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3. A ROTINA

3.4. Uma pedagogia informal

3.4.3. Com o “bumbo no pé direito”

Vimos que, no regime de internato parcial do CFO, os cadetes permanecem reclusos na APM durante toda a semana letiva, sendo liberados somente nos finais de semana. Vimos também que a rotina dos cadetes apresenta atividades de controle numa temporalidade meticulosamente racionalizada, o que deixa a APM com características parecidas com as de algumas “instituições disciplinares” que, na sociedade industrial, se especializaram na “docilização” de corpos (FOUCAULT, 2007, p.117-142).

Nesse sentido, a rotina dos cadetes, geralmente orientada por toques de corneta que lhe ditam um ritmo escandido, tem sua ordem mantida por normas e regulamentos específicos. As Normas Gerais de Ação (NGA), por exemplo, definidas pelos comandantes das unidades militares, têm o objetivo de regular a rotina e as atividades coletivas internas. Como uma unidade militar, a APM também possui suas NGA regulando condutas cotidianas, dentro das quais há normas específicas para o Corpo de Alunos. Qualquer alteração nessa rotina regularmente estabelecida deve ser publicada no Boletim Interno98 (BI) por meio de “notas instrutivas” que são adicionadas às NGA. Assim, todos podem, em tese, tomar conhecimento das mudanças ocorridas nessa normatização interna. No entanto, vimos que é nas práticas que a maioria dos cadetes aprende como deve proceder.

Existem ainda outros regulamentos, dentre eles o Regulamento Interno dos Serviços Gerais (RISG) que trata dos serviços do aquartelamento e que, apesar de originário das Forças Armadas, é adotado pela PM por ser comum a toda unidade militar, e o Regulamento Disciplinar da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (RDPM ou “RD”) que trata da justiça e da disciplina militar na PMERJ.

Aprovado pelo Decreto nº 6.579 de 05 de março de 1983, o RDPM é um – senão o principal - mecanismo formal de controle social que prevê sanções, tanto positivas (elogios e recompensas), quanto negativas (punições), para os policiais militares, embora sua representação seja a de um instrumento de punição apenas. É interessante ressaltar, no entanto, que ele define transgressões policiais militares pelo viés do militarismo, pois a maior parte delas se refere a condutas típicas da caserna, numa transcrição quase que literal do Regulamento Disciplinar do Exército (RDE).

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Documento informativo diário oficial que toda unidade militar possui, onde estão publicados os atos do Comando. Trata-se, portanto, de uma interessante fonte para pesquisas da vida formal da Unidade e de seus integrantes. Existem ainda os boletins da PM (BOL PM) onde são publicados atos do Comando Geral da PMERJ que, normalmente, dependendo do interesse das Unidades e da determinação do Comandante Geral, são transcritos no BI das Unidades.

As punições do RDPM têm como alvo originário a PMERJ, só sendo aplicadas na APM em casos específicos, já que as chamadas “faltas de aluno” requerem punições mais brandas, como o Licenciamento Sustado (LS) que cerceia o cadete de sua liberação de fim de semana e que existe apenas nas Unidades de Ensino. Apesar de esse tipo de sanção mais branda estar prevista nas NGA, observei que estas não contemplavam uma tipificação clara dos fatos em que tal sanção devesse ser aplicada, o que me levou a concluir que seu uso dependia de uma interpretação daquelas regras de procedimento estabelecidas nas notas instrutivas99 conforme a sensibilidade moral de quem as aplicasse no momento.

Outro regulamento importante para a ordenação do espaço social da APM é, sem dúvida, o Regulamento de Continências (RCONT), também comum a todas as instituições militares, tanto estaduais quanto federais. Ele “dispõe sobre Continências, Honras, Sinais de Respeito e Cerimonial Militar das Forças Armadas” (BRASIL, 1997), padronizando, nesse sentido, os procedimentos rituais e os cerimoniais militares promovidos por essas instituições militares. Trata-se, portanto, de um regulamento bastante usado na APM, sobretudo naquelas solenidades que marcam a passagem das diferentes gerações de cadetes pelo CFO.

Essa preocupação com a manutenção da ordem interna fez com que, mesmo com o passar dos anos, não ocorressem grandes alterações na rotina dos cadetes. Um ou outro procedimento pode ter sido incluído, suprimido ou substituído, ou ainda pode ter tido seu horário alterado, mas certamente tais mudanças não comprometeram a estrutura de rotinas da APM, de maneira que um dia normal de atividades, o que exclui os momentos festivos, continua apresentando mais ou menos o seguinte quadro:

05h30min - Alvorada

A corneta acorda o quartel no início da manhã com o “toque de alvorada”, obrigando os cadetes a estar de pé logo pela manhã, o que normalmente os deixa sempre irritadiços e mal-humorados. Com poucas palavras, já incluídas as interjeições, os cadetes são

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Em 2003, eram 22 Notas Instrutivas que compunham as NGA da APM versando sobre os seguintes assuntos: HORÁRIOS E ATIVIDADES DO CA; PARADA DIÁRIA DO CA; SERVIÇOS ATRIBUÍDOS AOS CADETES; USO DO UNIFORME; UTILIZAÇÃO DOS APARTAMENTOS; CONTINÊNCIA NA ACADEMIA; CIRCULAÇÃO NAS DEPENDÊNCIAS DA APM; PROCEDIMENTO NO RANCHO; CORTE DE CABELO; ATIVIDADES CO-CURRICULARES; ENXOVAL E MARCAÇÃO DE PEÇAS; VISITA MÉDICO-ODONTOLÓGICA; VISITAS AOS CADETES / RECEPÇÃO; REGALIAS E OBRIGAÇÕES DO CADETE PADRÃO; PENAS DISCIPLINARES; UTILIZAÇÃO DO TELEFONE; QUADRO DE ORDENS E AVISOS; DESLOCAMENTO; LIMPEZA E CONSERVAÇÃO DO QUARTEL; DISPENSAS DO CA; PROCEDIMENTO EM SALA DE AULA; E ASSUNTOS DIVERSOS. A maioria desses assuntos foi tratada neste trabalho, quando observada a dinâmica social da APM.

monossilábicos nesses momentos iniciais de sua rotina diária. A qualquer momento um cadete mais antigo da equipe de serviço pode entrar no alojamento anotando recalcitrantes que ficaram mais tempo na cama. Alguns preferem mesmo correr esse risco, a largar os braços oníricos de “Morfeu”, o que lhes poderá render, como punição, um final de semana a mais na Fazenda. Nesses momentos iniciais, os cadetes realizam sua higiene pessoal - os homens fazem ainda a chamada “tricotomia facial”, ou seja, a barba - e se aprontam para a educação física.

06h00min - Educação física

O expediente previsto no QTS tem início com a prática da educação física. Ao observarmos a distribuição da carga horária no programa curricular, percebemos a importância dessa disciplina para o CFO: são-lhe reservadas nada mais nada menos que 180 horas-aula em cada ano do curso. A forma como na maioria das vezes ela é praticada, com movimentos coletivos padronizados, é muito parecida com a que se utilizava nas instituições militares, a chamada “calistênica”. Normalmente a aula de educação física reúne, de um lado, o desespero de quem está abaixo das condições físicas da média do grupo e, de outro, o prazer daquele que está bem e interiorizou essa prática como um valor.

No início do curso, há os infindáveis “corridões” que parecem fazer parte do mesmo pacote de provações que marcam a iniciação do neófito. Geralmente os cadetes dão a “volta ao mundo” nas segundas e nas sextas-feiras, quando realizam um circuito de aproximadamente dez quilômetros, saindo da APM, indo até o bairro vizinho de Deodoro, atravessando a Vila Militar e, depois, retornando à Sulacap por Marechal Hermes.

Essas aulas preparam o aluno para as provas de educação física que vão ocorrer durante todo o ano letivo. A parte fixa dessas provas se constitui no chamado TAF (Teste de Aptidão Física), que contém barras, abdominais e uma corrida de 12 minutos. A outra pode eventualmente conter a natação, a corrida cross country, a ginástica localizada, ou, ainda, as recreações com variadas práticas desportivas.

07h15min - Desjejum

Após a aula de educação física, os alunos se dirigem ao rancho para o café e depois se dirigem rapidamente a seus alojamentos para o banho. Logo depois, ele se vestem

rapidamente com uniformes de parada para o hasteamento da bandeira que ocorrerá às oito em ponto: a ela, todo o militar deve o seu preito ritual como determina o RCONT. Portanto, antes das oito, a corneta já chama as companhias para o posicionamento padronizado no centro do pátio interno, reunindo os cadetes à frente do saguão da Ala Sul para o deslocamento de todo o CA em direção ao pátio externo. Ali estão os mastros que sustentarão os pavilhões, nacional e estadual, a serem hasteados durante o evento.

08h00min - “Paradão”

A “parada diária” é um elemento essencial da cultura militar. Ela apresenta aquele mesmo “mecanismo básico de reforço” que encontramos no ritual militar das comemorações do Dia da Pátria (Cf. DAMATTA, 1990). Na APM, um tipo especial desse ritual se refere ao momento em que todo o aquartelamento se reúne para a chamada “parada geral” ou “paradão”. É um daqueles momentos em que o tempo é suspenso para que o Corpo passe em continência às autoridades, aos valores militares e aos símbolos nacionais. Noutras ocasiões esse mesmo aparato também vai emoldurar os principais cerimoniais da APM, ajudando a reforçar os valores militares da APM.

Outros quartéis da PMERJ deveriam realizar a “parada diária” como determina o RCONT, no entanto, devido à ambigüidade do fazer policial militar e aos objetivos institucionais da Corporação, que fazem com que o policial esteja, na maioria das vezes, desempenhando o trabalho policial na rua, é normal que esse preito deixe de ser realizado, quer por falta de efetivo, quer por falta de interesse. Mesmo quando promovido nos Batalhões de Polícia Militar (BPM), ele quase sempre deixa de seguir, à risca, os detalhes exigidos no RCONT.

Na APM, dependendo do comando, pode haver períodos em que ele seja realizado somente com a equipe de serviço do dia. Normalmente isso ocorre nos finais de semanas e feriados, quando a maioria dos cadetes não está presente. Entretanto, é certo que o “paradão” ocorra nas sextas e/ou nas segundas feiras. Nessas ocasiões, as companhias entram em forma por ordem de antiguidade, uma após a outra. A primeira CIA, composta pelos “veteranos”, vem na frente; depois, a segunda e, por último, a terceira, formada pelos “bichos” do Primeiro-ano. O conjunto forma um bloco compacto que representa a totalidade do CFO. À frente das CIAs vão seus “comandantes-alunos”, que, segundo a Nota Instrutiva nº 025, são os alunos do Terceiro-ano que obtiveram as melhores médias na passagem do segundo para o

terceiro-ano (do 2º ao 10º colocados), adquirindo assim o direito de comandá-las e de comandar seus pelotões. Trata-se já de um exercício para a profissão, pois, como se pode concluir da frase do General Pessoa, ali o cadete está justamente para aprender a comandar. Assim, a parada avança com os cadetes marchando ao som da corneta, ao passo de “ordinário, marche!” e com o “bumbo no pé direito”!

Figura 10 – O “paradão” segue.

Com movimentos sincronizados, quase sempre acompanhados pela melodia da marcha militar executada pela Banda de Músicos - que vai à frente da formatura -, ou mesmo de uma canção entoada à viva voz pelos próprios cadetes, o “paradão” segue firme até o local onde diariamente são hasteadas as bandeiras nacional e estadual. Os alunos do Terceiro-ano o comandam até a chegada dos oficiais. “É uma forma de eles treinarem para a vida profissional”, dizem os oficiais. Assim que o oficial mais antigo assume o seu lugar na parada, reservado bem de frente para o Corpo formado, o aluno mais antigo sai de forma e se dirige até ele numa teatralidade marcial de passos lentos e cadenciados, para lhe passar o comando do “paradão”. É um momento tenso para o cadete que ali tem de se separar de seu grupo, o que é raro de ocorrer naquele espaço estruturado dentro de uma lógica holística de

individualização regulada pelo CA, mas que faz parte de um objetivo programado. A freqüência desses momentos vai aumentando com o decorrer das etapas do CFO, o que revela uma passagem gradativa do coletivo à individualização: se o cadete representa o coletivo, o oficial de estar individualizado no comando das frações. Esse processo guarda, portanto, alguma similitude com o que Foucault chamou de “individualização controlada” (Cf. FOUCAULT, 2007).

Figura 11 – Apresentação do “paradão” para o hasteamento da Bandeira.

As bandeiras são hasteadas às oito horas em ponto, ao mesmo tempo em que é executado o hino nacional. Todos prestam suas continências (individual ou coletiva) e, logo depois, os cadetes se preparam para se deslocarem em direção ao palanque, no pátio interno da APM. Ali, eles prestam mais uma vez a “continência de tropa”, agora ao oficial mais antigo que se encontra justamente naquele palanque construído especialmente para momentos solenes.

Todas as turmas passam em ordem de antiguidade e, após cada uma delas prestar sua continência, se posicionam no lado oposto do palanque, de onde, sem cessar a cadência

marcial, continuam seus deslocamentos em filas indianas, seguindo na direção de suas respectivas salas de aula na Ala Leste, logo atrás do palanque.

08h10min - Início do 1º expediente em sala de aula

Geralmente, por volta das oito horas e dez minutos, os alunos já estão em sala de aula esperando, até no máximo às oito e quinze, o professor ou instrutor que dará início à seqüência das aulas do primeiro expediente. Antes isso, no entanto, os cadetes ficam de pé, na posição de sentido, prestando-lhe a devida reverência ritual. O primeiro expediente prossegue assim até por volta das onze e quarenta e cinco, quando ocorre um intervalo para o almoço.

11h45min - Almoço

Os alunos saem de suas salas para o almoço, marchando coletivamente pelo pátio em passo ordinário até o rancho, da mesma maneira que se deslocam para o auditório, por ocasião das reuniões ou outros eventos extraordinários. Quando não há necessidade de deslocamento coletivo, apenas veteranos e cadetes do Segundo-ano, ou os “extropiados” podem caminhar enquanto os “bichos”, pelo menos até o “Espadim”, têm de atravessar o pátio sempre em passo “acelerado”, isto é: “- Correndo, bicho!”.

Do rancho, onde almoçam, os alunos são dispensados para um pequeno descanso em seus apartamentos. É evidente que os cadetes do terceiro-ano terão um tempo maior, porque entram no rancho na frente - antiguidade é posto - e, consequentemente, saem para seus apartamentos também na frente dos demais. Neste sentido, o “bicharal” quase não tem tempo de subir e descansar, “ainda mais com esses efetivos enormes. O atual Primeiro-ano tem mais de cem alunos100!”, como reclamou um cadete do Terceiro-ano do CFO/2003. O bicho só consegue fazer, no máximo, a higiene bucal e, com sorte, alguns outros atos que a fisiologia humana, agora ritual e literalmente equiparada a de bichos, eventualmente venha lhes exigir. Assim, para os últimos:

“cagar e mijar é luxo que a gente só consegue rapidinho nos intervalos das aulas. Assim mesmo, somente no banheiro do pátio. Muito concorrido. Os outros estão no [Prédio] Anexo, que é área proibido para o ‘bicharal’ [no início de CFO]” (cadete do Primeiro-ano do CFO/2003).

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13h00min – Início do 2º expediente em sala de aula

Por volta da uma da tarde, os cadetes descem e entram novamente em forma; ouvem a leitura do BI, que contém informações específicas da APM, mais as informações gerais transcritas do Boletim da PMERJ. Depois disso, eles seguem mais uma vez para suas salas.

O segundo expediente começa por volta das treze horas e vinte minutos, quando os cadetes já devem estar prontos aguardando o professor para a primeira aula, exceto nas sextas- feiras, dia de liberação em que só há o primeiro expediente, o expediente da APM termina às quatro e quinze da tarde.

Após o término do último expediente, os cadetes estão liberados até o jantar. Alguns aproveitam para participar das equipes desportivas, que normalmente treinam nesse intervalo. Alguns o fazem pelo prazer, outros pelo prestígio ou para driblar a pressão daquela rotina; outros, ainda, por razões práticas, “piruando” conceitos melhores como veremos adiante.

18h00min - Jantar

Por volta das dezoito horas, os cadetes entram em forma em frente ao rancho para o jantar. Antes disso, são conferidos pelos mais antigos da equipe de serviço. “Só vai entrar quem botou o nome no vale de rancho!”, advertem. O rancho é uma atividade entendida como serviço e, por isso, o cadete é cobrado a comparecer devidamente uniformizado, mesmo quando fora do expediente, como se estivesse de serviço.

Depois do jantar, o Corpo de Alunos é dispensado até o “pernoite”, última apuração (confere) do dia. Mas estar escalado de “pernoite” nos finais de semana sem ser da equipe de serviço funciona também como uma punição informal: a “Rev Rec”, isto é, Revista do Recolher, que obriga o cadete a se deslocar até a APM para essa única finalidade.

Após tudo isso, os horários são flexíveis na APM. Para o “bicharal” vale, nesse caso, a seguinte máxima difundida pelos veteranos: “bicho, a noite é uma criança”. É o momento tradicionalmente propício para o “trote”. Para os alunos do Segundo-ano, então livres dessa relação, é uma excelente oportunidade de colocar os estudos em dia.

Ao toque do “silêncio”, todas as luzes dos alojamentos, exceto as do banheiro, devem ser apagadas e todos os cadetes devem, em tese, estar na cama. No mundo militar, o “silêncio” significa descanso. Mas, como descanso para cadete é relativo, na “alvorada” ele já têm de estar de pé, às 05:30 h, para a nova jornada. Além do mais, é possível que haja os trotes da madrugada. Contudo, o toque do “Silêncio”, conhecida composição da lavra de Nini Rosso, é bem diferente do toque da alvorada. Sua melodia melancólica é a mesma que dali por diante preencherá os momentos de dor na carreira policial militar, marcando a separação do companheiro morto em serviço, nos rituais fúnebres.