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2. RECONSTRUÇÃO DO CONFLITO

2.2 Com a cara e a coragem: o começo do Pinheirinho

“Primeiro teve a invasão das casinhas [...], aí teve a invasão do campão [...]. Do campão que eu vim pra cá para o Pinheirinho”.41 É dessa forma que uma moradora do Pinheirinho começa a narrar sua história. De acordo com a pesquisa do antropólogo Inácio Andrade (2010), há um consenso entre os moradores de que o início do Pinheirinho aconteceu em 2003, com a ocupação de casas da Companhia de Desenvolvimento

Centro Técnico Aeroespacial (CTA) – hoje Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) – e inauguração da Via Dutra, em 1951. Nas décadas seguintes, com a consolidação da economia industrial, a cidade apresentou crescimento demográfico expressivo, que também acelerou o processo de urbanização.” Disponível em: <http://www.sjc.sp.gov.br/sao_jose.aspx>. 41 Trecho de entrevista com um morador do Pinheirinho, transcrita na pesquisa do antropólogo Inácio Andrade (2010, p. 72).

38 Habitacional e Urbano (CDHU) que estavam abandonadas, no Campo dos Alemães, na zona sul de São José dos Campos.

Em meio a diversas versões colhidas pelo antropólogo, tudo indica que a ocupação inicial das casinhas durou cerca de um mês, até que a prefeitura conseguiu uma ordem judicial para desocupação e, com a ajuda da Tropa de Choque, obrigou as famílias a migrar para um campo de futebol próximo, ainda no Campo dos Alemães. Nesse período, viveram sob lonas pretas – símbolo do Movimento dos Sem-Terra (MST). Permaneceram ali durante dois meses. Enquanto isso, Marrom, identificado como uma das lideranças, procurou angariar mais membros, ao mesmo tempo que buscava um lugar para onde ir. Esse é o período conhecido como “campão” (ANDRADE, 2010).

Encontrada a área que, “diferente das casinhas, não tinha dono e estava abandonada”, no dia 25 de fevereiro de 2004 ocorreu a fundação do Pinheirinho, numa área próxima ao campão, também na zona sul da cidade (ANDRADE, 2010, p. 73). Naquela época, havia aproximadamente 240 famílias na ocupação. As primeiras ações foram a demarcação dos lotes e a construção das casas, sendo que alguns ainda continuaram com a lona preta por algum tempo (ANDRADE, 2010).

De lá [do campão] viemos para cá. Marrom chegou avisando, de madrugada, que todo dia tinha reunião, que a gente ia para um lugar que todo mundo ia gostar e tinha mais de trinta anos que esse local estava abandonado, inclusive, que aqui tinha mato que cobria a gente. Ninguém nunca pensava disso virar isso aí hoje. Era um lugar abandonado. Aí de madrugada, chamaram a gente e tudo, aí eu falei: “Ah, eu vou”. Com a cara e a coragem. Aí meu marido fez um barraco de lona, comprou aquelas lonas reforçadas e fez o barraco. Eu só trouxe a televisão e algumas coisas, roupa, fogão, essas coisas assim. [...] E ele falou: “Joana, fica naquele negócio, estou com medo de levar as coisas e não dar certo”. Eu falei: “Que não dá certo! A gente procura outro canto de novo”. [...] No mês de abril ele comprou os madeirites e fez o barraco, a luz também já estava uma luz boa, aí fui buscar o resto das coisas (grifo nosso).42 Eu morava no Dom Pedro, tinha oito meses que eu morava aqui em São José dos Campos, pagava aluguel e tinha três filhos. Daí quando surgiu aqui, eu fiquei no campão. Daí eu engravidei dele. Quando eu estava com dois meses de grávida eu mudei para cá, com mudança, com tudo [...] Era o começo do

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Pinheirinho. No dia que a gente entrou aqui foi um dia de quinta-feira, que a gente mudou para cá. No mês que vem está fazendo cinco anos. E eu estou aqui desde o começo(grifo nosso).43

A área mencionada nas entrevistas transcritas, o “local abandonado”, é o imóvel Parreiras de São José. A empresa Selecta Comércio e Indústria S.A, cujo principal acionista e presidente diretor era Naji Robert Nahas, empresário libanês naturalizado brasileiro, adquiriu o imóvel no ano de 1981 pelo valor de 130 milhões de cruzeiros. O imóvel foi utilizado como garantia de dois empréstimos: O primeiro, em 1982, no valor de um bilhão de cruzeiros, o equivalente a R$ 20 milhões em 2012, contraído com o banco BCN, com sede no Brasil. O segundo, em 1986, no valor de 10 mil dólares, contraído com o banco Bamef Lanque de La Mediterranée, com sede na França. Em 1989, Naji Nahas foi acusado de ser responsável pela quebra da bolsa do Rio de Janeiro. Na época, o empresário enfrentou inúmeros problemas decorrentes de supostas manipulações no mercado acionário para inflar o preço de suas ações da Vale do Rio Doce e da Petrobras, o que levou várias de suas empresas à falência, incluindo a Selecta.44

Uma das primeiras reações por parte da prefeitura municipal à ocupação da área foi oferecer passagens de ônibus para qualquer lugar do Brasil para os ocupantes. Sobre isso um dos advogados do Pinheirinho, Marcelo Menezes

[...] quando houve a ocupação, a proposta da prefeitura era essa. Eles alegavam que o pessoal não era daqui, não era de São José e que dava passagem para ir embora. Isso não é verdade, o pessoal é daqui... São José dos Campos tem uma característica, por ser uma região operária... Porque eu não sou daqui, acho que o prefeito também não é daqui, mas estão aqui há mais de dez anos. Não são da cidade, entendeu? Então tem uma grande parcela da população que não é de São José dos Campos e têm pessoas aqui que estão há anos aqui, há décadas aqui, construíram a vida aqui. E, na verdade, a política da prefeitura com esse discurso foi de deslocar o pessoal, de tirar o pessoal daqui. “Você vai para qualquer lugar do país, eu pago sua passagem.” Quer dizer, não é uma proposta para

43 Trecho de entrevista transcrita na pesquisa de Andrade (2010, p. 74).

44 Informações retiradas do documentário “Derrubaram o Pinheirinho”. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-OqKwup0b8c>. Acesso em 10.set. 2016.

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quem está aqui na cidade, para quem está estruturado aqui, não são pessoas de fora, são pessoas da cidade. Fica inviável, né?45

Sobre as trajetórias que levaram à chegada ao Pinheirinho, Andrade (2010) conta-nos que a história nunca começa com a montagem do barraco ou da lona no terreno de modo que todos pedem licença para contar a sua própria história. De acordo com o antropólogo, frases como “eu venho de uma família grande, tinha dezesseis irmãos”, ou “eu vim de Rondônia”, são motes pelos quais se começa a conversa e se explica a origem humilde da vida até a chegada no Pinheirinho. Andrade afirma que, embora, todos os entrevistados concordem que “a partir do momento que se pisa no Pinheirinho tem que estar disposto a lutar”, a categoria “luta”, utilizada com frequência dentro dos movimentos sociais e sindicatos das mais variadas origens, também passa a servir como signo explicativo para as trajetórias individuais e familiares e guia para as pessoas nas suas relações com o mundo.

Mas a luta do Pinheirinho ganhou visibilidade nacional e internacional por conta do que ocorreu no dia 22 de janeiro de 2012. Às oito horas da manhã daquele domingo, o defensor público Mateus Moro acordou com o chamado no celular. Do outro lado da linha, seu colega Jairo Salvador deu a notícia: “A polícia está entrando no Pinheirinho”.46

Eram cerca de dois mil policiais mobilizados para a ação, que envolveu unidades militares especializadas como a Cavalaria, Batalhão de Choque, ROTA, Canil e Força Tática. Eles chegaram ainda de madrugada, por volta das 5 horas da manhã. A primeira intervenção militar na área foi feita pelos helicópteros, que lançavam indiscriminadamente sobre as casas bombas de gás lacrimogêneo.47 O objetivo da ação era dar apoio ao cumprimento de uma decisão judicial.

45 Trecho de entrevista transcrita na pesquisa de Andrade (2010, p. 75).

46 Informação coletada no relato do defensor público Mateus Moro em apresentação sobre o caso Pinheirinho na Rede Interdisciplinar de Pesquisadores sobre Neoliberalismo e Políticas de Subjetivação, realizada no dia 8 de agosto de 2015, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

47 Essas informações foram retiradas da petição inicial da Ação Civil Pública 0009769- 96.2013.8.26.0577, proposta em 05.03.2013 pelo Núcleo de Habitação e Urbanismo da Defensoria

41 Mas que tipo de decisão judicial demanda tamanha mobilização da polícia na madrugada de um domingo? No caso, uma liminar autorizando a reintegração de posse do Pinheirinho à Massa Falida da Empresa Selecta Comércio e Indústria S.A.

Até aquele dia 22 de janeiro de 2012, o Pinheirinho era uma ocupação urbana que existia desde fevereiro de 2004, em São José dos Campos, interior de São Paulo, na qual viviam cerca de duas mil famílias, totalizando aproximadamente nove mil pessoas.48 Até aquele dia, era um “núcleo consolidado com casas de alvenaria, ruas traçadas, avenidas, praças, local para equipamentos públicos e áreas de preservação mantidas”, com “quase a totalidade das moradias construídas em conformidade com o padrão normativo do plano diretor da cidade”.49

O terreno sobre o qual o Pinheirinho se ergueu constava no registro público de imóveis com o nome “Parreiras de São José”. De acordo com a matrícula do imóvel, a Empresa Selecta Comércio e Indústria S.A era a titular do registro. Com a decretação da falência da Selecta em 25 de abril de 1990, a empresa deixou de existir e constituiu-se uma massa falida que passou a deter os direitos relacionados à empresa.