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Comércio de confecções: geração de ocupação e renda

CAPÍTULO 4 – COMÉRCIO DE CONFECÇÕES E CIRCUITO INFERIOR DA

4.2. Comércio de confecções: geração de ocupação e renda

A existência do circuito inferior é o resultado de uma distribuição de renda desigual e de um modelo econômico que impossibilita a evolução do mercado interno por meio da circulação de produtos modernos. A concentração de renda, que é cada vez maior nos países periféricos amplia exorbitantemente as desigualdades de consumo, logo, a população pobre é sempre a mais lesada por isso, pois não tem condições econômicas de adquirir muitos dos produtos que as grandes empresas consideram rentáveis de serem produzidos.

Somado a esses fatores, as exigências de elevada qualificação profissional são cada vez mais presentes no mercado, o que dificulta o acesso dos mais pobres a diversos ramos, pois na maioria das vezes eles não conseguem alcançar a formação exigida pelas grandes empresas.

Há grandes empresas que se instalam em países periféricos e oferecem diversas vagas de emprego, mas exigem qualificação profissional elevada. Todavia, no circuito superior, muitas oportunidades de emprego são direcionadas a mão de obra do circuito inferior. Devido ao fato de não exigirem qualificação, e de oferecerem salários bem abaixo daqueles ofertados aos que são altamente qualificados (SANTOS, 2008a, [1979]).

No circuito inferior é difícil definir o emprego, pois são várias as formas de manifestação que se apresentam de acordo com a realidade urbana. São exemplos, o trabalho temporário e o mal remunerado, o que dificulta um levantamento estatístico mais completo.

O desemprego, da maneira como é definido nos países periféricos, nem sempre se aplica a realidade urbana de toda e qualquer cidade, pois é preciso considerar a dinâmica socioeconômica de cada lugar. Quanto a questão do trabalho, Santos (2008a, [1979], p. 204) adverte que “[...] um estudo sistemático da economia urbana mostraria facilmente que as formas de modernização impostas de fora criaram uma equação profissional onde o trabalho não pode ser definido segundo normas ocidentais”.

Há uma grande facilidade de encontrar mão-de-obra barata no circuito inferior, o que aumenta a predisposição de começar um pequeno negócio. Quando há necessidade de contratar empregados, as notícias de oportunidade de ocupação se espalham com muita rapidez e as vagas são logo preenchidas.

Para trabalhar em várias atividades nem sempre é necessário ter uma formação escolar elevada, ou mesmo um curso superior ou técnico, pois há inúmeros ofícios, nos quais

os analfabetos conseguem trabalhar com mais frequência do que aqueles que frequentaram a escola (SANTOS, 2008a, [1979]).

Considerando a questão da mão-de-obra, Santos (2008a, [1979], p. 206), aponta três tipos de atividades e seus níveis baixos de dificuldade de entrada:

[...] as atividades que não exigem do candidato nem capital nem qualificação; as que exigem exclusivamente capital, por mais modesto que seja, pessoal ou emprestado; e, por fim, as que exigem ao mesmo tempo qualificação e capital. Entre as primeiras incluem-se os serviços domésticos, a maior parte dos serviços “primitivos” e algumas atividades de transportes; o segundo grupo compreende principalmente o comércio, mas também outras atividades terciárias; o último grupo é composto essencialmente pelos artesãos.

Os agentes urbanos mais pobres buscam diariamente formas de sobrevivência, mesmo que estejam subordinados a uma lógica hegemônica, em que o uso da cidade e do território ocorre de forma corporativa e desigual. São as grandes diferenças de renda que possibilitam o desenvolvimento de diversas atividades voltadas a produção, consumo e ocupação de um número crescente de indivíduos. Segundo Silveira (2015, p. 255), “[...] o circuito inferior é um mecanismo permanente de integração dos pobres ao meio construído, ao trabalho e ao mercado”.

Considerando a importância do circuito inferior para a economia urbana de União dos Palmares, buscamos dados sobre o comércio de confecções, por considerá-lo gerador de ocupação e renda para uma parcela da população local na atualidade. Dessa forma, investigamos acerca da visão dos funcionários no tocante ao trabalho, a remuneração, ao tempo de atuação no comércio e também dos proprietários sobre a quantidade de empregados e aspectos vinculados à questão trabalhista.

Sobre o porquê de trabalhar no ramo de confecções, os funcionários apresentaram respostas variadas, porém com sentidos semelhantes ou convergentes: “foi o que apareceu”, já que é difícil encontrar um emprego; “falta de opções melhores” e necessidade de sair da condição de desempregado. Dos 28 informantes, 14 trabalharam em outras atividades comerciais antes da atual, 4 no ramo de serviços, 9 estavam no primeiro emprego e 1 não respondeu. O que evidencia que o comércio já era a opção de trabalho da maioria deles antes de ingressarem emprego atual.

Outro elemento analisado foi o tempo de trabalho no comércio e na loja de confecções atualmente (Tabela 9).

Tabela 9: Tempo de trabalho dos funcionários das lojas de confecções no comércio em geral e na loja atual.

Comércio Loja atual

Tempo de trabalho Número de Funcionários

Tempo de trabalho

Número de Funcionários

Menos de 1 ano 9 Menos de 1 ano 10

De 1 a 10 anos 17 De 1 a 7 anos 17

Mais de 10 anos 1 Não respondeu 1

Não respondeu 1 Total 28

Total 28

Elaboração: Silmara Souza. Fonte: Trabalho de campo, 2018.

Os funcionários que trabalham no comércio em geral a menos de um ano somam 35% e os que trabalham de 1 a 10 anos são 65%. Isto evidencia a importância do comércio como forma de ocupação e renda, em que o trabalho se dá por um período de tempo bastante considerável. Quanto ao tempo de trabalho na loja em que se encontravam, os que estão a menos de 1 ano são 37% e os que trabalham de 1 a 7 anos são 63%. Há, portanto, em ambas as situações uma predominância de tempo maior que 1 ano, mas é fundamental considerar o número dos que trabalham há poucos meses no comércio e na loja em que se encontravam. Estas pessoas eram as mais jovens e as que estavam no primeiro emprego.

Segundo Silva (2010, p. 46), no circuito inferior da economia urbana é possível encontrar “[...] objetos produzidos com grande volume de mão-de-obra, com pouca ou nenhuma qualificação, com reduzidos salários e sem carteira de trabalho assinada (em geral)”. Isso é perceptível no comércio de confecções de União dos Palmares, já que 54% dos funcionários não possuem carteira de trabalho assinada, enquanto 46% afirmaram possuir. Acrescente-se ainda, que 79% não trabalhavam de carteira assinada antes, o que é bastante representativo. Observemos os dados relativos a remuneração no gráfico a seguir.

29%

18% 50%

3%

Menos de 1/2 salário 1/2 salário 1 salário 1 salário e 1/2

Gráfico 6: Salário mensal dos funcionários das lojas de confecções de União dos Palmares – 2018.

Elaboração: Silmara Souza. Fonte: Trabalho de campo, 2018.

De acordo com os dados levantados, metade dos funcionários afirmou receber 1 salário mínimo por mês, enquanto 29% recebem menos de meio salário mínimo e 18% ganham meio salário. A remuneração recebida nas atividades do circuito inferior é baixíssima, ainda que este subsistema seja responsável pela sobrevivência de milhares de indivíduos em todas as cidades brasileiras (SILVA, 2010). Dentre os 28 informantes, nenhum dos funcionários recebe hora extra pelo trabalho, 17 não têm férias remuneradas e dezoito 18 não recebem comissão sobre as vendas.

As condições de trabalho são, portanto, deveras difíceis para a maioria deles. Mesmo sendo uma forma de sobrevivência, a atividade que exercem exige muito, já que 64% trabalham durante 8 horas diárias e, na maioria das vezes, sempre de pé, 18% trabalham menos de 8 horas e 11% mais de 8 horas44. O trabalho diário é uma das características centrais do circuito inferior da economia urbana.

Quando instigados a apontar os aspectos negativos e positivos de seu trabalho, 19 não quiseram responder ou disseram não haver nenhum. Possivelmente, isso se deve ao fato de terem receio de falar das condições no ofício que exercem, uma vez que em algumas situações o dono da loja estava presente. Dos 9 que responderam sobre os aspectos negativos, as respostas apontaram o trabalho exaustivo e durante muito tempo de pé, juntamente com a falta de tempo de estudar e a baixa remuneração.

Quanto aos aspectos positivos, dos 28 respondentes, 18 consideraram importante o fato de conhecerem e conviverem com muitas pessoas e de receberem seus salários sem atraso.

Quanto a visão dos proprietários, verificamos que, dos 45 respondentes, 15 deles não possuem nenhum funcionário e, nestes casos, são geralmente lojas bem simples e pequenas, incluindo as que estão localizadas nos bairros COHAB e Roberto Correia de Araújo, 16 possuem apenas 1 funcionário, 13 possuem entre 2 e 6, e apenas 1 possui 20 funcionários45. Dos 30 proprietários cujos estabelecimentos possuem funcionários, apenas 63% assinam a carteira de trabalho, e 17 disseram pagar benefício social (INSS), 10 não pagam nenhum e 3 não responderam.

Sobre os valores pagos aos funcionários, dos 30 proprietários participantes da pesquisa, 16 afirmaram pagar um salário mínimo; 1 disse que a remuneração varia de acordo com o lucro mensal; 2 alegaram que a remuneração varia por tratar-se de familiares; 2 pagam por comissão; 6 apontaram uma remuneração entre R$ 500,00 e R$ 600,00; 1 a remuneração é de R$ 1.200,00 e 1 não responderam. A partir dos dados levantados, verifica-se que há uma inconstância nos valores pagos mensalmente em pelo menos metade dos casos. E mesmo os que pagam uma remuneração definida, esta pode ser considerada baixa, se comparado ao salário mínimo atual46 que é de R$ 954,00.

Os dados sobre mão-de-obra familiar no comércio de confecções revelam que 12 proprietários de loja fazem uso desse recurso e 33 não empregam nenhum familiar. É muito comum em várias atividades do circuito inferior, o negócio ser desenvolvido pela própria família. Segundo Santos (2008, [1979], p. 219), o emprego familiar,

[...] permite que se aumente a produção sem que haja necessidade de mobilizar mais capital de giro. Apelar para assalariados tornaria a pequena empresa pouco competitiva e a obrigaria a pagar encargos sociais e impostos. Em certos casos, sobretudo quando a demanda é flutuante, a transformação de uma empresa familiar em empresa capitalista acarretaria sua falência.

Outro elemento importante do comércio em geral, por conseguinte do segmento de confecções, é o fato de muitos estabelecimentos contratarem trabalhadores temporários em certas épocas do ano, principalmente nos meses de novembro e dezembro devido às festas de final de ano (Natal, Réveillon e Confraternizações). Podemos considerar isso como “[...]

45

O proprietário desta loja é Josemar Assunção, entrevistado para auxiliar na construção do terceiro capítulo da dissertação, na seção sobre o processo de formação do comércio de confecções de União dos Palmares. O Magazine Vitória é uma das lojas mais antigas do comércio e a maior em tamanho e quantidade de produtos. 4630 de outubro de 2018.

flexibilidade de adaptação no emprego, quando há contratação de ajudantes nos momentos de ponta e depois sua demissão” (SANTOS, 2008, [1979], p. 254).

Das lojas de confecções de União dos Palmares em análise, 14 contratam funcionários temporariamente e 31 não contratam. Destes últimos, alguns indicaram que já fizeram contratação temporária, mas a redução das vendas no contexto da atual “crise” gera dificuldades. Quanto aos contratos temporários realizados pelos proprietários de lojas, eles responderam que o fazem no final do ano, como é de praxe no comércio. Isso abre uma possibilidade de renda, ainda que temporária, para muitas pessoas.

O comércio de União dos Palmares contribui significativamente com a geração de postos de trabalho. E a atividade de confecções não foge a essa regra. Apesar das condições de trabalho, que remetem a baixos salários, carga horária exaustiva e desempenho de diversas funções, pois o vendedor também desenvolve atividades de limpeza da loja, visita a clientes e de pagamentos em bancos, a atuação no comércio é uma forma de sobrevivência, diante da atual conjuntura de desemprego e instabilidade econômica.

Traçado esse quadro acerca do comércio de confecções na perspectiva da geração de trabalho e renda para a população palmarina, apresentamos a seguir os aspectos da organização desta atividade em torno dos estoques, preços, o lucro obtido e o uso da publicidade.