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PARTE I. PARA RE-POLITIZAR AS TECNOLOGIAS

2. PERSPECTIVA DECOLONIAL, POR UM CONHECIMENTO OUTRO DESDE O

2.2 A COLONIALIDADE DO PODER

Com os estudos sobre a Colonialidade do Poder, como referi em parágrafos anteriores, Aníbal Quijano aporta os cimentos da teoria decolonial baseado nas análises da forma como o poder se estrutura através da indústria colonial.

Com a expansão da Europa na América instala-se a mundialização do capitalismo, e as formas de dominação e exploração tanto do sistema de produção quanto do sistema cultural:

Com a constituição da América (Latina), no mesmo momento e no mesmo movimento histórico, o emergente poder capitalista torna-se mundial, os seus centros hegemônicos localizam-se nas zonas situadas sobre o Atlântico – que depois se identificaram como Europa – e como eixos centrais de seu novo padrão de dominação estabelecem-se também a colonialidade e a modernidade. Em pouco tempo, com a América (Latina) o capitalismo torna-se mundial, eurocentrado, e a colonialidade e modernidade instalam-se vinculadas aos eixos constitutivos do seu padrão específico de poder, até hoje (QUIJANO, 2007, p. 93).

los recursos de producción y del trabajo de una población determinada lo detenta otra de diferente identidad y cuyas sedes centrales están, además, en otra jurisdicción territorial. Pero no siempre, ni necesariamente, implica relaciones racistas de poder. El colonialismo es, obviamente, más antiguo, en tanto que la colonialidad ha probado ser, en los últimos 500 años, más profunda y duradera que el colonialismo. (QUIJANO, 2007, p, 93)

As revelações de Quijano marcaram os primeiros desafios ao pensamento Eurocêntrico que se referia ao conceito de modernidade da Europa do Norte, no começo do Iluminismo (século XVIII), evidenciando as diversas organizações instaladas no interior da Europa, definidas também por exercícios de autoridade econômica e domínio geográfico e epistêmico em vínculos distintos com um exterior; além de critérios de submissão e exploração baseados em raça e etnia que legitimaram uma suposta superioridade de uns sobre outros, “naturalmente” dos dominantes sobre os dominados.

Outro aspecto relevante das análises do sociólogo foi a explicitação da imposição do pensamento Eurocêntrico, com fundamentos na filosofia e na ciência moderna, que – desde seu início – privilegiou uma forma de racionalidade, mantida como componente principal da matriz epistêmica na modernidade (o tema será aprofundado na colonialidade do saber) e como parte dos dispositivos do poder mundial do capitalismo colonial moderno.

O eurocentrismo remete à concepção de um centro que se projeta ou propaga ao resto, naturalizando a hegemonia do pensamento e da ação, e gerando condições de dependência e subordinação; em palavras de Quijano (2007): “não é exclusivamente, a perspectiva cognitiva dos europeus, ou apenas dos dominantes do capitalismo mundial, mas também do conjunto dos educados sob a sua hegemonia”. Com isto Quijano desvela como esta racionalidade se encontra naturalizada numa espécie de “dever ser”.

Neste sentido, e seguindo a linha do sociólogo peruano, revela-se a importância de aproximar outras perspectivas que permitam desvelar as formas como o poder se instala e naturaliza sem considerar possibilidades outras, levando em conta que na colonialidade do

poder o que está em jogo são os mecanismos de produção econômica, as formas de reprodução do sistema, e as relações com o conhecimento, subjetivas e intersubjetivas, as quais se expressam na construção de vínculos sociais de dominação/exploração/conflito.

Isto se manifesta no eurocentrismo mediante expressões étnico-raciais agenciadas pela concepção de humanidade, identidade (vinculada à colonialidade do ser) e racionalidade única, como revelação da construção do conhecimento científico e legítimo (ligada à colonialidade do saber).

A classificação de raça-etnia, analisada por Quijano (1992), mostra a base na qual se constroem as identidades históricas coloniais: índio, negro, mestiço, como a representação de “um outro” distinto ante os olhos do conquistador (o que será analisado por Dussel como “ego

conquiro”), quem encontrou nessa classificação formas de dominação e exploração sobre esse outro subalterno, achando também supostos de superioridade biológica estrutural, com o que simultaneamente se foram formando os fundamentos do racismo e etnicismo.

As origens se localizam na dúvida sobre a natureza humana38 dos aborígenes da

América e da África, que para os europeus careciam de alma até a conclusão do papado (influenciado por Las Casas no debate de Valladolid) que considerou aos indígenas portadores de humanidade e alma inferiorizada, entanto para os negros o papado deixou que as dúvidas continuassem. Com isto, a escravidão proibida para os seres humanos não foi interditada e os nativos do continente africano e seus descendentes continuaram destituídos de alma nos debates teológicos/antropológicos da época.

A ideia de raça considera “as diferenças culturais associadas à desigualdade biológica e não produto da história das relações entre as pessoas e destas com o universo”; a diversidade étnica observa as diferenças culturais dentro da mesma raça. A suposta superioridade biológico/estrutural serve de apoio aos vínculos do poder baseado no racismo/etnicismo que ainda hoje se mantém.

As compreensões do outro subalterno (para o caso latino-americano, mas que vale também para as outras regiões colonizadas) construídas na compreensão descrita de raça e etnia foram-se desenvolvendo através de relações intersubjetivas que engendraram a outra cara do poder:

Aquelas identidades históricas coloniais –“índio”, “negro”, “branco” e “mestiço” – e o complexo “raça-etnia” e suas consequências no poder contemporâneo, são fatos que ocorreram e ocorrem na cultura, nas relações intersubjetivas que formam a outra cara do poder, o outro fundamento do poder; e são igualmente originados e fundados nessa mesma dimensão da existência social. Que sem dúvida estão, o tempo todo vinculados a, e imbricados em relações sociais materiais, principalmente nas formas de exploração ou relações de produção; que se modulam e se condicionam reciprocamente com essas relações; mas não com as suas consequências, derivações, reflexos ou superestruturas. E não se identificam, nem se esgotam nelas (QUIJANO, 1992, p. 8) (tradução nossa).39

38Questões estas que serão analisadas também na referência à colonialidade do SER como padrão marcante das

diferenças que orientam os processos de subalternização.

39 “Aquellas identidades históricas coloniales –“indio”, “negro”, “blanco” y “mestizo” – y el complejo

“raza”-“etnia” y sus consecuencias en el poder contemporáneo, son hechos que ocurrieron y ocurren en la cultura, en las relaciones intersubjetivas que forman la otra cara del poder, el otro fundamento del poder; y son igualmente originados y fundados en esa misma dimensión de la existencia social. Que están, sin duda, todo el tiempo asociados a, e implicados en, las relaciones sociales materiales, ante todo en las formas de explotación o relaciones de producción; que se modulan y se condicionan recíprocamente con estas relaciones; pero no con sus consecuencias, derivaciones, reflejos o superestructuras. Y no se identifican, ni se agotan, en ellas. (QUIJANO, 1992, p. 8)

Para o autor, as múltiplas dimensões em que o poder se manifesta e se articula têm como princípios estruturantes as ideias de raça/etnia, o que gera – segundo Grosfoguel (2008) – diferentes manifestações hierárquicas no sistema mundo capitalista, criando identidades que se revelam não só nas relações de produção, mas também conectadas com outras estruturas que se vivem em movimentos históricos simultâneos40.

Paralelamente, a expressão do poder como relações de dominação/exploração/conflito revela-se numa disputa pelo controle dos distintos modos de produção: trabalho, produtos e natureza; formas de reprodução da espécie: sexo e seus produtos; construções e reproduções simbólicas e subjetivas: entre elas o conhecimento e a cultura; tendo na autoridade e nos instrumentos de coerção os dispositivos para manter o padrão de controle das mudanças do sistema (QUIJANO, 1992).

A configuração do poder na mirada Eurocêntrica possibilitou o desenvolvimento de ideologias dominantes e o roteiro de um ideal estruturante da sociedade: o liberalismo, como perspectiva ideológica predominante, o materialismo histórico, como enfoque subalterno, e um ideal da estrutura de poder centrado no Estado-Nação.

Nas análises feitas por Quijano adverte-se a multiplicidade de variantes compreensivas e práticas do exercício do poder, mas que independente das diferenças, permite “discernir um conjunto de pressupostos e de problemas comuns que indicam a linhagem eurocêntrica compartilhada”, fundamentalmente no que diz respeito à construção de conhecimento histórico (configuração da história linear e unidirecional no tempo e no espaço, evidenciando uma estrutura de sociedade orgânica ou sistêmica), e o suposto de relações sociais “a- históricas”, ou seja, predeterminadas antes da história mesma.

A crítica decolonial destaca que a perspectiva histórica das relações do poder expressa-se nas articulações estruturais de elementos históricos específicos e espaço/tempos diferenciados e distantes com aspectos descontínuos, incoerentes e em conflito.

Os estudos de Quijano são reveladores em torno das coincidências que, na matriz do poder colonial (exploração/dominação/conflito) compartilham as perspectivas político- ideológicas consideradas adversas: o liberalismo (e na história recente neoliberalismo) e o

40 Como exemplo referem-se os fenômenos do mundo colonial americano Ibero ou Britânico (Quijano,

materialismo histórico (com suas variantes), que produzidas no seio do Eurocentrismo evidentemente universalizam e desenvolvem ideias totalizantes.

Em síntese, a leitura crítica dos analistas e pesquisadores latino-americanos sobre a modernidade, feita em chave analítica de colonialidade, desvela as estruturas do poder e os dispositivos que foram agenciados com a “empresa” colonial do sistema-mundo que inaugurou o capitalismo global.

Esta perspectiva permite identificar a importância do conhecimento localizado histórica e geopoliticamente como parte do reconhecimento das formas do poder subalterno, que expressam a diversidade epistêmica, visando à virada decolonial, que só poderia ser feita no reconhecimento das epistemologias múltiplas e diversas para além dos universalismos do pensamento euro centrado.

As análises sobre a colonialidade do poder mostram como o sistema de exploração, desenvolvido a partir da colonização, transcende a estrutura de produção econômica com suas diferentes manifestações e se expressa nos desdobramentos de sistemas de dominação subjetiva que incluem os processos de produção, apropriação e difusão de conhecimento. Isto resulta relevante na consideração do valor econômico que adquire o conhecimento na contemporaneidade, e o lugar subordinado que, na estrutura global, ainda mantêm os países da América Latina.

Diante do exposto, a virada decolonial resgata o lugar da cultura como cenário onde se entrelaçam a economia e a política, e não como produto delas. Nessa linha argumentativa, os estudos decoloniais criticam o paradigma da totalidade – corpo homogêneo – reducionista como estratégia compreensiva para interpretar os fenômenos históricos sociais que agenciaram as construções e representações sobre os países colonizados (no primeiro momento: Europeus e Não-europeus, na história mais recente: centrais e periféricos) instalando os fundamentos da matriz do pensamento totalizante.

Os estudos decoloniais propõem voltar sobre a transgressão das dicotomias que racionalmente reduziram as concepções do mundo a enfoques fragmentados, geralmente em oposição, para avançar em processos vinculantes que reconheçam a heterogeneidade dos sujeitos, contextos e conhecimentos.

Transcender a colonialidade do poder, instalada e naturalizada no cruzamento dos sistemas de produção econômica com os sistemas de produção de subjetividades, na base dos

mecanismos de raça-etnia exige viradas epistemológicas (nos termos decoloniais: práticas de “desobediência epistêmica”) que em diversos movimentos contribuam a quebrar as grandes narrativas instaladas na modernidade, herdadas também na configuração das ciências sociais e humanas, para legitimar a diversidade epistêmica, produzida no seio das sociedades e culturas.