III. NAS TRILHAS DOS ENCANTADOS
6 UMBANDA: MODO DE VIDA SINGULAR
6.4 COM A FOLHA DA JUREMA, EU LEVANTO UM, EU LEVANTO DOIS
Com a folha da jurema Eu levanto um, eu levanto dois Eu levanto três Com a folha da jurema Eu levanto quatro, eu levanto cinco Eu levanto seis (Ponto cantado do Centro de Umbanda Irmão Carlos)
Essa sessão apresenta a disposição da Umbanda em produzir um modo de compreensão da realidade que se deixa conduzir a partir de uma razão que incorpora o sensível, o intuitivo e reconhece os saberes ancestrais como fundamento primordial para o seu modo de vida. O ponto
cantado, mencionado acima, revela a importância da farmacopeia ancestral nos rituais religiosos, mas também evidencia a abertura para práticas e condutas que se tecem a partir de uma razão sensível aos encantos do sagrado.
Levantar um, levantar dois, levantar três é instituir sobre o mundo um conjunto de práticas que se fundamentam nos saberes ancestrais, saberes ritualísticos, saberes prescritivos, saberes que zelam pelo mundo e que se constituem em suportes simbólicos que asseguram a continuidade de outras razões civilizatórias185.
Acessar esse modo singular do conhecimento é estabelecer fissuras com os postulados aprisionadores de uma racionalidade que exclui tudo que não está em concordância com o que foi erigido como racional pelo criterioso estatuto da ciência. Segundo Maffesoli (1996, p.70): “reduz-se [...] o conhecimento aos critérios da ciência, tal como é elaborada pelos positivistas: só é real o que é racional, todo o resto não passa de baboseiras perigosas das quais convém se livrar, ou pelo menos relegar às esferas particulares da existência”.
O conjunto de saberes e práticas da Umbanda firmam-se em uma razão sensível, suas racionalidades anteparam-se nos saberes ritualísticos, nas narrativas dos encantados e nas práticas mágico-religiosas, forjando assim, um outro modo de compreensão da realidade que em sua dinâmica acolhe o sensível, o intuitivo e o invisível.
Na Umbanda, o mundo é compreendido como uma tessitura complexa, acessar seus mistérios exige sensibilidade para captar o devir constante que emana das razoes imanentes e transcendentes que permeiam o mundo. A entrevista citada abaixo nos apresenta um outro modo de compreensão dos eventos do mundo.
Eu lembro bem do irmão Estrela Branca dizendo: “meu filho, você precisa aprender a ler sinais. Seu povo quer que você aprenda a ler sinais”, e eu ficava querendo saber como era que eu ia aprender a ler sinais porque o sinal pode ser um instrumento de livramento, como pode ser instrumento de uma resposta, como pode ser instrumento de um caminho que eu devo tomar. Então se eu não sei ler aquele sinal eu não sei o que está dentro, por exemplo, de um canto de um beija-flor naquele dia, naquela hora, naquele momento; o voo de um pássaro sobre mim ou sobre uma pessoa ou sobre a minha casa, ou sobre o momento de algo que eu estou resolvendo, então eu não sei, né... tirar dali o que eu preciso buscar para poder resolver um problema; quando uma entidade chega e lhe presenteia com o instrumento dela, uma ferramenta dela, ela já está lhe dando, lhe reconhecendo alguém que pode ter aquilo e que também tá lhe dando um instrumento poderoso de livramento. (Paulo Gonçalves, 48 anos. Entrevista realizada na residência do entrevistado, março de 2017).
No Centro de Umbanda Irmão Carlos, as interpretações dos fenômenos do mundo não se encerram nos domínios fortificados da razão dominante. Na verdade, o modo de vida umbandista atua a partir de uma razão que evoca e acolhe formas sensíveis de compreensão do mundo. A intuição, os sonhos, as visões na Umbanda são modos sensíveis pelos quais os umbandistas significam e acessam as suas realidades. A narrativa da umbandista Gisele esclarece as reflexões acima mencionadas.
Eu tava vindo em uma sequência de muitos sonhos com acidentes de carro, acho que sonhei por três vezes, era comigo e era com outras pessoas. Aí depois uma outra pessoa falou, olha eu sonhei com você em um acidente de carro, ai chegou uma outra pessoa e disse sonhei com você em um acidente de carro. Eu sonhei uns três dias com acidente de carro e depois chegaram algumas pessoas e disseram que tinham sonhado comigo em acidentes de carro. Eu disse poxa, tem alguma coisa aí. [...]. Eu fui em Estrela Branca, ele jogou e disse: minha filha faça uma penitência de nove dias porque o negócio tá sério, tem alguma coisa que tá no seu caminho, se não fizer algo para interferir vai acontecer. Eu fiz o processo e teve uma formatura [...], eu fui com Paulo em Valença e teve chuva no meio do caminho, foi uma viagem estranha... aí quando a gente voltou no dia seguinte, eu falei para ele e ele disse que tinha recebido uma intuição que ele tinha de que ter um cuidado maior, pois, existia a possibilidade de um acidente, mas eu tinha feito as penitências, então, o livramento aconteceu. (Gisele Aparecida Alves Santos, 33 anos. Entrevista realizada na residência da médium, agosto 2018).
A razão sensível que está presente no modo de vida da Umbanda não é uma mera atitude mental, ela é um modo sensível de compreender o mundo, não abdica do corpo, mas faz dele uma condição potente para instituir-se. Do corpo se retira todo o peso produzido pela tradição filosófica ocidental que o concebeu como detentor de enganos e equívocos. Nele se desdobram as intuições, os sonhos e a poética de encantos que contorna a vida e extrapola as limitações produzidas pela razão objetiva.
Os umbandistas estão em constante processo de purificação. Os banhos, as iniciações espirituais, constituem-se em uma série de rituais que visam o cuidado do corpo. O corpo é o templo primordial por onde as forças sobrenaturais acessam o mundo material. Nesse sentido, cuidar de si, cuidar do corpo em seus múltiplos desdobramentos (físicos, morais e espirituais) é manter-se em diálogo constante com o sagrado. Nos relatos dos umbandistas do Centro pesquisado, o cuidado consigo se dá pelo cuidado do corpo, é sobre ele que se lança todo um conjunto de conhecimentos e proteções buscando o livramento dos infortúnios da vida. Em sua narrativa seu Orlindo nos revela os cuidados prescritivos adquiridos no modo de vida da Umbanda.
As conta... Eu sinto que ela nos ajuda a livrar as coisas. Cê sai na rua, num leve suas contas pro mundo ver, pra ninguém saber. Porque eu acho tudo que faz mais oculto é melhor. [...]Mas eu acho importante... Eu acho importante você ter suas contas... Tanto que o guia pede, todo guia tem conta. [...] as contas são a proteção da gente. Porque, você veja, você usar uma conta de Oxalá, uma conta de, de Ogum,
uma conta de Oxóssi ou de... aquilo ali é pra sua proteção. Porque essa conta aqui é Ogum, é a minha proteção. Sempre tomar banho de folha. Eu acho importante, principalmente no dia de reunião. Eu mesmo vou voltar, tomar meu banho, essa alfazema... É uma maravilha pra se fazer um banho no dia de reunião porque ela não é pesada. Você não vai tomar um banho de espada de Ogum, de Oxóssi num dia assim. Mas você, no dia que você sentir... tem um dia que você sente o corpo mais pesado. Aquele dia, você toma um banho de folha. Tem dias que a gente tá mais pra lá do que pra cá...você tá indisposto, até pra você dirigir um carro, você tá indisposto. Aí, o que é que você faz? Você tem que tá preparado, faz um banho, toma aquele banho de folha. (Orlindo Barbosa,79 anos. Entrevista realizada em sua residência, em Alto de Coutos, maio de 2017).
Os saberes e práticas da Umbanda não permanecem unicamente no espaço de culto religioso, os umbandistas fazem uso constante deles no transcurso de seu cotidiano. As narrativas dos umbandistas entrevistados revelam que as experiências adquiridas na Umbanda são também utilizadas na resolução de problemas familiares e de pessoas próximas do círculo afetivo. O cuidado consigo, o cuidado com corpo na Umbanda, não é um modo de saber que se encerra em si mesmo, mas potencializa-se em ações de compartilhamentos com outros corpos, outras vidas, com outros. Em sua narrativa, seu Orlindo expressa sua disposição para atender as demandas do cotidiano a partir do corpus de conhecimento erigido na Umbanda.
Se for o caso de chegar aqui eu dar um sacudimento, eu dou um sacudimento, sempre de olhado, sempre as pessoa me… Tereza mesmo tem um netinho… Sempre ela fala… Tava aí se acabando, eu rezei ele. Glorinha tava viajando, ela veio aqui, o bichinho se acabando, eu rezei. Num sou rezador, mas o que eu sei fazer com as palavras de Deus, com a minha fé, resolvo. Às vezes, quando, a menina mesmo… É só o menino adoecer, ela me chama [...] É só ele sentir a dor, adoecer ela me grita: painho, venha cá, [...] ele é meu cliente. (Orlindo Barbosa,79 anos. Entrevista realizada em sua residência, em Alto de Coutos, maio de 2017).
O modo de vida da Umbanda é tecido por uma racionalidade que atua a partir do contorno do sensível, nele instala-se uma outra ordem, nessa arquitetura de compreensão da realidade. O mundo vivido e o sagrado não são atravessados por cisões ou dualismos, na verdade, eles se integram em um fluxo polissêmico onde adeptos e encantados atuam sobre a vida acessando suas intuições, sensibilidades e saberes ancestrais.
No atendimento das demandas que solicitam suas intervenções, os umbandistas não atuam unicamente a partir dos saberes práticos para resolução dos problemas cotidianos, existe sempre nesse modo de vida singular, uma lacuna, uma fissura, uma abertura para manifestação da experiência intuitiva. Os relatos dos umbandistas abaixo apresentam a manifestação da experiência intuitiva nos seus cotidianos.
Às vezes, eu fico assim, né... aí, me vem na mente folha tal, folha tal. Aí, eu vou pegando. O que vem na mente, aí eu vou pegando, né? Vou pegando e boto. Eu acho que só pode ser dos meus guias. (Terezinha da Conceição, 67 anos. Entrevista realizada no Centro de Umbanda Irmão Carlos, junho de 2017).
Um outro médium também explicita o seu modo intuitivo de compreensão da realidade.
Eu acredito que tem uma coisa que me dá aquela… Porque eu vou dizer assim, eu paro aqui… Eu digo assim, vou fazer um banho ali… Eu chego ali, a pessoa precisa tomar um banho. Aí, me vem na cabeça qual é a folha que eu posso passar. [...] Eu tinha uns pressentimentos. Meus sonho era certo demais, você quer ver uma… ói, se eu tiver um sonho… o dia amanhecendo, no correr da noite, não, porque é um sonho atribulado, mas o sono de manhã, que é um sono tranquilo, aquilo ali, se eu tivesse um sonho, nem esquentava, já sabia que aquilo ali era verdade. O que me acompanha, me acompanha desde menino. Eu nunca fui só. Eu via os vulto passar junto de mim. Eu nunca fui só. (Orlindo Barbosa, 79 anos. Entrevista realizada na residência do umbandista, novembro de 2016).
Os saberes e condutas da Umbanda se asseguram na presença das forças ancestrais que orientam o modo de vida dos umbandistas. A intuição, os sonhos são formas sensíveis pelas quais os encantados inspiram, antecipam, alteram a dinâmica da vida de seus adeptos. No modo de vida da Umbanda é o contato constante com as forças ancestrais que asseguram os saberes, as condutas e o modo de enfrentamento e superação dos desequilíbrios da vida. Atua-se sempre a partir de uma razão que não abdica das forças encantadas.
Na umbanda não se anda só, ela se faz de muitos, sua modelagem é múltipla. Seu modo de vida é tecido a partir da razão sensível, razão que não abdica dos encontros com outras paisagens, sejam elas indígenas, africanas, europeias ou afrobrasileiras. Quaisquer tentativas de abarcar as suas múltiplas forjas a partir de uma única narrativa levará os incautos a precipitarem- se em terras alheias, e como dizem os Caboclos “terra alheia não é morada”.