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87 Com base no desenho da charge e do conhecimento dos fatos que ela ilustra,

por um lado, e do reconhecimento de algumas letras das palavras apresentadas, por outro, RS tem mais chances de “ler”. Trata-se de um ambiente que favorece a compreensão da escrita, como os dados anteriores, da leitura do cardápio, indicam. RS interpreta o que está escrito porque se orienta pelo sentido sugerido pela ilustração, que pode significar, de fato, tanto uma coisa quanto outra (COUDRY, FREIRE, GOMES, 2006 e a sair), o que colabora para a hipótese de que RS trata a escrita/leitura como se fosse da ordem do desenho, isto é, como uma representação-

de-objeto, como visto no Dado 5. Freud diz que:

(…) es probable que para ciertos tipos de lectura, especialmente de algunas palabras, la imagem objetal de la palabra completa contribuya a su reconhecimiento. Esto explica que algunas personas, que son ‘ciegas para las letras’, es decir, incapaces de leer letras aisladas, puedan no obstante leer sus proprios nombres y algunas palabras muy familiares para ellas (FREUD, 1891/1973, p. 58).

É preciso esclarecer, no entanto, que Freud não relaciona esse tipo de leitura apenas a sujeitos com lesão. Mostra que é normal inclusive em sujeitos não lesionados e mostra ainda como, por vezes, a atenção demasiada às letras pode até prejudicar o processo da leitura com compreensão.

Todo el mundo conoce por autoobservación que hay varios tipos de lectura, por los cuales se llevan a cabo sin comprensión. Cuando yo leo pruebas de imprenta com la intención de prestar especial atención a las letras y a otros símbolos, el significado de lo que estoy leyendo me escapa hasta tal punto que necesito de una segunda lectura a fondo para corregir el estilo. Si, por otra parte, leo una novela que absorbe mi interés, paso por alto todas las erratas, y puede suceder que no retenga los nombres de los personajes que figuran em el libro excepto en lo referente a algún rasgo sin importancia, o quizás el recuerdo de que eran largos o cortos, y de que contenían una letra inusual como la x o la z. También, cuando tengo que leer en voz alta y prestar especial atención a las impresiones sonoras de mis palabras y a los intervalos entre ellas, surge el peligro de que me preocupe demasiado poco por el significado, y no bien se hace sentir la fatiga comienzo a leer de una manera que aunque el oyente sigue comprendiendo, yo mismo no sé qué

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estuve leyndo. Estos son fenómenos provocados por la división de la atención (FREUD, 1891/1973:89).

Saussure (1916/69) também aponta para essa questão dos modos de leitura ao dizer que:

(...) lemos de dois modos: a palavra nova ou desconhecida é soletrada letra por letra; abarcamos, porém, a palavra usual e familiar numa vista de olhos, independentemente das letras que a compõem; a imagem dessa palavra adquire para nós um valor ideográfico (SAUSSURE, 1916/69:44).

Além das palavras bem estabelecidas, no caso de uma leitura de charge atual RS pode levar – e de fato leva – para a leitura conhecimentos que vão além daqueles que se relacionam ao sistema lingüístico, em sentido estrito, da ordem da

representação-da-palavra, lugar de maior dificuldade. Dito de outra forma, depende

menos de um trabalho de decodificação/codificação de letras e palavras porque RS pode recorrer a conhecimentos pragmático-discursivos e a seu letramento (CORRÊA,1997). Vejamos o dado a seguir.

Dado 12 – O talão de cheques

RS fala sobre seu desejo de trabalhar e diz que gostaria de atuar na área de informática de um banco (sessão de 11/5/2005). Aproveitando esse tema, a investigadora lhe propõe uma prática com a linguagem de forma a avaliar a leitura e sua relação com o letramento, não afetado pelo estado de afasia44.

No. Sigla do Locutor Transcrição Observações sobre as condições de produção do enunciado verbal Observações sobre as condições de produção do enunciado não- verbal

1 Iff E o que você faria nesse lugar

[banco]?

2 RS Cheques.

3 Iff Pega seu talão de

cheques e mostra

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Relação que não se desassocia na afasia em geral (e não apenas no caso de RS), como postulou Coudry (2002b/2006) no Prefácio da publicação de Freire (1999/2004). Tal relação ainda foi introduzida por Coudry (2003) no Projeto Integrado em Neurolingüística (CNPq/521773/95-4). Destacam-se, sobre esse tema dentro do Projeto, as pesquisas de Freire (1999 e 2005); Coudry (2002; 2002b/2006 e 2003) e Murai (2004).

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para RS.

4 Iff Em que banco eu tenho conta?

5 RS Banespa Olhando para uma

das folhas do talão.

6 Iff Mas não é mais só Banespa,

né? Agora é também

Tom interrogativo

7 RS // Olhando a folha do

talão

8 Iff San... Tom interrogativo

9 RS Santander.

10 Iff E onde está escrito o nome do

cliente?

11 RS RS mostra com o

dedo o lugar em que está escrito o nome.

12 Iff Então leia o meu nome escrito

aqui.

13 RS Fernanda //

14 Iff [m]... Tom: interrogativo

15 RS //

16 Iff Maria / E o terceiro nome?

17 RS //

18 Iff é igual ao nome da árvore que

dá pêra.

19 RS //

20 Iff Azeitona ou oliva vem da

oliveira, não é? Meu nome é o nome da árvore que dá pêra.

21 RS Pere /

22 Iff Pereira

23 RS Pereira

24 Iff O último nome é parecido com a

palavra freira.

25 RS Freire.

26 Iff E como é possível saber que

tipo de conta que eu tenho?

27 RS Aponta para a

escrita da

expressão “cheque especial”

28 Iff E o número da conta?

29 RS Aponta para a escrita do número 30 Iff E o endereço? 31 RS Aponta para a escrita do endereço da agência.

32 Iff E pela capa do talão é possível

saber se se trata de uma conta especial ou não?

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33 RS Aponta para a

escrita da palavra “preferencial”

34 Iff Então lê essa palavra em voz

alta.

35 RS //

36 Iff Pre… Tom: interrogativo

37 RS Peferencial.

Fonte: Tabela BDN CNPq n° 521773/95-4 Os conhecimentos pragmático-discursivos e do letramento são os que orientam RS a saber que as informações no talão de cheques estão dispostas em certos lugares, o que permite que ele as leia corretamente (tipo de leitura também feito por crianças em fase de aquisição da língua escrita, pois inferem o significante a partir das imagens, como aponta Ferreiro (1996; 1999; 2003). Do ponto de vista clínico da prática com a linguagem que orienta a Neurolingüística Discursiva, aproveitamos esses conhecimentos, sobretudo em atividades de leitura.

No caso da charge, essa leitura também ocorre, mas interpretar a palavra “doente” como “desolado” mostra que a interpretação de RS é baseada na fisionomia do personagem da charge. RS não se atém nem à ambulância, que indica um estado de saúde adoecido do paciente, nem ao todo da figura, que poderia levá-lo a pensar em “doente”. O que o dado parece revelar é que a imagem da ambulância, que é figura, fica muito no fundo, como se houvesse uma alteração na profundidade da visão. O Dado 9 mostra a leitura da palavra como do domínio da representação-de- objeto, mas também aponta para a apraxia visuoconstrutiva, que pode interferir na leitura da palavra nesse dado e, possívelmente, na leitura da palavra “bicedo” que escreve no Dado 1. RS reconhece a letra “o”, como se a palavra não se formasse toda. Lê algumas de suas partes.

É essa mesma apraxia visuoconstrutiva que aparece em atividades de diversas ordens, como vimos até esse momento. Em todas essas atividades relatadas, tanto a respeito da afasia semântica quanto da apraxia visuoconstrutiva, há o elemento espacial e/ou quase-espacial e cujos sentidos não são produtos da soma das partes, seja de textos não-verbais ou verbais e, nesse ultimo caso, seja matemática ou lingüística. No dado a seguir, produzido em abril de 2004, parece que a mesma situação ocorre.

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