Estando quase chegando à Vila dos(as) Caminhantes, dei início às últimas reflexões antes do tão esperado diálogo. Então, a partir das duas primeiras reflexões sobre Pensamento Complexo e Cibercultura, percebi a necessidade de estabelecer algumas articulações com ambientes de aprendizagem. Por isso, apresentarei os registros dos meus pensamentos, nesta etapa, em relação às referências teóricas que considerei anteriormente, resultando em reflexões prévias do que eu já conseguia perceber, antes de dialogar com os(as) Caminhantes.
Retomei o significado de ambiente de aprendizagem (que havia destacado apenas em nota de rodapé) como sendo a ampliação da noção de sala de aula, pois, além do espaço físico, há o virtual imbricado, e da mesma forma, que além dos sujeitos presentes, há outros elementos que podem afetar as relações educacionais direta e/ou indiretamente, tomando o Pensamento Complexo como inspirador para tal concepção.
E, partindo do termo, estabeleci uma breve reflexão sobre ambientes de aprendizagem. No cenário contemporâneo em que vivemos, considerando o Pensamento Complexo como tentativa de superar a fragmentação, intensificada na Modernidade, a função do(a) professor(a) não é a de controlar ou de impor regras, mas cocriar ambientes propícios à aprendizagem. O conceito de sistema complexo contribui para o entendimento desse tipo de prática, pois considera as possíveis relações entre as partes, trabalhando com incerteza, interação, ordem e desordem. São fatores que dialogam conceitualmente com criação (pelo fato de não ser ação acabada), com ambiente (pois o foco está na oferta de interações entre sujeitos) e com aprendizagem (porque o objetivo é que o/a aluno/a aprenda e transforme-se).
Com base nessas constatações é que pensei sobre ambientes de aprendizagem constituídos a partir dos Princípios da Complexidade27, considerando organização, planejamento e criação de situações que visem à aprendizagem. Então, daqui em diante, apresento as relações que foram possíveis de serem feitas no momento em que eu estava quase chegando à Vila.
Para iniciar, trouxe um dos fatores fundamentais para esse processo de construção que é a reflexão sobre os papeis desempenhados por alunos(as) e professores(as). Nesse sentido, o
Princípio de Reintrodução do Sujeito Cognoscente em Todo Conhecimento me auxilia a
27 Nesta etapa da pesquisa, eu não conseguia articular Cibercultura com os Princípios da Complexidade, pensando na constituição de ambientes de aprendizagem, por isso, nesta seção, a Cibercultura não apareceu nas relações. Minha opção por não a inserir, posteriormente, justifica-se pelo Princípio Recursivo, por meio do qual eu constituo minhas aprendizagens em processos de visitas e revisitas a conceitos, em perspectivas diferentes. Isto é, quero deixar evidenciada, nesta dissertação, minha maturação intelectual à medida em que caminhei.
pensar sobre a importância de os(as) estudantes fazerem parte da construção do conhecimento. Considerando tal Princípio, os(as) alunos(as) podem ser entendidos como sujeitos pensantes, reflexivos, ativos e estrategistas, capazes de construir a realidade, pois, dessa forma, podem desenvolver a autonomia necessária para a pesquisa – dentro e fora do ambiente escolar. Da mesma forma, contribuindo com esse cenário, o(a) professor(a) assumiria a função de mediador(a) do processo de desenvolvimento de autonomia dos(as) alunos(as). Tomando o
Princípio Retroativo, o(a) docente pode compreender o ambiente de aprendizagem como
possibilitador de interações e transformações, atuando como “regulador do circuito retroativo”: trabalhando com a ordem, a desordem e a organização, ao conduzir as interações da turma, de modo a transformar dúvidas em impulsos para investigações. Seria a construção de um ambiente propício ao diálogo, fazendo menção ao Princípio Dialógico, com a possibilidade da participação de todos – com suas visões complementares, concorrentes e antagônicas, mas sempre considerando a responsabilidade da condução e da orientação do(a) professor(a), para que o sistema tenha equilíbrio.
Abarcando as especificidades das relações dentro de um sistema, pude refletir sobre a importância de percebermos cada ambiente de aprendizagem criado como único. Cada turma – e até mesmo cada dia de contato com a mesma turma – tem organizações diferentes, porque as partes que compõem o sistema - o(a) professor(a) e os(as) alunos(as) que compõem a turma - estão em constante transformação. Além disso, as partes, quando em interação, são afetadas: as reflexões propostas no ambiente de aprendizagem, mobilizam os sujeitos e podem transformá- los – inclusive de formas que o(a) educador(a) não previu. O Princípio Sistêmico contribui para esta ponderação, no sentido de que não podemos considerar uma turma como a soma dos(as) alunos(as) que a constituem, sem pensarmos nas características individuais. Isso, porque dentro de um grupo que é identificado como participativo e falante, podem existir estudantes bastante introspectivos(as) que preferem se comunicar por outro meio, que não a fala; da mesma forma que a turma não pode ser rotulada de introspectiva com base em um ou dois/duas alunos(as) que possuem essa característica, por exemplo. Quer dizer, quando pensamos na constituição de um ambiente de aprendizagem que leve em consideração a identidade de uma turma, temos de ponderar as especificidades das partes, para selecionar a melhor abordagem para o todo. E, assim, talvez o Princípio Hologramático seja aplicável, pois, nesse processo de seleção da abordagem para determinada turma, o(a) professor(a) procura perceber as especificidades que estão, ao mesmo tempo, no todo e nas partes.
Pensando no Princípio de Autonomia/Dependência, o ambiente de aprendizagem pode ser entendido como espaço autônomo de criação, por meio das interações dos(as)
estudantes, sob a responsabilidade do(a) docente. No entanto, trata-se de um processo parcialmente independente, pois existem políticas educacionais reguladoras; familiares, alunos(as) e docentes com diferentes expectativas e visões quanto à educação; além de distintas infraestruturas disponíveis: exemplos de fatores que interferem nas possibilidades da ação pedagógica. Isto é, o ambiente de aprendizagem está conectado com uma rede de elementos que também a influenciam, ocasionando algumas delimitações quanto ao que é possível de ser realizado; como o que acontece com todo sistema biológico, que precisa de um ecossistema para existir.
Finalizei, utilizando as ideias de Edgar Morin sobre a necessidade do despertar da sociedade-planetária, pensando nas relações existentes entre todo o sistema planetário, que é a Terra, e nas possibilidades que temos de modificar as estruturas desse sistema, por intermédio de nossas transformações individuais. Introduzo, assim, nesse sistema planetário, o ambiente de aprendizagem, que pode servir como laboratório para explorações, onde os sujeitos têm a chance de experienciar o pensamento livre e aberto, e de enxergar as infinitas possibilidades que têm de se autotransformarem. Nesse sentido, o Princípio Recursivo reforça a ideia de que podemos ser causa e efeito de nós mesmos, por meio do desenvolvimento da autonomia, permitindo-nos ir em busca do que queremos, em uma constante autorrenovação. Por isso, a criação de ambientes que visam a aprendizagem, por intermédio da pesquisa e da participação ativa dos alunos(as), assume papel importante tanto para os indivíduos como para todo o sistema planetário.
Assim, já podendo avistar a Vila de Caminhantes, foi que terminei minha caminhada, refletindo com e sobre as referências das principais temáticas envolvidas na minha inquietação principal. Posso afirmar que, por meio dos registros deste capítulo, fica evidente como o Princípio Recursivo atuou no trajeto. Por meio da recursividade, pude ir constituindo o conhecimento: visitei e revisitei alguns pontos, o que mostrou uma maturação e ampliação do meu modo de perceber. Mas esse foi um processo contínuo, porque as reflexões que acabei de apresentar foram relações possíveis de serem feitas no ponto da estrada em que me encontrava e, já adianto, depois do diálogo com os(as) Caminhantes, tais reflexões puderam ser redimensionadas. Quer dizer, a minha constituição como pesquisadora-caminhante, juntamente com meu caminho, fez-se mediante movimentações recursivas.
Desse modo, encerro este capítulo com os registros do trajeto, pois foi quando cheguei à Vila dos(as) Caminhantes (por isso, vou ao próximo capítulo).
4 VISITANDO A VILA DOS(AS) CAMINHANTES
Logo que cheguei à Vila, estava ansiosa para iniciar as conversas. Identifiquei todos os moradores e convidei-os a caminhar comigo, na busca por responder minha inquietação principal. Em nossos encontros, os diálogos se estabeleceram de forma dialógica, com diversos pontos de vistas, por vezes antagônicos, mas, como um processo recursivo, as falas dos(as) caminhantes foram se articulando, com a minha mediação, e constituindo reflexões bastante pertinentes.
Destaco que, a partir de agora, então, farei os registros das vozes daqueles que aceitaram meu convite da caminhada. O primeiro grupo de caminhantes foi constituído pelos pesquisadores que fizeram relações explícitas entre constituição de ambientes de aprendizagem e os Princípios da Complexidade, por isso conseguiram me acompanhar de imediato28. Já, o segundo grupo foi composto, depois, pelos(as) caminhantes que trouxeram contribuições à reflexão sobre a constituição de ambientes de aprendizagem. No entanto, minha presença entre eles é que fez emergir as relações com os Princípios da Complexidade29.
Dessa forma, considerando, o Princípio da Autonomia/Dependência, um dos meus guias do caminhar, apresento os registros desses dois encontros, permeados de certa liberdade e autonomia para o diálogo, mas com a dependência do formato textual e das placas sinalizadoras do trajeto. Então o formato que escolhi para fazer tais registros é apenas uma das formas que poderia ter sido elencada. Talvez, desse modo, não tenha conseguido atingir determinadas expectativas ou quebrar com certas linearidades da escrita, apesar de ter a intenção e buscar movimentar-me como pesquisadora imbricada na teoria e no contexto de pesquisa.
Sem mais ressalvas, eu sigo.