos pelo MEC. A elaboração da maioria desse material tem a participação dos professores durante a realização dos cursos de formação continuada que acontece nas aldeias, nos períodos de férias escolares.

Todo o conteúdo contempla a cultura e os costumes das etnias e tem como objetivo resgatar e ensinar nas escolas indígenas as línguas maternas, a história, os modos de vida, as religiões, as crenças e as relações dos povos indígenas entre si e com as demais culturas (MEC).

Outros materiais foram produzidos pela Secretaria de Educação a Distância (SEED/MEC), tal como os cadernos da TV Escola - Índios do Brasil, com duas fitas de vídeo e três livros que tratam de temas específicos dos índios, a suas culturas e o relacionamento com a sociedade envolvente. O objetivo é acabar com preconceitos e ampliar os conhecimentos dos alunos, professores e diretores de ensino fundamental e médio a respeito da questão indígena e da diversidade cultural brasileira (MEC).

Algumas edições foram publicadas e organizadas pelo MEC, voltadas especificamente ao público indígena, com a participação dos professores, artistas, contadores de histórias, lideranças e estudantes, com assessoria da equipe de consultores da OGPTB. Vejamos no quadro abaixo.

1. Com pesquisas, ilustrações e textos elaborados pelos professores ticunas durante várias etapas dos cursos de formação, O Livro das Árvores tem percorrido os mais diferentes e insuspeitados caminhos. Além de seu uso nos cursos e nas escolas ticunas em atividades desenvolvidas nas diversas áreas do conhecimento - o livro é utilizado em muitas escolas indígenas e dos não-índios. Também está presente no acervo de inúmeras bibliotecas do Brasil e de outros países.

2. A Proposta Curricular das Escolas Ticunas foi elaborada