As relações econômicas internacionais econômicas giram fortemente em torno
do comércio internacional. Tanto a OMC como o Mercosul têm preponderância de
elementos ligados ao comércio. Daí que o comércio internacional será o objeto regulado
pelo Direito Internacional Econômico no qual se insere em grande parte a problemática
que se pretende apresentar neste capítulo.
O comércio internacional representa um fator de suma importância para as
economias abertas, hoje a grande maioria, quase absoluta no Ocidente. O interesse do comércio internacional para a economia de um Estado pode ser explicado, ao menos de
forma preliminar, pela teoria das vantagens comparativas, que pode ser assim resumida:
“o comércio bilateral é sempre mais vantajoso que a autarquia para duas economias
cujas estruturas de produção não sejam similares.”22 Este modelo, de David Ricardo,
“implica a especialização de cada país na exportação do produto do qual tem vantagens comparativas.”23
O fluxo de mercadorias incrementa o consumo interno, gerando um aquecimento
da economia. A possibilidade de vender em outros mercados permite às empresas obter ganhos de escala, vendendo muito mais, mesmo que por um preço mais baixo. Estes
ganhos geram investimentos e poupança, dando maior estabilidade e solidez à economia
do país. Por outro lado, os valores que são injetados nas economias dos exportadores em
troca dos produtos comercializados aumentam a quantidade de moeda estrangeira,
permitindo ao país exportador a valorização da moeda.24
22 PRADO, Luiz. C. D. Ob. cit., p. 14.
23 Idem , p. 15. O autor traz o exemplo usado por David Ricardo: “suponha-se que na Inglaterra fossem necessários 100 homens por um ano para produzir uma determinada quantidade de tecido; e que fossem necessários 120 homens pelo mesmo tempo para produzir uma determinada quantidade de vinho. Imagine ainda que em Portugal fossem necessários 90 homens para produzir a mesma quantidade de vinho que na Inglaterra. Nesse caso seria do interesse da Inglaterra dedicar-se exclusivamente à produção de tecidos e de Portugal exclusivamente à produção de vinho. Assim, embora a Inglaterra desse em pagamento pelos vinhos, que custaram o trabalho de 80 homens, tecidos que custaram o trabalho de 100, ela poderia obtê- los mais baratos do que se produzisse domesticamente. Nesse caso, a mesma quantidade de tecidos que iria custar o equivalente ao trabalho de 90 homens durante um ano uma quantidade de vinho equivalente ao trabalho de 80^ homens durante esse período. Dessa forma, ambos lucraram com a operação.” Idem,
ibidem. A teoria das vantagens comparativas conforme David Ricardo é explicada também por
JÁCKSON, J., ob. cit., p. 14-18.
24 Os ganhos econômicos e vantagens sociais que os países envolvidos em processos de integração buscam são num primeiro momento: “ 1) maior eficiência na produção, pela especialização crescente dos agentes econômicos segundo suas vantagens comparativas ou competitivas; 2) altos níveis de produção pelo maior aproveitamento das economias de escala permitidas pela ampliação de mercado; 3) uma
A liberdade de comércio leva os atores privados a adquirirem mobilidade,
instalando-se nos países onde o custo de produção é menor. Um outro atrativo é o
mercado interno do país onde a empresa transnacional pode se instalar. Por estes dois
fatores, o Brasil depois da abertura comercial e estabilização política, tornou-se um
grande captador de investimentos diretos.
A estabilidade institucional e política é fundamental para a atração de capitais. É por isso que países instáveis, como a Rússia em 1999, têm que aumentar
significativamente as suas taxas de juros, visando atrair o capital estrangeiro. E que os
riscos de um choque na economia ou de um rompimento institucional amedrontam o
investidor, fazendo-o optar por outros mercados mais seguros. A taxa de juros que
remunera os investimentos é controlada pelo poder executivo dos países, através dos
bancos centrais, fazendo o jogo de equilíbrio entre risco e compensação pelo risco
(maior remuneração do capital) para garantir os investimentos externos.
Os investimentos feitos pelo chamado “capital volátil”, que circula sem bandeira
e que foge de um país ao menor sinal de um melhor negócio (outro mercado em que a
relação risco/benefício seja mais favorável), sustentam o valor das moedas nacionais
porque ajudam a manter o nível de oferta de moeda estrangeira (principalmente dólares) no país, gerando um equilíbrio no preço da moeda estrangeira em relação à nacional,
que dita o valor desta.25
Noutro viés, os fluxos de divisas que adentram as economias dos países através
do comércio internacional dão uma sustentação mais segura à economia, por sua maior
regularidade e previsibilidade. Além disso, o aumento das exportações gera o
aquecimento da economia interna, pois se as empresas têm mais vendas elas precisam
produzir mais, gerando empregos, investimentos internos, maior recolhimento de tributos e assim por diante.
melhor posição de barganha no plano internacional, em virtude das dimensões ampliadas da nova área, resultando em melhores termos de intercâmbio; 4) mudanças positivas (e obrigatórias) na eficiência econômica dos agentes em virtude de maior concorrência intrasetorial; 5) transformações tanto na qualidade quanto na quantidade dos fatores de produção por força de avanços tecnológicos.” Num estágio mais avançado, de mercado comum ampliado, são: “6) mobilidade de fatores através das fronteiras entre os países membros, permitindo uma alocação ‘ótima’ de recursos; 7) coordenação de políticas monetárias e fiscais num sentido teoricamente mais racional, já que subordinadas a uma lógica impessoal e não à pressão de grupos setoriais ou correntes politicamente influentes em escala nacional; e 8) os objetivos do pleno emprego (ou quase), de taxas estáveis de crescimento econômico e de uma melhor distribuição de renda tornam-se metas comuns dos países membros do processo.” ALMEIDA, Paulo Roberto de.
M e r c o s u l: fun d a m en to s e perspectivas. Brasília : Grande Oriente do Brasil, 1998, p. 3.
poder exportar as empresas e os governos têm de fazer maciços investimentos em
qualidade e diminuição de custos. São estes dois gêneros (qualitativos e de preço),
tomando-os em acepções bem amplas, os determinantes para a competitividade das exportações. Os fatores qualitativos refogem aos alcances deste trabalho, permitindo
não traçá-los com detalhe. Os fatores de preço são os mais importantes para esta análise,
porque é sobre eles que incide a maioria das normas do Direito Internacional
Econômico.
O custo de um produto para exportação é maior do que aquele que será
comercializado no mercado interno. O transporte, o seguro, o frete, os custos
fmanceirose tarifas de exportação e importação,26 aumentarão o gasto do produtor que
pretende vender ao exterior. 27 Para que esta transação seja vantajosa, ele deve obter
ganhos de escala, vendendo muito mais, para que, mesmo com uma margem de lucro
menor sobre cada produto, seu lucro final total seja maior do que se vendesse apenas no
mercado interno.
Ocorre que todo o esforço para obter ganhos de escala pode ser vão se as políticas econômicas ditadas pelo governo do país do importador adotarem um rumo
protecionista, ou seja, se procurarem evitar o desequilíbrio de suas balanças comerciais
através da proteção do mercado interno e da produção nacional. Acaso descontroladas,
as tarifas de importação tornam-se uma variável geradora de instabilidade e falta de
previsibilidade que podem inviabilizar as transações comerciais. Com efeito, um
produtor que tem uma distribuição eficiente no mercado do país onde produza, pode se sentir pouco atraído a exportar se souber que os riscos de todo o investimento em infra-
estrutura e qualidade do produto que ele terá obrigatoriamente de fazer para poder
competir em outros mercados pode a qualquer momento tornar-se inócuo em
26 A responsabilidade de cada um dos contratantes em relação aos itens mencionados é definida geralmente em fórmulas contratuais padronizadas, sendo as mais comuns as da Câmara de Comércio Internacional, conhecidas como Incoterms. As fórmulas mais conhecidas são: FOB - Free On Board, na qual o exportador deve entregar a mercadoria a bordo do navio e responsabilizar-se pelas formalidades de exportação; e CIF - Cost Insurance and Freight, pela qual o exportador embarca a mercadoria e ainda pí)ga o seguro e o frete. DEL CARPIO, Rómulo Francisco Vera. Carta de Crédito e UCP 500
(comentada). São Paulo : Aduaneiras, 1994, p. 151-162; MURTA, Roberto de Oliveira. Incoterm s 1 9 9 0 : publicação n. 460 da CCI. Trad. Roberto de Oliveira Murta. 2a ed. São Paulo : Aduaneiras, 1995.
27 O contrato de compra e venda internacional pode ser pago por antecipadamente, por cobrança (à vista ou a prazo) ou Carta de Crédito (Letter o f Credit - L/C). DEL CARPIO, Rómulo F. V. Ob. cit., p. 169-
decorrência de uma elevação súbita das tarifas de importação de um país ao qual ele
destina suas mercadorias.
Frisando então o que se disse, os acordos internacionais de comércio visam num
primeiro momento obter a redução das tarifas de importação e dar uma certa previsibilidade aos agentes particulares em suas transações comerciais.
E importante observar que no jogo da competição comercial internacional, empresas e governos podem em conjunto alterar as condições de competitividade nas
variáveis de formação do preço, principalmente nos custos de produção. Deste modo,
pode-se reduzir o preço de uma mercadoria destinada à exportação, eliminando ou
aliviando os custos tributários incidentes sobre a produção (oferecendo subsídios),
diminuindo o lucro para conquistar outros mercados (praticando dumping)28,
oferecendo facilidades para o manejo de capitais e operações financeiras (outro tipo de subsídios). De uma maneira mais aviltante, pode-se reduzir a proteção aos trabalhadores
e a influência de sindicatos de operários, o chamado “dum ping so cia l”, que se traduz
em vantagens comparativas ao país produtor advindas da exploração da mão-de-obra
OQ
com o mínimo de encargos possível. Também deste modo pode-se reduzir os encargos
gerados pela necessidade de preservação ambiental, gerando vantagens comparativas
advindas da exploração do meio ambiente com o mínimo de cuidados e custos
possível.30
Por toda esta influência que governos e empresas podem exercer sobre a
formação do preço no mercado internacional, é que os acordos de comércio buscam num estágio posterior erradicar ou anular esta influência. É neste âmbito que se inserem
o Acordo Antidumping da OMC negociado na Rodada Uruguai, o Acordo de Subsídios
da OMC, o Acordo sobre Medidas de Investimento Relacionadas ao Comércio (TRIMs
- “Trade Related Investmení M easures”) e o Acordo sobre Salvaguardas e Medidas
Compensatórias, bem como as polêmicas sobre os aspectos trabalhistas e ambientais
28 Sobre o assunto vide BARRAL, Weiber. Dumping. In: BARRAL, Welber (org.). O B rasil e a OMC. Florianópolis : Diploma Legal, 2000.
29 LAFER, Celso. D um ping Social. In: BAPTISTA, Luiz Olavo, HUCK, Hermes Marcelo, CASELLA, Pàulo Borba (org.). D ireito e Comércio In tern a cio n a l: tendências eperspectivas. São Paulo : LTr, 1998, p. 161-164.
30 WATHEN, Tom. Um guia para o comércio e meio ambiente. Trad. Eduardo Lycurgo Leite. In:
Comércio e m eio ambiente : D ireito, Econom ia e Política. São Paulo : Governo do Estado de São Paulo -
relacionados ao comércio, geradores de tensão nas malogradas negociações de Seattle,
durante a reunião da Conferência Ministerial da OMC, no final do ano de 1999.31
O Direito Internacional Econômico tende assim, a uma expansão de seu âmbito de validade material, regulando aspectos do comércio internacional que vão além da
simples redução tarifária e previsibilidade das políticas comerciais dos Estados. Esta expansão está expressa hoje em grande medida nas normas da OMC, analisadas nos
tópicos seguintes.